Tecnologia inovadora
05/02/2026
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Aumento da solidão exige atenção de lideranças evangélicas

Foto: Arte sobre foto de Prostock-studio / Adobe Stock

Por Victor Rodrigues*

O Relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no segundo semestre de 2025, indica que uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, com efeitos significativos na saúde e no bem-estar. O documento aponta que esse sentimento está associado a cem mortes por hora, algo em torno de 871 mil vítimas fatais por ano. Segundo a OMS, conexões sociais são as maneiras pelas quais as pessoas se relacionam e interagem entre si. Já solidão é definida como uma sensação dolorosa que surge da lacuna entre as relações sociais desejadas e as reais, enquanto o isolamento social se refere à falta objetiva de ligações sociais suficientes. Nesta era em que as possibilidades de conexão são infinitas, cada vez mais pessoas se sentem isoladas e solitárias, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Na opinião dele, além do impacto que causam em indivíduos, nas famílias e comunidades, se não forem enfrentados, a solidão e o isolamento social continuarão a custar bilhões à sociedade em termos de saúde, educação e emprego.

O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus: as possibilidades de conexão são infinitas
Foto: Divulgação / OMS / Violaine Martin

De acordo com o relatório da OMS, a solidão afeta, sobretudo, faixas etárias de 13 a 29 anos, em percentuais que vão desde 17% a 24%, dependendo da idade (adolescentes com taxas mais altas) e da renda (em países mais pobres, há mais solitários) — nas nações mais ricas, o índice é de 11%. É apontado, ainda, que a solidão e o isolamento social decorrem de causas que vão além da renda, como: saúde precária, baixa escolaridade, políticas públicas ausentes ou ineficazes, infraestrutura comunitária inadequada e a influência de tecnologias digitais. O texto alerta também para a necessidade de controle do tempo de tela e de vigilância em relação às interações on-line negativas que impactam a saúde mental e o bem-estar dos jovens.

A psiquiatra cristã Aline Moreira relata que existem diferentes fatores que, atualmente, têm implicado no aumento da solidão e destaca: “O isolamento e a perda do senso de pertencimento afetam profundamente a saúde emocional de jovens e adultos”
Foto: Arquivo pessoal

Corroborando os dados da pesquisa, a psiquiatra cristã Aline Moreira relata que existem diferentes fatores que, atualmente, têm implicado no aumento da solidão. Um dos principais motivos é justamente a enorme quantidade de tempo consumida nas interações via rede social, que, para Aline, traz uma falsa percepção de que os relacionamentos reais, face a face, serão substituídos pelos à distância. “O isolamento e a perda do senso de pertencimento afetam profundamente a saúde emocional de jovens e adultos.” A médica esclarece que quem se mantém constantemente sozinho apresenta o dobro de chance de entrar em depressão se comparado ao indivíduo que busca a interatividade. “Sentimentos de solidão crônica ativam áreas no cérebro semelhantes às da dor física, e, por isso, a solidão dói. Quem fica muito tempo sozinho acredita que não faz falta, que não é importante ou que não é amado. Com isso, torna-se um terreno fértil para pensamentos negativos, perda da autoestima e até desesperança. Para muitos, o isolamento pode se tornar um ciclo vicioso, difícil de sair”, observa a especialista, que enumera alguns passos que devem ser seguidos por quem deseja superar a solidão. “Exercite gratidão e empatia, cuide da mente, desenvolva hábitos saudáveis, valorize encontros presenciais, faça parte de grupos e atividades sociais, descubra seus talentos e coloque-os em prática.”

A psiquiatra Daniella Santana explica que a solidão é resultante de uma desconexão social interna que pode se manifestar mesmo em meio a outras pessoas: “É identificada por sinais como tristeza persistente e isolamento”
Foto: Arquivo pessoal

Já a psiquiatra Daniella Santana defende que a solidão é resultante de uma desconexão social interna que pode se manifestar mesmo em meio a outras pessoas. “É identificada por sinais como tristeza persistente e isolamento”, explica. A especialista assevera que a Igreja pode ser um espaço de acolhimento e apoio no qual a pessoa pode se sentir aceita, sem julgamentos. “A comunidade de fé oferece interatividade, possibilitando a criação de vínculos de amizade para troca de experiências e compartilhamento das dificuldades. Participar de grupos de apoio cria relacionamentos estáveis, e os encontros, após os cultos e o discipulado entre diferentes idades, ampliam significativamente a convivência”, garante Daniella, que é membro da Primeira Igreja Batista de Campo Grande (MS). 

O Pr. José Carlos da Silva diz que incentiva os membros da igreja a fortalecerem os laços familiares e a participarem de ações socioeducativas, esportivas e religiosas
Foto: Arquivo pessoal

Acolhimento cristão – Para promover a integração dos membros dentro da comunidade, o Pr. José Carlos da Silva, presidente da Primeira Igreja Batista de Brasília (DF), realiza ações que vão além dos cultos. “Desenvolvemos atividades ao longo da semana, como estudos bíblicos e reuniões de mulheres, homens, jovens e adolescentes, incentivamos a sociabilidade e o estudo de música e de canto”, declara o ministro batista, acrescentando que também orienta pastores e líderes a observarem com mais atenção pessoas que moram sozinhas ou têm família reduzida, mantendo contato telefônico quando há ausência percebida. “Incentivo também os membros a fortalecerem os laços familiares e participarem de ações socioeducativas, esportivas e religiosas”, complementa.

