
COMPROMISSOS DO CASAMENTO
09/02/2026
Por Victor Rodrigues
O estudo Panorama Religioso 2023-2024, realizado pelo instituto de pesquisas Pew Research Center e divulgado em 2025, revela que há diferenças significativas entre homens e mulheres no comportamento religioso em território norte-americano: 66% das mulheres adultas se identificam como cristãs, frente a 59% dos homens. A sondagem mostra também que metade das mulheres admite orar diariamente – percentual que cai para 37% entre os homens estadunidenses. Além disso, a percepção de paz ou bem-estar espiritual ao menos uma vez por semana é relatada por 45% das mulheres, contra 35% dos homens. Entre aqueles que dizem que raramente ou nunca vivenciam esse tipo de sentimento, de satisfação, a disparidade se amplia: 29% dos homens, contra 20% das mulheres. Ao tomar conhecimento desses dados, a redação de Graça/Show da Fé repercutiu esse levantamento no Brasil, junto a lideranças evangélicas, para saber se as cristãs e os cristãos brasileiros têm essa mesma vivência da fé em comparação a esse mesmo público nos Estados Unidos.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Na percepção de Rosimeire Fialho, coordenadora do ministério de mulheres da Convenção Batista Nacional (CBN), um dos elementos que fazem as brasileiras se engajarem nas atividades da igreja resulta da junção de sua natureza auxiliadora (Gn 2.18) e de sua formação cultural. Em nosso país, observa ela, as mulheres são ensinadas a servir em todos os âmbitos e, por isso, estendem o cuidado e a dedicação da esfera familiar para a comunidade de fé, transformando o serviço em propósito. “A mulher carrega o princípio divino do cuidado perseverante. Essa vocação fundamental, que se manifesta desde a geração de uma nova vida até sua sustentação diária, reflete-se igualmente em sua jornada de fé nas igrejas.” Rosimeire complementa: “Da mesma maneira que não desiste de nutrir e proteger a vida que gera, ela não renuncia à sua confiança em Deus, demonstrando uma resiliência espiritual que brota do núcleo de seu ser”. No entanto, ressalta que, no contexto de liderança eclesiástica, a mulher ainda não alcançou o mesmo reconhecimento do homem. “Deus estabeleceu a mulher como auxiliadora, mas a cultura distorceu esse papel, sobrecarregando-a e levando-a a assumir funções além de sua vocação”, pondera Rosimeire, lamentando que, paralelamente, há um enfraquecimento do papel espiritual do homem, um reforço a uma postura passiva, de quem espera ser servido. “A mudança desse cenário exige que o homem assuma sua liderança espiritual e serviço e que a mulher exerça seu dom de auxiliadora sem ter de suportar cargas injustas.”
Para a teóloga Céfora Carvalho, da Assembleia de Deus no bairro Centro Cívico, em Curitiba (PR), fatores demográficos ajudam a explicar a maior presença feminina nas igrejas. São 104,5 milhões de mulheres, contra 98,5 milhões de homens, de acordo com o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – e a forte ligação das mulheres com o cristianismo, que remonta aos primórdios da Igreja. “Desde o primeiro século, as conversões femininas desempenharam papel central na expansão da fé, ao alcançarem filhos, servos e, posteriormente, os próprios maridos.” A estudiosa pontua que, no Brasil, esse protagonismo ganhou novo impulso com o movimento pentecostal, o qual abriu espaço para a atuação feminina em funções de liderança, como evangelistas, mestres e pregadoras. “No contexto assembleiano, áreas como intercessão, louvor e ensino de crianças e adolescentes contam com expressiva participação feminina. Os homens também estão presentes, mas predominam no ministério pastoral e no ensino teológico voltado para adultos.” Céfora Carvalho salienta que muitas mulheres atuam como plantadoras de igrejas, discipuladoras, conselheiras e, portanto, demonstram preparo para o ministério pastoral. “Isso não é um fenômeno recente, sempre foi uma característica do movimento pentecostal”, destaca. A teóloga reconhece que, ainda há, no meio pentecostal, a necessidade de incentivar mais mulheres a se dedicarem ao estudo da Teologia e ao ensino.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
De acordo com o Pr. Esdras Dias, secretário-geral da Convenção Batista Nacional (CBN) e líder da Primeira Igreja Batista de Brasília (DF), elas desempenham, na sociedade, papéis educacionais, e isso se reflete nas igrejas: as mulheres são maioria nas Escolas Bíblicas Dominicais, tanto na coordenação quanto no ensino, e, além disso, cuidam do diaconato, servindo à igreja e à comunidade. “Naturalmente, a igreja molda e é moldada pela presença das mulheres em suas fileiras”, analisa o ministro batista, o qual afirma que a baixa frequência masculina nos cultos ocorre devido à omissão. “Muitos homens estão ocupados e preocupados com o sustento de sua família e investem mais tempo nessas questões. Alguns se tornam meros acompanhantes de suas esposas e de seus filhos nas atividades eclesiásticas.” Dias se recorda de que a igreja foi formada por homens, em sua maior parte. “Talvez por causa de um ambiente cultural favorável, no qual o papel masculino era fundamental nas tarefas que lhes eram pertinentes. Mas, com o advento das eras moderna e contemporânea, em que as mulheres assumiram papéis exclusivamente masculinos, eles gradativamente se afastaram dessas tarefas e se omitiram.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Liderança feminina – Por outro lado, a forte presença da liderança feminina em trabalhos sociais e ministeriais é celebrada pela Pra. Marilza Lima, coordenadora do ministério Mulheres que Vencem (MQV) da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Rio de Janeiro. “Percebemos nas Igrejas que as mulheres respondem mais rapidamente ao chamado para servir, envolvendo-se de imediato, enquanto os homens participam de maneira menos ágil na maioria dos casos.” A líder argumenta que, de modo geral, as mulheres são as que mais prontamente se dedicam aos trabalhos eclesiásticos e que a liderança feminina é descrita em vários textos da Bíblia Sagrada. Entre eles, cita os capítulos 4 e 5 do livro de Juízes, os quais narram a história de Débora, que exerceu simultaneamente liderança civil, militar e espiritual sobre o povo de Israel, evidenciando que o gênero nunca foi impedimento para o exercício da autoridade concedida por Deus. “Ela guiou o povo com intrepidez, mostrando, com sua trajetória, que ser mulher nunca desqualificou seu chamado. A resistência à liderança feminina que ainda vemos hoje é muito mais doutrinária do que bíblica, porque a Palavra mostra que Deus escolheu e honrou a liderança das mulheres.”

