Educador, teólogo e pastor, James Martin Gray se destacou por fortalecer o ensino bíblico e a formação de líderes nos EUA
13/01/2026
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13/01/2026

Conhecido como “evangeliquês”, o uso de jargões e expressões é uma prática comum nas igrejas e constitui um traço cultural marcante dos evangélicos

Foto: Arte criada por IA de ChatGPT, Miricle e Firefly com balões

Por Marcelo Santos

“Ô, glória! A mensagem do profeta de Deus hoje fez cair fogo dos Céus e foi uma bênção. A igreja se derramou no fluir do Espírito, e o povo saiu do Egito. Foi cajado puro, impossível ficar na carne. Não teve varão nem varoa que não se arrependesse. O vaso determinou a bênção divina, e toda obra do mal foi amarrada, em Nome de Jesus.” Para entender essas frases e assimilar toda a mensagem, é preciso compreender o “evangeliquês” – o jeito de falar dos evangélicos. Embora não exista formalmente um idioma próprio dos crentes, estudiosos do assunto dizem que essa linguagem, repleta de jargões e termos típicos, reforça a identidade desse grupo religioso e cria conexão entre aqueles que professam a mesma fé, permitindo que comuniquem, de maneira única, suas experiências espirituais.

O pesquisador Wagner Pavarine Assen, que catalogou mais de 600 jargões usados nas igrejas evangélicas, explica: “Funciona como um código simbólico que traduz a experiência de fé”
Foto: Arquivo pessoal

A questão do linguajar específico é estudada há décadas. O historiador inglês Peter Burke escreveu, em seu livro Línguas e jargões (Editora UNESP, 1996), que a linguagem funciona como um indicador sensível das transformações culturais. Ele explica que as chamadas línguas semiprivadas, como dialetos e jargões, estão em constante mudança, são partilhadas por determinados grupos e vão além da comunicação: refletem relações sociais, afetos, tensões, preconceitos e formas de convivência. Assim, diferentes segmentos desenvolvem modos próprios de falar, capazes tanto de reafirmar laços internos quanto de criar barreiras para quem não pertence a tal grupo.

Por sua vez, o linguista brasileiro Dino Fioravante Preti (1930-2024), autor das obras Sociolinguística: os níveis da fala e A gíria e outros temas, reconhece a gíria como uma variedade legítima da língua e um fenômeno social de grande relevância, frequentemente associado a jovens ou a coletividades específicas. Preti faz a diferenciação entre jargão e gíria: o jargão é uma linguagem restrita, voltada à comunicação eficiente e à identificação mútua entre os membros de um mesmo grupo; enquanto a gíria, muitas vezes, é obscura para quem está de fora, evidenciando uma visão de mundo particular. Nas comunidades eclesiásticas, a julgar pelo que escreveram Burke e Preti, o fenômeno do linguajar “nichado” é uma realidade. É o que afirma o professor e pesquisador Wagner Pavarine Assen, especialista em jargões religiosos. Segundo ele, o “evangeliquês” exerce o papel central na construção das congregações por ser capaz de unir os crentes e reforçar o pertencimento ao universo evangélico. Para Assen, trata-se de uma linguagem “viva”, que se transforma ao longo do tempo e provoca reflexo nas crenças, nos valores e até pode gerar algumas discordâncias teológicas. “Ao observar essas mudanças, é possível compreender como a fé se manifesta em cada contexto”, assinala o estudioso, destacando que essas expressões ultrapassam meros vícios de linguagem porque carregam significados profundos, que excedem a comunicação cotidiana.

A Pra. Odete Andrade observa que, do ponto de vista bíblico, essas expressões não fortalecem a vida espiritual nem a identidade cristã, e alerta: “Na verdade, acabam apenas diferenciando os crentes do restante do mundo, sem produzir edificação real”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

O educador ressalta que expressões, como “fluir do Espírito”, “cajado puro”, “sair do Egito” ou “amarrar a obra do mal” compõem uma cultura linguística específica que intensifica a identidade dos evangélicos. “Funciona como um código simbólico que traduz a experiência de fé. Quando alguém diz que ‘o culto foi de fogo’, está referindo-se a uma vivência intensa do poder de Deus – não apenas a uma metáfora, mas também a uma experiência concreta na comunidade”, explica o mestre em Sociologia da Linguagem pela Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS).

Ao longo de sua pesquisa, Assen catalogou mais de 600 termos usados pelos seguidores de Jesus, os quais são fundamentais na construção da cultura evangélica por carregar tantos simbolismos. O professor destacou que há diferenças entre os jargões e, por isso, classificou-os em três grandes grupos – saudação, exortação e motivacional –, e explicou que, apesar de terem função espiritual, atuam como mecanismos de inclusão. Porém, o mestre assevera que esse linguajar pode erguer barreiras para quem não pertence a esse coletivo religioso ou não domina tal vocabulário. O novo convertido, por exemplo, tende a aderir rapidamente a esse repertório como forma de integração, afirma Assen. “Ao ingressar na igreja, ele não muda apenas as roupas, mas também o comportamento e a linguagem. Assim, os jargões se tornam parte desse processo de aceitação e exposição da fé”, salienta. [No final desta reportagem, leia o quadro Glossário do “evangeliquês”]