O Pr. Jonas Balbinot acredita que o número de solitários vem crescendo por, pelo menos, três motivos: a falta de diálogo entre pais e filhos e entre casais, o aumento do tempo de tela e a intensificação das interações virtuais
Foto: Arquivo pessoal

Na opinião do Pr. Jonas Balbinot, líder da Igreja Internacional da Graça (IIGD) em Lages (SC), o número de solitários vem crescendo por diversos motivos e menciona pelo menos três: a falta de diálogo entre pais e filhos e entre casais; o aumento do tempo de tela e a intensificação das interações virtuais — esta última, inclusive, é uma das causas apontadas pela OMS para o aumento da solidão, principalmente entre as gerações mais jovens. “Vivemos um tempo em que as pessoas se distanciam cada vez mais umas das outras, desencadeando o esfriamento dos vínculos afetivos, reduzindo o hábito de conversar e enfraquecendo as relações entre pais e filhos, cônjuges e familiares, que, muitas vezes, até deixam de se falar”, afirma. De acordo com Balbinot, a congregação que comanda realiza reuniões de homens, mulheres, jovens, adolescentes e casais, além de encontros de famílias, movimentos evangelísticos e ações sociais com o objetivo de fortalecer essas conexões.

Foto: Photo Passion / Adobe Stock

Fazendo coro com Balbinot, o Pr. Paulo Sabino, líder estadual da IIGD em Pernambuco, reforça que a solidão não é um problema novo, porém tem se intensificado ao longo do tempo. A estrutura dos cultos, que mescla louvor, oração e pregação da Palavra de Deus, salienta ele, desempenha um papel direto na saúde emocional da Igreja. “Orientamos os irmãos a construírem vínculos saudáveis e reforçamos a importância de os membros priorizarem aquilo que pertence ao Senhor, como ensina Jesus em Mateus 6.33: Mas buscai primeiro o Reino de Deus, e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.” Sabino frisa que o Altíssimo conhece a necessidade de cada alma e Se preocupa com nosso estado emocional. “Não sem motivo, incentivamos a presença contínua dos membros nos cultos como antídoto contra a solidão.”

O Pr. Paulo Sabino frisa que o Altíssimo conhece a necessidade de cada alma e Se preocupa com nosso estado emocional: “Não sem motivo, incentivamos a presença contínua dos membros nos cultos como antídoto contra a solidão”
Foto: Arquivo pessoal

Dores superadas – Apesar da pouca idade, o fisioterapeuta Lucas Roberto Melo, de 25 anos, vivenciou um período de isolamento que afetou a sua saúde espiritual e mental, resultando em perda de peso e debilidade física, após se afastar da Igreja e dos amigos. Ele reconhece ter tomado decisões precipitadas, as quais o fizeram se distanciar de suas amizades, levando-o a questionar o futuro e a mergulhar na solidão e na desesperança. “Pastores e o ministério de juventude oraram por mim. Minha família buscava estratégias para me levar à Igreja. Minha esposa, por exemplo, deixava uma cadeira vazia ao lado dela, declarando que aquele seria o meu lugar novamente. Essa atitude me constrangeu de tal maneira que retornei às reuniões, que foram essenciais na minha recuperação”, testemunha ele, hoje ministro auxiliar na IIGD no Recife (PE).

Lucas Roberto Melo, ao falar do tempo em que esteve afastado do Evangelho: “Pastores e o ministério de juventude oraram por mim. Minha família buscava estratégias para me levar à Igreja”
Foto: Arquivo pessoal

A auxiliar administrativa Larissa Silva, 27 anos, membro da Igreja da Graça em Joinville (SC), também enfrentou um período sombrio de solidão antes de ingressar na IIGD, em 2022. Ela conta que, embora convivesse com muitas pessoas e estivesse sempre sorridente, sentia um vazio constante. “Meu primeiro contato com a Igreja foi em um retiro de jovens, e o acolhimento foi essencial. As campanhas, o ensino sobre dependência do Senhor e as orações coletivas me fizeram reencontrar minha identidade, dando-me muitos amigos e irmãos na fé”, ressalta ela, que, atualmente, integra a equipe de comunicação da Igreja. “A solidão deixou cicatrizes, mas me ensinou sobre amor, fé e propósito”, acrescenta.

A auxiliar administrativa Larissa Silva enfrentou um período sombrio de solidão antes de entrar na IIGD: “Deixou cicatrizes, mas me ensinou sobre amor, fé e propósito”
Foto: Arquivo pessoal

Para a auxiliar administrativa Betânia Maria dos Santos, 51 anos, a perda de seu pai a fez passar por um período de solidão marcado por turbulência emocional e abatimento. No entanto, ela diz ter encontrado na Palavra forças para enfrentar o luto e, assim, vencer a tristeza. “Se não fossem a leitura, a meditação na Bíblia e a busca pelo Senhor, eu não teria ultrapassado aquele tempo. Creio que a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável”, finaliza, citando o conhecido texto de Romanos 12.2. Betânia Santos confidenciou à Graça/Show da Fé que, na Igreja, sempre havia alguém dizendo: “Estou orando por você”. Aquele convívio resgatou algo adormecido em mim: o diálogo. E, dessa forma, venci a timidez que carreguei por anos”, revela ela, que superou a solidão e se tornou obreira da IIGD no Recife.

A auxiliar administrativa Betânia Maria dos Santos diz que a perda de seu pai a fez passar por um período de luto e solidão: “Se não fossem a leitura, a meditação na Bíblia e a busca pelo Senhor, eu não teria ultrapassado aquele tempo”
Foto: Arquivo pessoal

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