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Líderes avaliam o crescimento expressivo de evangélicos no Peru, marcado por sincretismo religioso

Fotos: Divulgação / IIGD Peru

Por Evandro Teixeira*

O avanço do número de evangélicos na República do Peru tem chamado a atenção de pesquisadores e líderes religiosos, redefinindo o mapa da fé naquele país da Costa Oeste da América do Sul. Dados do Instituto de Estudos Peruanos (IEP) indicam que, em curtíssimo tempo (de novembro de 2024 a maio de 2025), o percentual de peruanos que se identificam como evangélicos passou de 8,4% para 11,3% — único grupo religioso a registrar crescimento. Entre os que se declaram católicos, houve queda de 3,3%, passando de 63,5% para 60,2% no mesmo período.

Tradicionalmente católico desde a colonização espanhola (1532-1821), o Peru é o quarto país mais populoso do continente sul-americano, com 34,5 milhões de habitantes, ficando atrás apenas do Brasil (213,4 milhões), da Colômbia (52,8 milhões) e da Argentina (47,1 milhões). A Terra dos Incas integrou a Lista Mundial da Perseguição (LMP) da Missão Portas Abertas de 1993 a 1998, ao lado de Colômbia, México e Cuba, figurando no ranking das 50 nações mais difíceis para cristãos praticarem sua fé. Naquela época, segundo a agência missionária, os episódios de intolerância religiosa no território peruano se resumiam a entraves legais e institucionais e a formas sutis de discriminação, sem registros de violências físicas generalizadas.

A congressista evangélica Milagros Jáuregui de Aguayo (do partido Renovação Popular), autora do Projeto de Lei nº 13.064/2025-CR, defende a liberdade de culto e o respeito às crenças
Foto: Ruben Grandez / Congresso do Peru

A Constituição de 1993, em seu Artigo 2º, inciso 3, garante a liberdade religiosa na nação, desde que não haja ofensa moral ou perturbação da ordem pública. Atualmente, tramita no Congresso o Projeto de Lei nº 13.064/2025-CR, que defende a liberdade de culto e o respeito às crenças, buscando reduzir as expressões artísticas ofensivas ao cristianismo ocorridas nos últimos anos. De autoria da congressista evangélica Milagros Jáuregui de Aguayo (do partido Renovação Popular), a proposta prevê sanções de 100 a 120 dias de serviço comunitário e até três ou quatro anos de reclusão para casos graves de intolerância.

Apesar do avanço na propagação do Evangelho, o pastor e teólogo Julio N. H. Huincho frisa que persistem barreiras significativas à evangelização. Uma delas é o sincretismo religioso — mistura de tradições católicas romanas e crenças nativas, a qual gera um conjunto de práticas supersticiosas. “A resistência de muitos nativos à figura paterna de Deus, por exemplo, está ligada à relação ancestral com a Pachamama, deusa da Terra e da fertilidade nas culturas andinas, e ao trauma histórico provocado pela exploração espanhola”, explica Huincho.

O pastor e teólogo Julio N. H. Huincho destaca que o trabalho de missionários estrangeiros e obreiros nacionais tem produzido avanços, especialmente em decorrência da implementação de cursos de alfabetização, da tradução bíblica e da construção de escolas e de postos de saúde
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

De acordo com ele, para superar tais obstáculos, é necessário transmitir a mensagem de Cristo em linguagem compreensível e sensível à realidade local, marcada também pelo abandono histórico das comunidades rurais. “A falta de infraestrutura básica e de investimentos mantém essas regiões isoladas, com baixa escolaridade, serviços precários de saúde e oportunidades limitadas.” O teólogo destaca, contudo, que o trabalho de missionários estrangeiros e obreiros nacionais tem produzido avanços, especialmente em decorrência da implementação de cursos de alfabetização, da tradução bíblica e da construção de escolas e postos de saúde, os quais oferecem atendimento básico e orientações sobre nutrição e higiene.

O Pr. Jairo Rodrigues (ao lado da esposa, Kênia), da APMT, garante: “A população peruana demonstra desejo de conhecer a Deus”
Foto: Divulgação / APMT – modificado por IA

Huincho sublinha que décadas de descaso estatal intensificaram as desigualdades no país e fomentaram o surgimento, entre 1980 e 2000, de grupos guerrilheiros, como o Sendero Luminoso (SL) e o Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA). “A violência provocou o deslocamento de populações rurais para a capital, Lima, onde os migrantes foram vistos com desconfiança e ‘empurrados’ para assentamentos informais, os chamados pueblos jóvenes (cidades jovens)”, relata o teólogo, acrescentando que missionários também foram perseguidos, e alguns até assassinados. Mesmo assim, o pastor acredita que as sementes do Evangelho plantadas naquela época e nos dias atuais continuarão frutificando. “Especialmente nas novas igrejas do interior, que atuam como agentes de transformação social”, exemplifica.

