COMPROMISSOS DO CASAMENTO
09/02/2026
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Comunhão entre gerações fortalece igrejas e promove crescimento espiritual

Foto: Alessandro Biascioli / Adobe Stock

Por Victor Rodrigues

As Sagradas Escrituras destacam a importância da transmissão geracional da fé, tanto no Antigo Testamento (AT) como no Novo Testamento (NT). Um exemplo disso está registrado em Êxodo 3.15: E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é meu nome eternamente, e este é meu memorial de geração em geração. Essa passagem mostra que os ensinamentos bíblicos eram passados de pai para filho. Essa mesma ideia aparece no Salmo 145.4, atribuído ao rei Davi: Uma geração louvará as tuas obras à outra geração e anunciará as tuas proezas. O versículo reforça o propósito central do povo de Deus, de construir um ambiente multigeracional de ensino, discipulado e convivência.

Émile Durkheim (1858-1917)
Foto: Wikimedia Commons regenerada por IA de Visual Paradigm Online – modificada por IA

Estudioso do tema, o sociólogo francês Émile Durkheim (1858-1917) definia a religião – a fé – como um fator primordial de coesão social, capaz de unir indivíduos em torno de crenças e práticas compartilhadas intergeracionalmente. O Antigo Testamento, quase um diário do povo de Israel, traz registros que serviriam de argumento para a tese de Durkheim. Um deles poderia vir do levita Asafe, filho de Baraquias, descendente de Gerson, filho de Levi (1 Cr 6.1; 6.39-43), músico importante da época do rei Davi, que escreveu: Escutai a minha lei, povo meu; inclinai os ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei a boca numa parábola; proporei enigmas da antiguidade, os quais temos ouvido e sabido, e nossos pais no-los têm contado. Não os encobriremos aos seus filhos, mostrando à geração futura os louvores do Senhor, assim como a sua força e as maravilhas que fez(Sl 78.1-4). Para Durkheim, uma instituição como a Igreja é responsável por perpetuar as normas sociais e morais da cultura, passando-as aos novos membros, que são socializados nessas tradições.

Na opinião do sociólogo Elmir Dell’Antonio, fortalecer os laços entre diferentes gerações é essencial para manter o sentimento de unidade e de pertencimento em uma sociedade. Por isso, acredita que, quando há conexão entre jovens, adultos e idosos, os indivíduos se reconhecem como parte de uma mesma história e, assim, permanecem cooperando para alcançar objetivos comuns. Dell’Antonio ressalta o legado deixado pelo povo de Israel, tão bem descrito no AT: a transmissão de valores e tradições se consolidou a partir da linhagem patriarcal, permitindo que houvesse uma continuidade, geração após geração, e atuando como um alicerce cultural que atravessa séculos e sustenta (até hoje) uma identidade coletiva. “Uma geração contar à outra sobre os feitos de Deus é fundamental para a memória comunitária das igrejas. Essa transmissão sustenta a identidade dos membros, podendo assim transmitir os valores do Evangelho adiante.” O especialista acrescenta que a memória e as experiências passadas são fundamentais para criar uma cultura social local. “Podemos observar modelos bíblicos de famílias sacerdotais, aquelas que deixaram um legado sólido para as gerações vindouras”, explica ele, reforçando a ideia de que o diálogo intergeracional nas igrejas é a base para a formação e manutenção de uma congregação saudável.

O sociólogo Elmir Dell’Antonio explica: “Podemos observar modelos bíblicos de famílias sacerdotais, aquelas que deixaram um legado sólido para as gerações vindouras”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Para o Pr. Leônidas Ghelli, presidente da Igreja Batista Nacional em Planaltina (DF), a vida em comunidade é um elemento essencial na trajetória cristã, um chamado bíblico à comunhão que atravessa gerações, conforme está escrito em Gênesis 17.9: Guardarás o meu concerto, tu e a tua semente depois de ti, nas suas gerações. Segundo o ministro batista, a teologia cristã reforça essa compreensão quando apresenta a Igreja como o Corpo do Senhor: Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um corpo, assim é Cristo também (1 Co 12.12). Sendo assim, pontua ele, cada cristão ocupa um lugar indispensável nessa estrutura. “Quando há distanciamento entre gerações dentro da igreja, corre-se o risco de formar uma juventude espiritualmente fragilizada, com perda de identidade e de senso de pertencimento — efeito que pode ser ampliado pelo secularismo e pelo relativismo nos tempos atuais.” Na contramão dessa tendência, afirma Ghelli, as iniciativas que promovem atividades intergeracionais ajudam a fortalecer vínculos. “Grupos de oração e discipulado, por exemplo, podem ser espaços nos quais os mais experientes atuam como mentores espirituais, enquanto os jovens contribuem com novas ferramentas e linguagens. Esse intercâmbio favorece respeito mútuo, aprendizado e comunhão”, argumenta.

O Pr. Leônidas Ghelli alerta: “Quando há distanciamento entre gerações dentro da igreja, corre-se o risco de formar uma juventude espiritualmente fragilizada, com perda de identidade e de senso de pertencimento”
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O Pr. Wesley França, líder da Assembleia de Deus em Jardim América, na cidade de Cariacica (ES), concorda com Leônidas Ghelli. Ele lembra que, à luz da Bíblia, quando jovens e idosos caminham juntos, algo sobrenatural acontece: o avivamento se torna mais forte, profundo e abrangente. “No meio pentecostal, os idosos têm um papel indispensável. Eles preservam a memória dos feitos do Senhor, representam maturidade e servem como referência de constância”, esclarece o ministro assembleiano, acrescentando que os jovens, por sua vez, carregam a força e o impulso missionário. “É como se os anciãos mantivessem a chama acesa, enquanto a juventude a espalha. As Escrituras mostram que Deus nunca derramou Seu Espírito sobre apenas uma geração. Ao contrário, o mover divino se manifesta de modo ainda mais intenso quando todas as gerações se unem em um mesmo propósito.”

