
Minha Resposta – 319
07/02/2026
Por Lilia Barros*
A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) define o medo como uma reação emocional natural e indispensável à sobrevivência humana, desencadeada por perigos reais ou imaginários, que prepara o organismo para lutar, fugir ou se defender. De acordo com a ABP, existem diferenças entre o medo considerado normal e aquele denominado patológico, classificado como doença. Este se caracteriza como um pavor paralisante, que demanda acompanhamento especializado. Do ponto de vista neurológico, especialistas explicam que essa resposta é regulada principalmente pela amígdala, uma estrutura do sistema límbico responsável por identificar ameaças e ativar o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), o sistema neuroendócrino fundamental para a resposta ao estresse. De acordo com os cientistas, esse processo resulta na liberação de adrenalina e cortisol, hormônios que aceleram os batimentos cardíacos, ampliam o estado de alerta e mobilizam energia para enfrentar o risco. Quando ocorre de maneira pontual, essa reação é considerada saudável e protetora.

Foto: Arquivo pessoal
Porém, quem estuda o tema adverte que o medo, embora seja natural, não deve servir de justificativa para a paralisia, uma vez que crises e fracassos fazem parte do processo de crescimento pessoal. Assim, estudiosos da área orientam que esse sentimento seja usado como impulso para lutar pelos sonhos, tornando a pessoa protagonista da própria história, e não vítima das circunstâncias. Eles chamam a atenção para a síndrome do pensamento acelerado (SPA), caracterizada pela mente constantemente tomada por preocupações e temores, condição que pode desencadear problemas emocionais e físicos e deve ser tratada por profissionais de saúde.
Se, por um lado, a Ciência explica como o medo patológico se forma e indica, após o diagnóstico, algumas formas de tratamento; por outro, a fé em Jesus aponta como derrotar esse mal.

Foto: Arquivo pessoal
A Palavra de Deus, aliás, reconhece o medo como parte da experiência humana, mas oferece consolo e encorajamento para superá-lo por meio da dependência e da confiança no Senhor, ao assegurar a intervenção e a providência divinas, conforme Isaías 41.13: Porque eu, o Senhor, teu Deus, te tomo pela tua mão direita e te digo: não temas, que eu te ajudo. Em outros contextos bíblicos, o Senhor destaca a Sua presença e o Seu cuidado, como ao falar com Josué: Não to mandei eu? Esforça-te e tem bom ânimo; não pasmes, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo, por onde quer que andares (Js 1.9). A Bíblia registra ainda outros episódios marcantes: aquele em que os discípulos ficaram tomados pelo temor da morte durante uma tempestade (Mt 8.24-27), o momento em que Moisés, após matar um egípcio, ficou apavorado e fugiu para a terra de Midiã (Êx 2.11-15), e o caso de Pedro, que, amedrontado, negou conhecer Jesus três vezes (Lc 22.54-60).

Foto: Arquivo pessoal
Ancorados pela fé – De acordo com a psiquiatra Brunella Máyra Reis, o medo se torna um problema quando o sistema cerebral permanece em alerta mesmo sem haver uma ameaça real. “Em termos simples, o medo é o aviso natural que protege, enquanto a ansiedade é o alarme que não desliga. A mente passa a antecipar perigos futuros, e o corpo reage como se eles já estivessem presentes”, explica a médica, esclarecendo que, embora impacte a vida espiritual, os sintomas do medo têm base neurobiológica. “A Medicina cuida da neuroquímica [campo da Neurociência que estuda as substâncias químicas do sistema nervoso]do corpo, mas a fé é o remédio para a alma”, assevera ela, que é membro da Igreja Monte Sião, em Vitória (ES).
Brunella Reis aponta que, embora o medo seja uma reação natural do corpo, a falta de fé pode alimentá-lo. “A mente sem confiança tende a superestimar o perigo e subestimar o poder de Deus. Mas o Senhor não nos condena por isso; ao contrário, Ele nos convida a confiar nEle”, afirma, citando o Salmo 56.3 (No dia em que eu temer, hei de confiar em ti) e João 16.33 (Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo). “A fé ensina a alma a descansar, enquanto o corpo aprende a se acalmar. Deus não prometeu ausência de medo, mas vitória sobre ele. Enquanto o temor nos desperta, a fé nos ancora e nos levanta, como ocorreu com Davi, Jonas e os apóstolos.”

