
COLOCANDO A FÉ EM AÇÃO
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Um pecado gravíssimo
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Por Victor Rodrigues
Diversos estudos científicos mostram que o perdão é benéfico para a saúde. Ele reduz o estresse, a ansiedade e os sintomas de depressão. Além disso, melhora o humor, a qualidade do sono e o sistema imunológico, aumentando a longevidade. Inclusive estudiosos que atuam na interface entre fé e ciência consideram que perdoar proporciona cura mental e emocional, especialmente em situações de traumas profundos, perdas e frustrações. Por sua vez, teólogos e pastores afirmam que o cristianismo é um aliado fundamental nesse processo por oferecer as bases espirituais para a prática do perdão. De acordo com eles, a mensagem do Evangelho apresenta o ato de perdoar não apenas como um benefício individual, mas também como um mandamento de Deus que, se não cumprido, traz consequências: Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós (Mt 6.14,15).
Sob a ótica evangélica, perdoar ressignifica a dor e permite que o indivíduo reencontre propósito e construa uma história de superação.
Estratégia poderosa – É o que prega o Pr. Gilson Bifano, para quem a teologia do perdão precisa ser mais estudada no meio evangélico. Líder do Ministério Oikos, uma associação cristã de apoio à família fundada há 28 anos, o pregador esclarece que perdoar não significa esquecer. “É uma das atitudes mais difíceis nos relacionamentos, principalmente no âmbito familiar. O perdão é um processo demorado, que passa por estágios. Ele não nos faz apagar a ferida, mas tira do coração o desejo de retribuição ao agressor e entrega essa parte a Deus”, afirma ele, referindo-se à passagem de Romanos 12.19: Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor. Bifano ressalta a necessidade de recorrer ao Altíssimo, pedindo a Sua ajuda para demonstrar amor e compaixão a quem nos feriu. Desse modo, estaremos seguindo o exemplo de Jesus, que perdoou os pecados de toda a humanidade. “Quando nos parecemos mais com o Salvador, recebemos do Espírito Santo a capacidade de perdoar.”

Segundo a psiquiatra cristã Marta Maria Freire, que integra a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), torna-se cada vez mais urgente buscar estratégias eficazes para melhorar a saúde mental e emocional de modo a enfrentar o estresse e a ansiedade, tão presentes no mundo atual. Nesse cenário, afirma Freire, a prática do perdão é uma ferramenta poderosa, capaz de aumentar a sensação de bem-estar e equilibrar corpo, mente e espírito. Comparando nossa mente a um jardim, a especialista explica que a ausência de perdão é a erva daninha que enfraquece e compromete o solo, impedindo que ele floresça. “Ela se manifesta como ressentimento, raiva, ansiedade e depressão”, destaca Marta, acrescentando que o perdão remove essas ervas indesejadas e aduba o solo, “permitindo o surgimento de plantas novas e saudáveis”.

A médica pontua que estudos científicos realizados nas últimas duas décadas corroboram a percepção de que o ato de perdoar — a si mesmo, aos outros ou, na perspectiva cristã, ser perdoado pelo Todo-Poderoso — gera transformações profundas e duradouras. “O perdão alivia a ‘ruminação’ sobre a situação e o abusador, cortando vínculos emocionais e desmantelando parte do ciclo de retraumatização”, pontua Marta Freire. Ela se refere ao padrão psicológico no qual um indivíduo, que já vivenciou um trauma, é repetidamente exposto a situações que evocam a dor e o medo originais, reforçando os efeitos negativos da experiência, impedindo a cicatrização emocional e mantendo a pessoa presa a um ciclo de sofrimento. “O perdão pode ser catalisador para a reconstrução de significado, permitindo ao indivíduo encontrar propósito renovado e testemunho de superação”, explica a psiquiatra, destacando que o perdão funciona como um processo interno de liberação emocional. De acordo com ela, as neurociências e a fé cristã convergem no entendimento de que o perdão, especialmente em situações traumatizantes, é um ato de coragem e amor-próprio, que permite romper com o peso do trauma, restaura a identidade e faz a pessoa encontrar esperança e significado em um futuro que antes parecia impossível. “É uma jornada que abrange todas as dimensões do ser humano em busca da cura integral.”
Já o psiquiatra Eduardo Tischer, membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), explica que quem não perdoa carrega ressentimentos do passado e convive com pensamentos recorrentes, o que pode gerar tristeza, rancor, desânimo e restringir a liberdade de viver plenamente — fatores que contribuem para o desenvolvimento de depressão e transtornos de ansiedade. “Perdoar é uma jornada. Quem encontra dificuldade precisa, antes de tudo, reconhecer essa limitação”, orienta o especialista, assinalando que, por mais desafiador que pareça, vale a pena insistir. “A vivência em comunidade, a participação em práticas que promovam o bem, a oração e o cuidado consigo podem tornar esse caminho mais leve. É igualmente essencial compartilhar a própria história e os sentimentos com pessoas que escutarão sem julgamentos”, frisa.

