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Por Victor Rodrigues
A cultura pop está presente em filmes, séries, músicas, livros, moda, obras de arte, redes sociais e jogos. Segundo estudiosos do assunto, ela constitui um conjunto de símbolos, tendências e narrativas que impactam o comportamento de milhões de pessoas, influindo na maneira de pensar e sentir, especialmente dos mais jovens. No meio evangélico, pastores e teólogos lembram que lidar com esse universo é desafiador, mas, ao mesmo tempo, abre um leque de oportunidades e possibilidades. Fundador da Harvest Christian Fellowship, em Riverside, no estado norte-americano da Califórnia, o pastor batista Greg Laurie, autor do livro Revolução de Jesus, vê a cultura pop como campo de missão e ferramenta de evangelização. Ex-hippie, Laurie foi um dos expoentes do Jesus Movement – movimento nascido no final da década de 1960 na Costa Oeste dos Estados Unidos que buscava evangelizar hippies e influenciar a contracultura por meio da mensagem da Bíblia. O evangelista defende a ideia de que os cristãos não devem se isolar dos movimentos culturais, e sim se engajar em pregar o Evangelho a esses grupos, com discernimento e coragem, sendo sal e luz no mundo – conforme ordena Jesus (Mt 5.13,14) – e compartilhando a fé com confiança e compaixão.

Já o pastor e evangelista Franklin Graham expressa preocupação, em especial quanto à influência da mídia e ao tempo dedicado ao entretenimento, destacando que esses são reflexos de uma sociedade secular que promove valores contrários à Palavra. Desse modo, ele desafia os seguidores de Cristo a se posicionarem a favor dos valores e padrões divinos, mesmo que isso signifique enfrentar perseguição ou ser vítima da “cultura do cancelamento”, por meio da qual uma pessoa, marca ou empresa é alvo de um boicote ou crítica coletiva nas redes sociais por falas ou ações consideradas inadequadas. Seguindo a mesma linha de pensamento, o teólogo e pastor batista John Piper argumenta que o crente deve viver em “pureza radical”, evitar conteúdos que promovam luxúria, ou outras impurezas, e priorizar o que glorifica o Senhor, pois a santidade é um mandamento divino (1 Pe 1.15). Por outro lado, o ministro reconhece que a cultura pop, com seus heróis e suas heroínas, toca na necessidade humana de salvação e esperança, manifestada em personagens de ficção que remetem a um ideal de justiça, podendo, assim, ser um instrumento para propagar as Boas-Novas.


No entendimento de alguns líderes evangélicos brasileiros, como o Pr. Luciano Subirá, fundador da Comunidade Alcance, em Curitiba (PR), a cultura na sociedade contemporânea deve ser abordada sob a perspectiva de princípios cristãos e sem omissão diante das supostas “novas verdades” que o mundo tenta impor. Ele alerta, por exemplo, para a presença de influências perigosas de tradições ou elementos culturais que buscam anular os valores divinos e desviar os crentes dos ensinamentos bíblicos. Por sua vez, o Pr. Yago Martins, da Igreja Batista Maanaim, em Fortaleza (CE), critica a forte influência de padrões de moda e beleza, alegando que a preocupação exagerada com a aparência pode levar a perda de valores morais.

Questionado pela reportagem de Graça/Show da Fé sobre o assunto, o Pr. Rafael Mariano dos Santos, diretor da Academia Teológica da Graça de Deus (Agrade), lembra que o termo cultura pop surgiu entre as décadas de 1950 e 1960 e engloba vários segmentos consumidos por um amplo público. “O problema é que os produtos são impregnados de valores e ideias humanas que, além de efêmeros, não têm respaldo bíblico. Se o cristão os consome de maneira inadvertida, aos poucos se afasta dos ensinamentos da Palavra, que são eternos”, ressalta, chamando a atenção para o impacto causado por artistas populares na formação de comportamentos e estilos de vida de gerações. “Cantores mundialmente famosos, como Michael Jackson e Madonna, moldaram até a forma de se vestir de muitos jovens. Mas a pergunta que devemos fazer é: essas personalidades devem servir de referência para o servo de Deus?”, questiona Santos. O pregador frisa que as Escrituras Sagradas orientam que busquemos as coisas do Alto, conforme ensina o apóstolo Paulo (Cl 3.1,2). “Não significa que não possamos nos divertir, mas é fundamental não sermos influenciados facilmente. Muitos se deixam levar pelos amigos, mesmo sem apreciar determinada banda ou certo artista. Para resistir, é essencial que a pessoa tenha confiança em Deus e a mente firmada nos ensinos bíblicos.”

Princípios e fé – Para o Pr. Natan Bezerra, coordenador de comunicação da Convenção Batista Nacional (CBN), é importante aplicar os princípios bíblicos ao consumo de conteúdos culturais. Segundo ele, cabe ao cristão discernir entre o bom e o mau, em vez de adotar uma postura de isolamento. Para Bezerra, o seguidor de Jesus deve se perguntar se determinado conteúdo o aproxima ou o afasta do Evangelho, tendo em mente o que Jesus disse ao Pai: Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal (Jo 17.15). “Ao compreender as mensagens de filmes, músicas, séries e livros que fazem parte do imaginário coletivo, podemos criar caminhos para compartilhar a fé. Quando mostramos às pessoas como Cristo responde às perguntas que essas obras levantam sobre dor, esperança e sentido da vida, estamos transformando a cultura em um campo de missão.”