Foto: Arquivo pessoal
O Pr. Adelci Gonçalves, líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Tocantins, salienta que um crente fervoroso pode passar por situação de medo e pavor, mas, “ao recordar-se das promessas divinas e buscar a Deus, esse sentimento dá lugar à fé”. Ele cita o exemplo bíblico do rei Josafá que, ao ser ameaçado pelos filhos de Moabe e de Amom, buscou o Senhor com o povo de Judá e teve o temor dissipado, dando lugar à confiança e à esperança no Deus vivo: Então, Josafá temeu e pôs-se a buscar o Senhor; e apregoou jejum em todo o Judá(2 Cr 20.3). “O medo, como produto natural do ser humano, está ligado à prudência da autodefesa. Já o medo resultado da falta de fé faz a pessoa nunca descansar nem ter paz. Ela vive perturbada, receosa de que o mal a alcance”, pondera o líder.
Segundo Aldeci, todo crente que não vigia corre o risco de deixar de olhar para as obras que o Senhor está realizando e, dessa maneira, fixar-se apenas nos próprios receios. “Foi o que fez o apóstolo Pedro, que desviou os olhos de Jesus, passou a olhar a braveza do mar e do vento e começou a afundar (Mt 14.28-31)”, diz ele. O pregador também menciona o caso do profeta Elias, que “deixou de contemplar as grandes coisas que Deus estava fazendo e, por isso, temeu a ameaça de Jezabel e, sem confiança, esmoreceu na fé”, esclarece.
Na avaliação do Pr. Paulo Henrique Miranda Araújo, líder estadual da IIGD na Bahia, não há possibilidade de a confiança caminhar com o medo. Isso porque, destaca o ministro, a sensação de insegurança é incompatível com a fé, que, conforme escreve o autor de Hebreus, é o firme fundamento das coisas que se esperam e a prova das coisas que se não veem(Hb 11.1). “A fé ousada ‘mostra’ ao medo que tudo é possível”, afirma Araújo, reconhecendo que mesmo um cristão determinado e fervoroso pode ficar temeroso, “mas logo se restabelece e vai para cima do inimigo”.

Fé salvadora – O Pr. Thomas Tronco, da Igreja Batista Redenção, em Parada Inglesa, na cidade de São Paulo (SP), chama a atenção do leitor de Graça/Show da Fé para outra questão: o medo do futuro, do desconhecido e da morte, que permeia os corações e as mentes daqueles que ainda não têm convicção sobre onde passarão a eternidade. Mencionando a conhecida passagem bíblica de 1 João 4.18 (No amor, não há temor; antes, o perfeito amor lança fora o temor; porque o temor tem consigo a pena, e o que teme não é perfeito em amor), ele argumenta que o amor aos irmãos é evidência de uma salvação genuína pela fé em Jesus, conforme 1 João 4.17 (Nisto é perfeito o amor para conosco, para que no Dia do Juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos nós também neste mundo).“Essa mensagem oferece segurança aos crentes, para que não temam a condenação futura, pois o amor remove o medo do castigo eterno”, garante, endossando que a verdadeira salvação em Cristo não deixa espaço para tal emoção.
O ministro batista reconhece que o crente pode experimentar medos, mas, pela fé, aprende a lidar com eles de modo correto, sábio e responsável. Como exemplo, destaca Neemias que, temendo um ataque dos samaritanos, alocou cada trabalhador próximo da própria casa e os orientou a manter suas espadas ao lado, para que pudessem se proteger (Ne 4.13). “Além da oração a Deus, como proteção, foram colocados guardas contra os inimigos, de dia e de noite(Ne 4.9)”, relata Thomas, destacando que Neemias demonstrou ter “um medo proativo”, uma postura que o conduziu a reações coerentes e equilibradas, mesmo tendo confiança na proteção de Deus. “Os crentes, por meio da fé, têm ferramentas para combater os medos e reagir de modo confiante e esperançoso no Rei, que é soberano.”
O pastor citou ainda Elias, de quem o medo e o desânimo foram dissipados, quando Deus o fez se lembrar de verdades abandonadas pelo profeta, bem como do Senhor, que, mesmo parecendo estar em silêncio e sem agir (1 Rs 19.11-13), não Se deixa vencer nem permite que Seu povo seja extinto (1 Rs 19.18). “Essa atitude do Todo-Poderoso reacendeu a fé de Elias, levando-o a retornar ao lugar onde fora ameaçado de morte para dar continuidade à obra de Deus e ao preparo de um sucessor.”