Do mesmo modo, a Pra. Rosana Charduli, líder do Mulheres que Vencem (MQV) em Volta Redonda (RJ), argumenta que o papel feminino impulsiona, de maneira especial, os ministérios de oração, ação social, evangelismo e atendimento em hospitais, além de se destacar como liderança espiritual. Para ela, um dos motivos desse engajamento no contexto brasileiro é a sensibilidade maternal e a capacidade multitarefa da mulher. “No Brasil, ainda existe certa resistência em relação à presença da mulher em cargos de comando. Todavia, cabe a nós nos posicionarmos e entendermos que fomos chamadas por Deus. O Senhor nunca subestimou nosso valor ou nossa capacidade de liderar”, prega a ministra, mencionando o que escreveu o apóstolo Paulo aos gálatas: Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus (Gl 3.28). “As mulheres devem manter a postura firme naquilo que Deus confiou em suas mãos”, completa.

Foto: Arquivo pessoal – arte sobre foto Ongrace

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Com igual compreensão a respeito do tema, a Pra. Sarah Araújo, líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Valparaíso (GO), garante que a frequência das mulheres nos cultos e nas programações do ministério, além do compromisso com a oração e com a obra do Senhor, são elementos que reforçam o cenário da crescente presença feminina nas igrejas do Brasil. “Nossa liderança não se resume ao ato de comandar. Podemos influenciar com amor, inspirar pelo exemplo, servir com humildade e usar os dons espirituais para edificar pessoas.” A ministra assinala que toda mulher pode liderar na família, no trabalho, no ministério, na comunidade, entre amigas e no discipulado de outras mulheres. “Essa influência cotidiana é parte essencial do papel feminino, que segue o modelo de Cristo, que liderou servindo”, afirma.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
A estudante Jéssica Araújo, 23 anos, membro da Igreja da Graça em Valparaíso (GO), declara que encontra motivação para participar ativamente no acolhimento e no apoio espiritual de outras mulheres na congregação. “Nós não temos medo de demonstrar nossos sentimentos, e isso fortalece nossa vida espiritual. Também enfrentamos o desafio de equilibrar a fé com as responsabilidades diárias e, assim, temos conquistado espaço, voz e união dentro da igreja.” Jéssica ratifica que servir é um privilégio, e cada mulher tem algo único a oferecer. “Quando damos o primeiro passo, Deus faz o resto e usa a nossa vida de maneira que nem imaginamos”, conclui, reforçando a ideia de que, nas igrejas brasileiras, as mulheres não são apenas maioria: estão absolutamente dedicadas a exercer seu papel na obra de Deus.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA


