
FIRME NO CAMINHO
15/01/2026
Por Evandro Teixeira
O Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou que as mulheres representam 55,4% (30,4 milhões) do total de 55,9 milhões de evangélicos. De acordo com especialistas, esse percentual sugere que elas estão sustentando o crescimento de inúmeras comunidades de fé no Brasil. Em diversos casos, além de assumirem departamentos internos – como de ensino bíblico, ação social e círculos de oração –, elas vêm ocupando cada vez mais postos de liderança nas igrejas. Para a teóloga e pesquisadora Janaína Brito de Assis Freitas, os dados do IBGE confirmam uma realidade já percebida na comunhão eclesiástica: devido às necessidades pessoais, as mulheres tendem a buscar uma conexão com Deus com mais frequência do que os homens. “Muitas encontram na fé o apoio, a esperança e o pertencimento diante de contextos de exclusão social e violência estrutural”, analisa a doutoranda e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). Apesar de constituírem a base majoritária das igrejas, Janaína observa que, em muitas congregações, as mulheres continuam relegadas a papéis de menor visibilidade. “O crescimento numérico feminino não se traduz, automaticamente, em igualdade de reconhecimento e liderança”, avalia. Na opinião da estudiosa, essa lógica hierárquica, ainda muito centrada no poder masculino, mantém-se mesmo quando a presença feminina é predominante. “O número expressivo de mulheres evangélicas não é apenas uma estatística demográfica, mas também o espelho das contradições de uma fé que depende delas para existir, porém resiste em reconhecê-las plenamente em sua autoridade espiritual”, ressalta.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
Sob o ponto de vista bíblico, o Rev. Eber Cocareli, diretor e apresentador do programa Vejam Só!, da Rede Internacional de Televisão (RIT), destaca que, a exemplo dos homens, as mulheres são essenciais para o funcionamento da igreja. Ele lembra que Jesus fez questão de tratá-las de maneira igualitária sem focar a diferenciação entre gênero, dando-lhes prestígio em determinadas situações. “Após a ressurreição, elas foram as primeiras a testemunhar o Cristo ressurreto e a crer no milagre (Mc 16.9-14), assumindo, assim, protagonismo na narrativa bíblica do plano da salvação.” Cocareli admite que ainda há grupos cristãos resistentes à ascensão das mulheres na liderança da igreja, agindo, em sua maioria, movidos por zelo e temor por compreender que a Bíblia não permite mulheres como dirigentes de igreja. “Mas graças a Deus e à ação determinada dos nossos irmãos do passado recente, experimentamos hoje, no Brasil, uma maravilhosa liberdade proporcionada pela beleza e pela riqueza da diversidade do Corpo de Cristo”, ressalta, acrescentando que quem acredita na permissão divina para a liderança feminina tem diversas igrejas para frequentar, assim como quem crê de forma contrária.

Foto: Arquivo Graça – Solmar Garcia – modificado por IA
Liderança singular – Líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Goiás, a Pra. Juliana Viana de Sousa Barbosa argumenta que há traços da personalidade da mulher que ajudam no exercício do papel de liderança. Entretanto, ela reforça que o chamado ministerial não deve levar em conta o gênero. “Em geral, a mulher é mais sensível. Isso tem a ver com fatores biológicos e psicossociais, que favorecem a comunhão com Deus e a relação com as pessoas com as quais tem de lidar”, explica a ministra, para quem o aumento da representatividade feminina nas igrejas está diretamente ligado ao crescimento das comunidades evangélicas. Juliana lembra que, desde os tempos bíblicos, as mulheres são usadas pelo Altíssimo para grandes missões, e, por isso, lamenta que ainda existam ministérios que limitem a atuação feminina. “Nem todas as comunidades evangélicas no Brasil ordenam pastoras”, declara. [Leia, no final desta reportagem, o quadro Exemplos marcantes]

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
Já a Pra. Fabiana da Silva Gomes, líder da IIGD no Leme, na zona sul do Rio de Janeiro (RJ), afirma que a predominância do público feminino nas comunidades de fé, por si só, não é motivo para que as mulheres ocupem cargos de liderança. Isso porque essa linha de pensamento poderia ser confundida com as discussões de grupos feministas, sob o argumento de que as mulheres devem buscar seu lugar na sociedade. Para a ministra, o serviço ministerial não pode nem deve estar atrelado a questões políticas e sociais. “A luta pelo reconhecimento e pela igualdade dos direitos femininos é legítima. Porém, quando se trata da obra de Deus, é preciso haver consciência de que a vontade do Senhor deve prevalecer”, defende.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
Embora o tema da liderança feminina ainda gere debates, a Pra. Fernanda Simões Jerônimo, auxiliar na sede regional da Igreja da Graça em Ribeirão Preto (SP), reforça que assumir a posição de líder é fruto das contribuições femininas na obra de Deus ao longo da história, quando elas desempenharam papéis menores, mas igualmente importantes – como intercessoras, educadoras, visitadoras e responsáveis por ações sociais. “Com o tempo, e a partir dessas experiências, elas adquiriram legitimidade para cargos de maior visibilidade como resposta ao empenho, à dedicação e à luta contra as barreiras culturais”, pontua a pastora, salientando ainda que, por seu trabalho em diferentes funções, a participação feminina se tornou essencial em qualquer ministério. Entretanto, ela ressalva que, para ser líder, exigem-se dinamismo e capacidade de adotar múltiplas estratégias para suprir as necessidades espirituais, sociais e emocionais da comunidade. “Traços da personalidade da mulher, como sensibilidade, organização e acolhimento, tendem a favorecer as atividades eclesiásticas”, resume.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Para a Pra. Patrícia Fernandes da Cunha, do Ministério Recomeço, em Xaxim (SC), é inegável a importância do papel feminino na obra de Deus – registrado nas Escrituras Sagradas –, e suas funções não se limitam ao aspecto quantitativo, mas à competência. “Por isso, atualmente, o cenário é bastante favorável para nós, porque atuamos como pastoras, missionárias e líderes de departamentos, obtendo o respeito ministerial pelo trabalho desenvolvido”, afirma.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
Segundo a Pra. Mônica Terrigno Macedo de Souza, líder da Igreja da Graça em Mesquita (RJ), na Baixada Fluminense, muitas mulheres precisam conciliar o chamado ministerial com a profissão e a família. “Elas enfrentam uma tripla jornada, o que gera sobrecarga física, emocional e espiritual”, observa a ministra. Ainda assim, mesmo com tantas responsabilidades envolvidas, as mulheres conseguem sustentar o cotidiano da igreja e se tornam referências espirituais, teológicas e administrativas. Contudo, apesar dos avanços, a pastora reconhece que existe uma longa estrada a percorrer para chegar à plena valorização da liderança feminina. “Acredito no potencial das mulheres. Seguiremos avançando, cientes de que a glória é do Senhor”, conclui.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
EXEMPLOS MARCANTES
A participação de mulheres em cargos diretivos é registrada em várias passagens da Bíblia Sagrada. No Antigo Testamento, um dos exemplos marcantes é Débora, juíza e profetisa. Conhecida por sua coragem e atuação à frente do povo de Deus, ela foi fundamental na libertação dos israelitas do jugo cananeu, liderando o exército com o comandante Baraque contra o rei Jabim e seu general Sísera (Jz 4.1-23). Outra mulher que se destacou foi Hulda, profetisa que foi consultada pelo rei Josias após a descoberta do livro da Lei. Ela interpretou a Palavra para o rei e profetizou o julgamento de Israel, pregando também sobre o arrependimento e a misericórdia para o monarca (2 Rs 22.14-20; 2 Cr 34.22-28).
No Novo Testamento, há o relato do papel de Priscila, uma colaboradora fiel na pregação do Evangelho. Ao lado do marido, Áquila, ela liderava a igreja e ajudava a fortalecer as primeiras congregações, além de ensinar de modo preciso o caminho da fé (At 18.24-26). Outro exemplo notável é Lídia, mulher de negócios bem-sucedida que se converteu depois de ouvir a pregação do apóstolo Paulo em Filipos (At 16.11-15). Ao abrir sua casa para o estabelecimento da primeira comunidade cristã em território europeu, Lídia exerceu grande influência nos primórdios da Igreja.
(Fonte: Bíblia Sagrada)