Restauração familiar – No meio evangélico, muitas histórias de perdão e reconciliação acontecem pela fé em Jesus. É o que testemunha a vendedora Viviane Keli Damaceno, 47 anos, que compartilha como Deus restaurou sua relação com seu genitor, ausente desde a sua infância. Ela relata que o pai deixou o lar quando ela ainda era bebê e que as visitas dele eram esporádicas. Aquela situação fez Viviane crescer alimentando mágoas. No entanto, já amparada na Palavra, a vendedora começou a orar ao Senhor para que a libertasse daqueles ressentimentos, os quais estavam lhe causando sofrimento.

Durante aquele processo, sua fé foi fortalecida, e a cura interior alcançada. “Fui buscando a Deus, até que, um dia, percebi que havia perdoado meu pai”, revela a obreira da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Venda Nova, Belo Horizonte (MG). “Consegui abraçá-lo, pude rir, brincar e desfrutar da companhia dele, até o dia em que o Senhor o chamou, aos 90 anos. Ter perdoado meu pai foi uma bênção, pois me libertei. Quando ele faleceu, meu coração estava tranquilo”, relata Viviane, que, a partir dessa experiência, experimentou uma transformação em seu lar. “Olhando para trás, vejo que ganhei alegria e felicidade, sentimentos que eu ainda não conhecia. Todas aquelas lembranças dolorosas, que roubavam a minha paz, ficaram no passado. Deus fez tudo novo na minha vida e na minha família.”
Para a aposentada Eliane Abreu, 59 anos, perdoar significou reconstruir uma trajetória marcada pela dor e pela humilhação. Após dez anos de namoro, dois de casamento e com um bebê de dois meses nos braços, ela enfrentou a traição do esposo. A vergonha que sentia impedia Eliane de buscar apoio de parentes e amigos. Desse modo, a relação dela com Deus era a única fonte de conforto em meio àquele drama pessoal. Curiosamente, a força que ela ganhou para conceder o perdão veio após um convite do marido para que frequentassem a igreja. Assim, nos quatro anos seguintes, a fé transformou o sofrimento dela em perseverança. “Oração, leitura da Bíblia e dedicação espiritual foram essenciais para tornar realidade a minha cura emocional. O perdão restaurou meu casamento e os vínculos familiares”, relembra-se a aposentada, que congrega na IIGD em Madureira 2, na zona norte do Rio de Janeiro (RJ). Hoje, com 34 anos de casamento, o casal mantém um relacionamento que seria considerado impossível aos olhos humanos. “Nosso testemunho de perdão tem transformado histórias. Nunca nos separamos, nem por uma noite. Temos 30 anos de Igreja da Graça e uma filha de 32 anos”, testemunha ela, que se emociona ao relatar que sua família se ergueu a partir do perdão, permitindo a concretização do propósito do Altíssimo.

O Pr. Rogério Postigo, líder estadual da IIGD em Minas Gerais, reconhece que perdoar é um dos maiores desafios do ser humano – mas, ao mesmo tempo, uma bênção fundamental. Citando a parábola do servo impiedoso (Mt 18.21-35), ele ressalta que o texto bíblico começa com Pedro perguntando a Jesus quantas vezes se deve perdoar o irmão. Cristo respondeu: setenta vezes sete. Em seguida, o Mestre narra a história de um servo que teve perdoada uma grande dívida, mas que, por sua vez, não demonstrou misericórdia com um conservo que lhe devia bem menos. Devido à falta de compaixão daquele servo, ele foi severamente punido. Postigo esclarece que Deus Se entristece com aqueles que pedem perdão, mas se recusam a perdoar, apoiando-se em justificativas para não fazê-lo, e alerta sobre as implicações espirituais desse comportamento. “Quando o perdão é negado, Satanás ganha vantagem tanto sobre a vítima quanto sobre o agressor. Por outro lado, perdoar traz libertação para ambos: quem perdoa e quem é perdoado”, conclui o líder, em consonância com o que o apóstolo Paulo ensinou em sua carta aos Colossenses: Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós (Cl 3.13 – ARA).