Foto: Arquivo pessoal
Por sua vez, o Pr. Israel Belo de Azevedo, da Igreja Batista Itacuruçá, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro (RJ), afirma que mensagens de encorajamento, confiança e combate ao medo são recorrentes nas Escrituras Sagradas. “Existe a fé salvadora em Cristo e a fé que produz confiança; esta última estimulada pela Bíblia. Por meio dela, o cristão segue adiante com a convicção de que Deus o protegerá”, explica. Ele ressalta que até os confiantes enfrentam momentos de temor. “Embora soubesse de Sua Missão na Terra, Jesus, no Getsêmani, sentiu medo pelo que estava prestes a passar e pediu ao Pai que o livrasse daquele momento. No entanto, Ele decidiu obedecer (Mt 26.39)”, recorda-se.
Em seu livro Medo: feche esta porta (Graça Editorial), o Missionário R. R. Soares afirma que o medo é a principal causa do sofrimento de muitas pessoas e uma terrível arma usada por Satanás para intimidar os cristãos. O temor tem levado milhares a serem escravizados pelos espíritos, pela miséria, pelas doenças e pelas enfermidades, escreveu Soares. O pregador deixa claro que, embora pareça um paradoxo, temer significa crer da maneira errada, e ter fé significa o mesmo, mas da forma correta. O Missionário ensina que medo e fé são dois modos de crer opostos entre si. Ele esclarece que o temor surge quando, por falta de conhecimento, a pessoa passa a acreditar naquilo que o inimigo apresenta para mantê-la aprisionada. Para não sucumbir a essa armadilha, é necessário recorrer ao que escreveu o profeta Isaías: Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te esforço, e te ajudo, e te sustento com a destra da minha justiça (Is 41.10).

Foto: Arquivo Graça / Marcelo Nejm
R. R. Soares lembra que o homem foi criado por Deus para viver feliz e exercer domínio. Contudo, muitas vezes, acaba dominado até pelo ligeiro pensamento de derrota, de fracasso ou de possível ataque maligno. Em sua obra, o Missionário demonstra de que modo homens e mulheres podem se libertar desse padrão mental, recorrendo à autoridade concedida por Jesus, como registra a passagem de Lucas 10.19 (Eis que vos dou poder para pisar serpentes, e escorpiões, e toda a força do Inimigo, e nada vos fará dano algum). Nesse trecho bíblico, há algo muito interessante. Trata-se do termo autoridade. Jesus nunca revogou a autoridade para pisar serpentes e escorpiões [repreender e expulsar o mal]. Não tendo sido revogada, está, portanto, em pleno vigor, ensina Soares, acrescentando que a poderosa arma divina para vencer o medo é justamente a suprema autoridade outorgada ao crente pelo Messias: A morte de Jesus Cristo na cruz do Calvário, Sua vitória sobre Satanás, Sua ressurreição e a promessa de poder e autoridade para os Seus discípulos englobam também a sua vida! Sendo assim, assuma a sua posição de Filho de Deus, e comece a viver vitoriosamente.


