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Por Patrícia Scott*
No século 17, em uma Inglaterra ainda dominada por reis absolutos e pela autoridade da Igreja Anglicana, o pastor e teólogo Roger Williams (1603-1684) era movido por ideias ousadas sobre fé e liberdade. Ele foi um dos primeiros defensores da separação entre Igreja e Estado (hoje, um dos pilares da democracia moderna), em plena era da Inquisição e das fogueiras religiosas. Fundador da Primeira Igreja Batista dos Estados Unidos, Roger transformou o exílio em força ideológica e uma colônia norte-americana em símbolo de tolerância religiosa.
Filho de James Williams e Alice Pemberton Williams, nasceu na Inglaterra, em 21 de dezembro, e cresceu nos arredores de Newgate, em Londres, região próxima a Smithfield, onde eram queimados pelos inquisidores supostos hereges e puritanos. Na juventude, Roger ingressou na Charterhouse School e, posteriormente, no Pembroke College, da Universidade de Cambridge, onde se formou em Teologia em 1627, sendo brilhante em latim, grego e hebraico. Durante os anos universitários, aproximou-se do puritanismo, movimento que pretendia erradicar práticas católicas da Igreja Anglicana.
Ordenado ministro anglicano em 1629, tornou-se persona non grata entre os religiosos por pregar a liberdade de culto e de fé. Naquele ano, casou-se com Mary Barnard, na Igreja de High Laver, no condado de Essex, com quem teve seis filhos: Mary, Freeborn, Providence, Mercy, Daniel e Joseph. Dois anos após o casamento, enfrentando cada vez mais hostilidade, a família deixou a Inglaterra a bordo do navio Lyon e chegou à cidade de Nantasket, Massachusetts (EUA), em fevereiro de 1631. Pouco tempo depois, Roger recebeu um convite para assumir o púlpito da Igreja Anglicana de Boston, mas recusou sob a alegação de que a congregação não era uma igreja “verdadeiramente separada” e não possuía liberdade religiosa plena.
Ele passou, então, a servir como pastor assistente na Igreja Congregacional de Salém, defendendo – além da separação entre Igreja e Estado – a prática da fé sem coerção e o respeito às terras indígenas. Para Roger, os colonos só poderiam ocupar o território americano se o comprassem legitimamente dos povos nativos, e não por concessão do rei da Inglaterra. Seu discurso não foi bem-aceito, e, por isso, o pregador se mudou para Plymouth, uma colônia considerada mais tolerante, porém não distante da tradição anglicana. Em dezembro de 1632, Roger denunciou e questionou o domínio inglês sobre as terras norte-americanas. Devido a essa atitude, teve de se explicar no Tribunal Geral de Boston no ano seguinte e foi instado a se calar. No entanto, voltou a Salém em 1634 como pastor interino e continuou a pregar a liberdade de consciência e a denunciar o poder civil como corruptor da fé. Em 1635, foi novamente convocado a Boston para responder por “opiniões perigosas” e “heresias”. Em outubo do mesmo ano, foi condenado e banido da colônia. Entretanto, quando foram prendê-lo, em janeiro de 1636, ele já havia fugido para o interior, onde foi acolhido pelos indígenas Wampanoag.

Líder diplomático – Na primavera de 1636, Roger comprou uma terra do chefe nativo Massasoit, principal líder dos Wampanoag, e fundou um assentamento em Rumford (atual East Providence). Pouco depois, descobriu que o local estava nos limites da colônia de Plymouth. Assim, para evitar novos conflitos, foi embora e comprou um terreno dos chefes Narragansett, onde fundou uma nova colônia (Providence) sobre princípios que sempre defendeu: liberdade religiosa, separação entre Igreja e Estado e igualdade civil para todos, independentemente de crença.
Depois de cinco anos nos Estados Unidos, em 1636, fundou uma igreja em sua casa, a qual, após alinhar suas convicções teológicas à doutrina batista, viria a se tornar a Primeira Igreja Batista da América. Em 1643, mantendo tratados de cooperação com os povos indígenas, publicou em Londres o estudo A key into the language of America (Uma chave para a linguagem da América, em tradução livre), sobre línguas e costumes nativos. Ele havia viajado para a Inglaterra a fim de garantir uma carta real que protegesse Providence de ser anexada por colônias vizinhas e obteve a patente das plantações de Providence na Baía de Narragansett, reunindo-as aos assentamentos de Newport e Portsmouth sob o mesmo governo autônomo.
De volta aos EUA, em julho de 1644, publicou seu livro mais famoso – The bloudy tenent of persecution for cause of conscience (O princípio sangrento da perseguição por causa de consciência, em tradução livre), destacando a prática religiosa e a tolerância. Durante vários anos, trabalhou para unificar os assentamentos da Baía de Narragansett sob um único governo, mas sofria a oposição de William Coddington, líder de dois assentamentos na Ilha Aquidneck (Newport e Portsmouth). Mesmo diante desse problema, estabeleceu, em 1647, a Colônia de Rhode Island e Providence, com poderes governamentais sobre a região, dando origem ao estado norte-americano de Rhode Island.

De 1654 a 1658, Roger governou a colônia, mas jamais confundiu poder civil com autoridade espiritual. Em 1663, o rei Carlos II concedeu a Carta Régia que garantiu a liberdade de culto em Rhode Island, marco na história política e espiritual ocidental. Roger Williams faleceu em 1684 e foi sepultado em sua propriedade em Providence. Porém, em 1860, seus restos mortais foram trasladados para o Cemitério Antigo do Norte e, desde 1939, estão sob uma imponente estátua em Prospect Terrace, com vista para Rhode Island, marca da liberdade que ousou plantar em solo estadunidense. (*Com informações de World History Encyclopedia, Christian Hall of Fame, Heritage History e Wikipédia).