O Pr. Wesley França esclarece: “No meio pentecostal, os idosos têm um papel indispensável. Eles preservam a memória dos feitos do Senhor, representam maturidade e servem como referência de constância”
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Troca de experiências – A trajetória da aposentada Erlenis da Silva, 65 anos, líder do ministério Crianças que Vencem (CQV) na sede estadual da Igreja Internacional da Graça (IIGD) em Vitória (ES), é um exemplo de serviço e cuidado intergeracional. Há décadas servindo na obra do Senhor, na Igreja da Graça, ela testemunhou o surgimento e o amadurecimento de diversas gerações, acompanhando de perto crianças, adolescentes e jovens que passaram pelo ministério e foram impactados por seu trabalho. Do alto de sua experiência, aconselha: “Os jovens precisam ouvir as experiências que os idosos carregam ao longo da vida. Ao mesmo tempo, é importante que os mais velhos reconheçam as rápidas mudanças da atualidade e aprendam com a juventude, especialmente quando se trata de tecnologia”.

A aposentada Erlenis da Silva aconselha: “Os jovens precisam ouvir as experiências que os idosos carregam ao longo da vida”
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Para a fisioterapeuta Maria Eduarda de Moura, 23 anos, membro da IIGD em Dirceu, na cidade de Teresina (PI), caminhar no ministério ao lado de pessoas mais idosas é uma oportunidade valiosa de crescimento e sabedoria. Ela considera um privilégio conviver diariamente com cristãos cheios de vivências e diz que o testemunho dos mais maduros tem sido fonte de encorajamento e fortalecimento em sua jornada cristã. “Quando pessoas mais experientes compartilham suas histórias, lutas e vitórias, o Senhor abre nosso olhar para realidades que ainda estamos aprendendo a viver. Os idosos carregam testemunhos marcados por superação e cuidado de Deus, relatos inspiradores que fortalecem quem está apenas iniciando esse caminho.”

A fisioterapeuta Maria Eduarda de Moura considera um privilégio conviver diariamente com cristãos cheios de vivências e diz que o testemunho dos mais maduros tem sido fonte de encorajamento e fortalecimento em sua jornada cristã
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Aos 81 anos, a aposentada Vera Maria Borges, líder do ministério Idosos que Vencem (IQV), na IIGD em Taubaté (SP), sublinha que as atividades promovidas pela Igreja permitem que os mais velhos mantenham uma convivência saudável com membros de outras faixas etárias. “O objetivo central é servir juntos ao Reino de Deus. Portanto, promovemos esse intercâmbio em ações de evangelismo, no coral misto, que reúne jovens, adultos e idosos, e em todas as nossas reuniões semanais.” Vera Borges ressalta que os idosos têm exercido influência positiva sobre os mais jovens, evidenciando um legado de segurança e dependência em Deus. “Desejo deixar para as novas gerações a fidelidade inegociável ao Senhor e a obediência às autoridades constituídas por Ele.”

A aposentada Vera Maria Borges sublinha que as atividades promovidas pela Igreja permitem que os mais velhos mantenham uma convivência saudável com membros de outras faixas etárias
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Na opinião do Pr. Fabiano Santos, líder da Igreja da Graça no bairro Dirceu, em Teresina (PI), o discipulado intergeracional ocupa um lugar de grande importância na fé cristã. No entanto, reconhece que as diferenças de linguagem, o ritmo e as expectativas entre gerações podem ser desafiadoras à convivência, mas lembra que a Palavra de Deus aponta a diversidade de idades como oportunidade para edificação mútua, conforme registra a passagem de Tito 2.2-4: Os velhos que sejam sóbrios, graves, prudentes, sãos na fé, no amor e na paciência. As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem, para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos. De acordo com o ministro, mesmo em um contexto marcado por rápidas mudanças culturais, os princípios bíblicos permanecem como referência para promover relacionamentos sólidos na igreja. “A fé não se transmite apenas por ensino, mas, principalmente, pelo testemunho de vida. Os mais experientes já enfrentaram desafios e livramentos, e seus relatos servem como inspiração e orientação para os que vêm depois (Pv 20.29). E a rotina de atividades da IIGD favorece o encontro intergeracional, seja em ações evangelísticas, projetos sociais, seja nos cultos semanais, criando conexões entre as faixas etárias.”

O Pr. Fabiano Santos lembra: “A fé não se transmite apenas por ensino, mas, principalmente, pelo testemunho de vida. Os mais experientes já enfrentaram desafios e livramentos, e seus relatos servem como inspiração e orientação para os que vêm depois”
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Para a Pra. Dayane Vilela, líder da Igreja da Graça em Terra Vermelha, na cidade de Vila Velha (ES), o intercâmbio entre gerações no ministério é alicerçado pela criação intencional de espaços de atuação conjunta: os mais jovens contribuem com a agilidade e o domínio das mídias sociais, especialmente no evangelismo digital, enquanto os membros mais experientes oferecem firmeza, sabedoria e maturidade espiritual. “Quando a igreja permanece firmada na pregação do Evangelho e na manifestação do poder de Deus, as diferenças geracionais perdem relevância”, observa a ministra, asseverando que “é essencial reforçar continuamente que os crentes são coerdeiros da mesma promessa e indispensáveis para o cumprimento do propósito de Deus para esta época”.

A Pra. Dayane Vilela observa: “Quando a igreja permanece firmada na pregação do Evangelho e na manifestação do poder de Deus, as diferenças geracionais perdem relevância”
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