
COMPROMISSOS DO CASAMENTO
09/02/2026
Por Patrícia Scott*
Na efervescente Inglaterra do século 18, em plena Revolução Industrial, Robert Raikes (1736-1811) emergiu como uma voz inquieta e visionária. Jornalista, filantropo e membro da Igreja Anglicana, ele enxergou na educação o caminho para transformar a história de crianças marcadas pela pobreza, pela exclusão social e pelo trabalho infantil, prática comum naquele período. Observador atento, Raikes percebeu um detalhe até então ignorado: aos domingos, com tempo ocioso, crianças pobres passavam o dia nas ruas. Diante dessa constatação, em 1780, teve uma ideia ousada: criar escolas dominicais voltadas ao ensino da leitura, da escrita e dos princípios cristãos. Com apoio de líderes religiosos e sociais, o movimento se expandiu pelo mundo, alfabetizando milhares de crianças e ajudando a despertar uma nova consciência sobre o valor da educação para todos – independentemente da classe social.
Nascido em 14 de setembro de 1736, em Gloucester, no Centro-Oeste da Inglaterra, importante polo industrial, Robert Raikes era o primogênito de Mary Drew (1713-1779) e de Robert Raikes (1690-1757), editor e proprietário do influente Gloucester Journal. Batizado na Igreja de St. Mary de Crypt, em sua cidade natal, frequentou a St. Mary de Crypt Grammar School e, aos 14 anos, ingressou na College Cathedral School. Sem formação universitária e com apenas 22 anos, assumiu o controle do jornal em 1757, após a morte do pai, consolidando sua atuação e reputação no jornalismo local. Uma década depois, casou-se com Anne Trigge (1743-1828), com quem teve dez filhos (três homens e sete mulheres).

Voltado às causas sociais, Robert visitou a prisão de Gloucester em 1773 e ficou chocado com a realidade que presenciou. Homens, mulheres e até crianças presos pelos delitos mais triviais e pequenas dívidas eram amontoados com criminosos da pior espécie, escreveu ele, em artigo publicado no Gloucester Journal. Raikes denunciou ainda que muitos prisioneiros morriam de varíola [doença viral grave e contagiosa, que provoca febre e pústulas na pele] e de febre hemorrágica, e queixou-se da (absurda) permanência de homens e mulheres na mesma cela e da falta de alimentação para os detentos mais pobres. Diante daquele quadro alarmante, Raikes realizou campanhas para arrecadar alimentos, roupas e pequenas quantias em dinheiro para que os presos pudessem comprar itens essenciais. Usou também sua influência nos meios de comunicação para dar visibilidade à situação de pessoas encarceradas apenas por dívidas ou delitos menores. Ele tentou ainda investir na educação dos presidiários, mas, sem resultado significativo, voltou sua atenção para as crianças que trabalhavam nas fábricas para ajudar no sustento familiar.
Infância transformada – Sem escolas públicas na Inglaterra daquele período, as crianças em situação de vulnerabilidade social não tinham perspectivas de melhoria de vida. Inconformado, Robert Raikes elaborou um projeto educacional, fez campanha para arrecadar material escolar e buscou apoio de mulheres dispostas a lecionar, surgindo, assim, as Escolas Dominicais. Entretanto, Raikes foi acusado de “profanar o domingo”, dia considerado sagrado pelos líderes religiosos, que defendiam a transformação moral apenas por meio da salvação em Cristo e desdenhavam do projeto, chamando-o jocosamente de “Escolas Irregulares de Raikes”. O alto clero inglês tentou bloquear o avanço da proposta por temer o desmembramento da unidade da igreja, mas a iniciativa avivou a fé no país.
Indiferente aos opositores, Robert usava o seu jornal para divulgar o trabalho e arcou com grande parte dos custos nos primeiros anos. Inicialmente, em julho de 1780, as aulas aconteciam nas praças e nas residências de Gloucester, com foco nos meninos. Mais tarde, alcançou também as meninas. A partir da Bíblia como livro didático, o programa curricular iniciava com a alfabetização e, em seguida, progredia para o ensino dos valores cristãos. As crianças estudavam em dois turnos de 10h ao meio-dia e das 13h às 17h –, e incluía a ida à Igreja de St. Mary de Crypt para um pequeno culto.

Em três anos (1780-1783), sete escolas se estabeleceram em Gloucester com 30 alunos cada, em média. À medida que os líderes religiosos apoiavam Raikes, as igrejas abriam espaço para as Escolas Dominicais, formando-se, então, as primeiras Escolas Bíblicas Dominicais (EBD). Em artigo anônimo no Gloucester Journal em 1783, Raikes se referiu a elas como um grão de mostarda, apontando para a conhecida passagem de Mateus 13.31,32, que mostra como algo tão pequeno pode se tornar grandioso. Em 1784, em outro texto, ele destacou a mudança do comportamento, da aparência e do linguajar das crianças.
Com a repercussão do trabalho, Raikes foi convidado em 1787, para uma audiência com o rei George III (1738-1820) e a rainha Charlotte (1744-1818), no Castelo de Windsor, em Londres. No ano seguinte, membros da realeza visitaram algumas Escolas Dominicais em Gloucester. Em poucos anos, a iniciativa se espalhou por toda a Inglaterra, alcançando em torno de 250 mil alunos. Em três décadas, o número ultrapassou 400 mil matrículas.
Robert Raikes morreu em 5 de abril de 1811, aos 74 anos. Estima-se que, em 1831, havia 1,25 milhão de crianças nas Escolas Dominicais, consideradas precursoras do sistema de escolas públicas inglês. Em 1880, uma estátua em sua homenagem foi erguida na Victoria Embankment – via histórica situada às margens norte do rio Tâmisa, em Londres – para celebrar o centenário das EBDs. (*Com informações de Wikipedia, Britannica, New Life Publishing, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e UMADBRU)