Há quem converta a própria arte em evangelismo. É o caso do artista plástico e pintor evangélico Diego Mendonça, que possui quadros premiados dentro e fora do Brasil, como o Prêmio Top Of Mind Londres 2023. A partir de suas obras, ele mostra que o cristão pode promover mudanças por meio de elementos culturais, dialogando com a arte popular e evidenciando beleza, esperança e fé. “Na coleção Nobreza Negra, por exemplo, retratei princesas e príncipes negros, todos como crianças. Em cada quadro, representei aquilo de que mais precisam: amor, paz, oração e alimento.” Mendonça salienta que as peças tocaram inúmeras pessoas fora do ambiente religioso. “Muitos relataram cura na alma, libertação de traumas e impactos profundos provocados pela ação poderosa de Deus por meio desses quadros, que transcendem o templo e alcançam corações.” Ele observa que a arte tem o poder de transformar pensamentos e formar opinião, ressaltando que os cristãos precisam ocupar esse espaço na sociedade. “Vamos impactar esta geração sendo luz dentro da cultura. A arte é uma dádiva de Deus, e, quando nossos dons estão a serviço dEle, o resultado vai além da estética”, conclui o membro da Igreja Evangélica Portas Abertas em Matosinhos, na cidade de São João del-Rei (MG).

Na opinião do ilustrador e cineasta Calvin Golcal, revistas em quadrinhos, filmes e séries são ótimas ferramentas de entretenimento, capazes de transmitir bons valores e educar a sociedade conforme a Palavra. “Minha obra Mangá Golcal, uma coletânea de histórias em quadrinhos, e o filme Golcal, que estou desenvolvendo, são assumidamente cristãos. Eles reúnem ação, comédia e ficção científica, gerando conteúdo que traz humanidade aos personagens, algo que cativa e atrai o público fora do nicho cristão”, explica o artista, membro da Comunidade Presbiteriana Independente Manancial, no Centro de Bragança Paulista (SP). “Precisamos apresentar a vida com falhas, arrependimentos e mudanças, para que os protagonistas possam se levantar, transformar suas histórias e ajudar outros. É esse caráter humano que buscamos transmitir em nossas obras, como faz a série The chosen (Os escolhidos), que retrata Jesus e os apóstolos de maneira inteligente”, completa o cineasta. [Leia, no final desta reportagem, o quadro Cristianismo e arte]

Na avaliação da arquiteta e urbanista Tayane de Alencar, 36 anos, membro da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) na Taquara, zona sudoeste do Rio de Janeiro (RJ), a orientação do servo de Jesus deve ser guiada pela leitura do Livro Sagrado e pela oração. “Muitas vezes, o Espírito Santo nos alerta quando consumimos algo que O entristece”, afirma a profissional. Já a estudante de Engenharia de Software Fabiany de Freitas Marins, 19 anos, que congrega na mesma Igreja, considera o discernimento espiritual essencial em sua caminhada. “Antes de assistir a um filme, ouvir uma música ou acompanhar uma série, procuro avaliar se aquilo vai me edificar ou me contaminar, e, principalmente, se agradará ou não a Deus”, testemunha ela, enfatizando que, com equilíbrio, é possível haver diálogo entre a fé e a cultura pop, mediante uma análise crítica que considera o conselho de Paulo aos tessalonicenses: Examinai tudo. Retende o bem. Abstende-vos de toda aparência do mal (1 Ts 5.21,22).

Cristianismo e arte
No cristianismo, a arte é uma ferramenta de expressão e comunicação da fé, utilizada desde os primórdios para fortalecer esse segmento religioso. Começou de maneira simbólica nas catacumbas romanas para ensinar aos fiéis a resistirem em tempos de perseguição. Atualmente, continua a ser inspirada em temas bíblicos e na centralidade de Jesus. Vejamos alguns exemplos recentes:
Rock cristão nacional (Brasil, 1970–2025)
Impacto: Aproximou os jovens da fé por meio da música
Exemplos: Banda Êxodo, Comunidade S8, Rebanhão, Resgate, Oficina G3, Palankin
Histórias em quadrinhos cristãs (EUA e Brasil, 1970–2025)
Impacto: Popularização da fé entre jovens leitores e público geek [pessoas que têm grande interesse por tecnologia, eletrônica, jogos – eletrônicos e de tabuleiro –, HQs, animes, mangás e outras áreas da cultura pop, como filmes e séries de ficção científica]
Exemplos: Chick Tracts, Elo, Mangá Golcal
Filmes e séries cristãs (EUA e Brasil, 2000–2025)
Impacto: Alcançou milhões globalmente e formou comunidades de fãs
Exemplos: A paixão de Cristo, Deus não está morto (God’s not dead), The chosen (Os escolhidos)
Games e jogos de tabuleiro (Brasil, 2015–2025)
Impacto: Jogos e aplicativos educativos com temáticas bíblicas
Exemplos: Batalha dos Guardiões (RPG cristão); O Jogo da Bíblia: Heroes (app); Faith Battle (card game cristão colecionável)
(Victor Rodrigues com informações de Atilano Muradas, Rubinho Pirola, Calvin Golcal, Jefferson Nali e Sinval Filho)