O cantor e pastor Fernandes Lima defende que o uso desses termos é uma maneira de conectar a Igreja às verdades espirituais, e, ao mesmo tempo, reverberar sua autenticidade musical com raízes nordestinas
Foto: Arquivo Graça / Solmar Garcia

Mensagem do Evangelho – No entanto, o crescimento do “evangeliquês” no cotidiano preocupa os responsáveis pelo cuidado pastoral. Para a Pra. Odete Andrade, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Registro (SP), embora esses termos façam parte do dia a dia do cristão, é preciso cautela. “Com o avanço da divulgação da Palavra, muitos irmãos passaram a utilizar os jargões, acreditando que facilitam o entendimento da fé”, observa a ministra, acrescentando que, do ponto de vista bíblico, essas expressões não fortalecem a vida espiritual nem a identidade cristã. “Na verdade, acabam apenas diferenciando os crentes do restante do mundo, sem produzir edificação real”, alerta. Há décadas à frente do ministério, a pastora diz evitar o uso desses vocábulos, especialmente durante o ensino e a pregação. “A verdadeira edificação está na simplicidade e na profundidade das Sagradas Escrituras. A repetição de expressões fora do contexto do Livro Santo perde a força e se transforma em palavras repetidas, sem fundamento sólido”, pondera Odete.

Foto: Sdecoret / Adobe Stock

Já o cantor e pastor Fernandes Lima, que, ao longo da sua carreira, adotou expressões típicas do “evangeliquês” em suas músicas, como “fogo cai”, “no mundo”, “varão” e “amarrado”, defende que o uso desses termos é uma maneira de conectar a Igreja às verdades espirituais, e, ao mesmo tempo, reverberar sua autenticidade musical com raízes nordestinas. “É bom para alcançar os que estimam o forró. Dá uma pitada de humor na forma de interpretar, além da alegria característica do ritmo”, defende. O artista acrescenta que a mistura de estilo musical e linguagem evangélica torna a mensagem mais acessível e vibrante e traz um contentamento genuíno ao culto e à ado­ração. Por outro lado, Fernandes Lima reconhece que a utilização de certos termos deve ser feita com responsabilidade, para que não estejam na contramão da verdade bíblica: “Minhas músicas carregam melodias e mensagens cristocêntricas, sem perder a profundidade da fé, que é a essência de meus louvores”. No caso da música Determine, por exemplo, a expressão é amplamente compreendida pelas pessoas dentro e fora da Igreja da Graça, gerando um impacto muito positivo. “Não há nenhum tipo de resistência. A canção é muito bem aceita e sintetiza a forma de ver a fé: com persistência e confiança no Senhor”, assinala o cantor.

A Profª Eliene Ribeiro Guimarães pondera: “O emprego de jargões tende a empobrecer a oratória, pois o discurso se torna vazio e sem sustentação bíblica, não contribuindo efetivamente para o alicerce da fé”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Para a Profª Eliene Ribeiro Guimarães, pregadora na Assembleia de Deus em Campinas (SP), de fato, é necessário ter cuidado com o “evangeliquês”. Ela lembra que aderiu a alguns vocábulos no início de seu ministério, a fim de criar conexão com os membros, mas logo passou a ponderar esse artifício. “O emprego de jargões tende a empobrecer a oratória, pois o discurso se torna vazio e sem sustentação bíblica, não contribuindo efetivamente para o alicerce da fé.” Na opinião dela, o mesmo fenômeno acontece quando a pregação se torna de difícil compreensão devido ao linguajar muito culto. “Há pessoas que, na tentativa de demonstrar grande conhecimento teológico, utilizam termos que nem todos entendem. Embora soe bonito, esse tipo de linguagem, na prática, nem sempre produz o efeito desejado.”

O pastor e evangelista Sadi Silveira Júnior enfatiza que as locuções evangélicas devem ser usadas com discernimento
Foto: Arquivo pessoal

Visão semelhante tem o pastor e evangelista Sadi Silveira Júnior, da Igreja Cristã Universal em Vila Matilde, zona leste de São Paulo (SP), o qual enfatiza que as locuções evangélicas devem ser empregadas com discernimento. O ministro declara que não tem o hábito de usá-las fora da realidade cristã, mas lembra que essas expressões têm muita força de comunicação nas congregações, entretanto, fora delas, não têm expressividade. “Longe do espaço da fé, elas podem soar caricatas ou cômicas, o que não é o objetivo”, analisa Sadi Júnior, frisando que podem gerar desconforto diante de não crentes. “A linguagem precisa deixar claro o seu propósito. No meio evangélico, alguns jargões têm forte significado, muitos deles com uma conotação de glorificação a Deus, como o ‘Aleluia’ ou o ‘Amém’, gerando impacto espiritual.” Para o evangelista, essas expressões tendem a mudar com o tempo, dependendo da época e do contexto. “Contudo, para nós, cristãos, essas palavras sempre terão um valor especial”, conclui.


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