Ampla estratégia – Na opinião do Pr. Jairo Rodrigues, da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT) e com 23 anos de atuação missionária no Peru, o evangelismo só alcança resultados quando segue estratégias bem definidas e sensíveis à diversidade da cultura local — neste caso, marcada por fortes contrastes que inviabilizam abordagens padronizadas. “Qualquer ação precisa partir de uma leitura real das necessidades da população e do entendimento de sua trajetória histórica, para que o Evangelho seja apresentado de maneira contextualizada”, explica Rodrigues, ressaltando que o momento é extremamente promissor para as missões. “A população peruana demonstra desejo de conhecer a Deus.”

Foto: Divulgação / IIGD Peru

Indagado sobre as propostas de mudança na legislação, o ministro sinaliza que as normas, antes mais favoráveis ao catolicismo, têm sido ajustadas ou revisadas. “Conhecer a legislação é uma das ferramentas mais importantes para o avanço do Evangelho e deve ser usada dentro do marco legal, sem comprometer a mensagem bíblica”, assevera ele. Rodrigues assinala que, quando a igreja conhece a lei, obtém acesso a espaços públicos para proclamar as Boas-Novas e realiza ações assistenciais e humanitárias.

Por sua vez, o Pr. Piero Guzmán, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Peru, reforça que o cenário atual é amplamente favorável à evangelização: há liberdade para a realização de atividades religiosas, e a população está muito receptiva à Palavra. Por outro lado, ele reconhece que a divulgação da Boa Notícia sempre esbarra em tradições culturais profundamente enraizadas, marcadas por práticas transmitidas de geração em geração. Ainda assim, a sede nacional da IIGD em Lima tem apresentado crescimento contínuo, impulsionado pelo trabalho de equipes responsáveis por produção audiovisual, mídias sociais, atendimento aos membros, intercessão, visitas domiciliares e organização de eventos. “Cada grupo contribui para ampliar o alcance do Evangelho e fortalecer o vínculo das pessoas com a congregação.”

O Pr. Piero Guzmán reforça que o cenário atual é amplamente favorável à evangelização: há liberdade para a realização de atividades religiosas, e a população está muito receptiva à Palavra
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Guzmán enfatiza que as redes sociais — em especial, Facebook, YouTube e TikTok — tornaram-se o principal instrumento de evangelização em terras peruanas. “Vídeos de orações e testemunhos de milagres aumentam o engajamento da Igreja e atraem novos membros”, destaca. O pastor explica que a equipe digital responde mensagens, acompanha pedidos de oração e incentiva visitas presenciais ao templo. “Recebemos cerca de duas mil mensagens por semana, não só do Peru, mas também de vários países da América Latina e da Europa, o que demonstra a expansão do ministério no ambiente on-line”. Além disso, Piero salienta que os programas de TV, como SOS da Fé e Fala, Amigo!conquistaram audiência significativa na nação. Paralelamente, a IIGD realiza ações presenciais, como o evangelismo de rua e as reuniões. “Em uma recente visita do Missionário R. R. Soares, o templo-sede recebeu 750 pessoas”, relata, referindo-se à campanha realizada em junho de 2025.

Missionária da agência Jovens Com Uma Missão (JOCUM) no Peru, Vilma Ortega afirma que o país, historicamente receptor de missionários estrangeiros, vive um movimento crescente de envio de obreiros peruanos ao exterior. “Parte das igrejas tradicionais ainda não se engajou plenamente na visão missionária de Atos 1.8, que ordena a divulgação do Evangelho até os confins da Terra”, pontua ela, ressaltando que a falta de comprometimento também é um empecilho ao cumprimento dessa ordenança. “Muitos missionários não recebem apoio suficiente de suas comunidades de fé para se manterem no campo. Com intuito de enfrentar essa dificuldade, a JOCUM tem promovido conferências, em parceria com a Cooperação Missionária Ibero-Americana (COMIBAM), buscando ampliar a consciência quanto à missão entre pastores e igrejas.”

A missionária Vilma Ortega, da agência Jovens Com Uma Missão (JOCUM) no Peru, afirma que o país, historicamente receptor de missionários estrangeiros, vive um movimento crescente de envio de obreiros peruanos ao exterior
Foto: Arquivo pessoal

Atuante na formação de novos missionários, Vilma atribui o impulso da fé evangélica no Peru ao investimento em capacitação teológica, por meio de seminários para pastores, centros de treinamento de missões e discipulado contínuo dos membros das congregações. Ela ressalta que muitas igrejas adotaram o modelo de células, fortalecendo vínculos e facilitando a evangelização, além de realizarem congressos, campanhas unificadas de diversas denominações em hospitais, escolas e presídios. “Anualmente, os pastores promovem um culto em ação de graças pela nação no dia seguinte à Independência do Peru (28 de julho), com a presença de autoridades”, conclui Vilma Ortega, concordando com os que dizem que o cenário religioso peruano segue em transformação, impulsionado por processos socioculturais e pela fé evangélica. (*Colaborou Patrícia Scott)


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