
COMPROMISSOS DO CASAMENTO
09/02/2026
Por Victor Rodrigues
O total de estudantes matriculados em cursos de Ensino Superior no Brasil atingiu um patamar inédito, ultrapassando a marca de 10 milhões após 45 anos. A informação consta no último Censo da Educação Superior, divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), atrelado ao Ministério da Educação (MEC). O levantamento aponta um crescimento de 2,5% no comparativo entre 2023 e 2024, quando o país contabilizava pouco mais de 9 milhões de universitários. O estudo não detalha a composição religiosa desse contingente, mas, considerando que 26,9% da população brasileira se identifica como evangélica, especialistas avaliam que haja um número expressivo de crentes em Jesus nas faculdades do país [Do editor: Os dados do Censo de Educação Superior de 2025 só deverão ser divulgados no segundo semestre de 2026].

Foto: Divulgação / Bethlehem College and Seminary – modificada por IA
No ponto de vista de pastores e teólogos, esses jovens transitam em terreno pantanoso. Segundo o pastor e teólogo norte-americano John Piper, os discentes precisam lidar com o secularismo, o relativismo moral, o apego aos valores do mundo e o excesso de entretenimento. A predominância de visões seculares e a negação da verdade absoluta podem levar estudantes a relativizar a fé bíblica e a se afastar da autoridade das Escrituras, acentua Piper, o qual aconselha os universitários cristãos a fazer uma imersão constante na Palavra de Deus, mantendo-se ligados a uma comunidade cristã saudável e praticando a oração. As escolhas acadêmicas e profissionais devem considerar como os dons e o tempo podem ser usados para a glória de Deus, e não apenas para realizações passageiras, lembra-se o teólogo batista.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Esse mesmo entendimento é compartilhado pelo teólogo assembleiano Esdras Cabral, que alerta os pais cristãos acerca dos obstáculos enfrentados por jovens nas universidades. Em vídeo postado no YouTube, ele questionou se esses estudantes cristãos estão preparados para lidar com um ambiente acadêmico influenciado pelo ateísmo, marxismo, evolucionismo e outras correntes que podem impactar a fé cristã. Segundo Cabral, apesar de as igrejas investirem tempo, orientação e apoio à manutenção de práticas espirituais, como leitura da Bíblia e a oração, ainda falta preparo intelectual e apologético. Autor do livro Defendendo a fé na universidade (CPAD), ele afirma que muitos jovens ingressam no Ensino Superior sem condições de responder a questionamentos ideológicos e considera preocupante o fato de apenas dois em cada dez permanecerem firmes com Cristo após a graduação. Para o teólogo, é necessário que as congregações revejam seus modelos de discipulado e ampliem o ensino em áreas como Apologética, Filosofia Cristã e História da Igreja. Ao mesmo tempo, conclama os pais a participar ativamente desse esforço, enfatizando que a família é o primeiro e principal espaço de formação da fé.

Base bíblica – Na visão do Pr. Lázaro Leventi, presidente da Juventude Batista Nacional (JUBAN) e líder da Igreja Batista Nacional em Cuiabá (MT), o preparo do jovem evangélico começa antes mesmo da entrada na universidade e está diretamente relacionado ao trabalho de sua comunidade cristã na formação espiritual. “Enquanto Igreja, eles são ensinados a pensar e a olhar o mundo a partir de uma cosmovisão [visão de mundo] cristã? Ou apenas os deixamos se desenvolver sem entendimento?”, questiona o pastor. De acordo com ele, muitos chegam ao ambiente acadêmico sem base sólida de fé e acabam sendo moldados por ideologias que poderiam ser rechaçadas por meio do ensino da Palavra e do discipulado.

Foto: Arquivo pessoal – arte sobre foto Ongrace
O ministro batista salienta que o cristianismo não se opõe à razão – conforme diz o apóstolo Paulo em Romanos 12.1 (Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional) – e, portanto, é necessário cuidar da formação espiritual desses jovens ensinando-os e oferecendo-lhes acompanhamento pastoral. “Muitos se afastam da fé porque a família e a igreja não agiram de modo preventivo, permitindo que ideologias ocupassem esse espaço primeiro”, expõe Leventi, acrescentando que a universidade está longe de ser um ambiente neutro e, devido a isso, deve ser encarada como um campo missionário. “O jovem evangélico precisa viver a fé de maneira intencional, saber dialogar, evangelizar e sustentar suas convicções, mantendo a conexão com Deus no centro da vida acadêmica. Essa é única forma de influenciar o ambiente universitário sem ser absorvido por ele.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para o Pr. Erick Santana, líder estadual do ministério Jovens que Vencem (JQV) da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) na Bahia, a presença crescente de jovens cristãos nas universidades deve ser vista como algo positivo porque esta é uma geração mais consciente da própria fé e disposta a expressá-la com convicção. “Hoje, a maioria sabe se posicionar e confessar sua fé em Cristo com firmeza”, afirma Santana, reconhecendo, entretanto, que “é fundamental acompanhá-los e orientá-los para que não se desviem do Caminho”. Por essa razão, ele destaca a importância de haver uma preparação espiritual para que esses moços e essas moças enfrentem, sem medo, o dia a dia acadêmico. “É preciso vestir toda a armadura de Deus, para que sejam sal e luz, diante de uma geração corrompida”, adverte o ministro, mencionando o texto de Efésios 6.11,12 (Revesti-vos de toda a armadura de Deus, para que possais estar firmes contra as astutas ciladas do diabo; porque não temos que lutar contra carne e sangue, mas, sim, contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais) e referindo-se ao que Jesus ensina em Mateus 5.13,14: Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Com o mesmo entendimento de Erick Santana, o Pr. Wedson Herculano, líder estadual do Jovens que Vencem (JQV) da Igreja da Graça em Minas Gerais, aponta a Palavra como o alicerce que sustenta o universitário cristão diante das pressões externas. “A Bíblia funciona como uma bússola: orienta, fortalece o caráter e dá sentido à vida acadêmica e profissional.” Herculano acrescenta que, na IIGD, os pastores oferecem mentoria, oração e aconselhamento e mostram que fé e conhecimento podem caminhar juntos. No depoimento dado à redação de Graça/Show da Fé, ele aproveitou a oportunidade para mandar uma mensagem de encorajamento à juventude: “A universidade é um tempo de desafios, mas também de amadurecimento. Não se esconda da fé nem abra mão dos princípios cristãos. Mantenha-se firme, busque apoio em Deus e lembre-se: as dificuldades passageiras não podem apagar a obra que o Altíssimo está realizando em sua vida.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Missão intencional – Entre provas, trabalhos acadêmicos e uma intensa rotina, a estudante de Serviço Social Vitória de Almeida, 22 anos, da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), tem um objetivo que vai além do diploma: viver e compartilhar a fé dentro do campus. Líder do movimento Jesus está na UFES, a jovem resume a proposta do grupo, que promove ações evangelísticas semanalmente: “Acreditamos que o maior campo missionário é a nossa universidade”. Para Vitória, está fora de questão passar quatro anos sem glorificar o Senhor naquele espaço estudantil. “Temos visto Deus agir poderosamente na UFES, onde Cristo está presente, e há um despertar genuíno para a missão de tornar o Nome do Senhor conhecido por todos”, testemunha ela, deixando claro que a comunhão é a base de apoio do universitário cristão. “É um alívio ver que há irmãos em Cristo para dividir a jornada e enfrentar os tempos difíceis.” Vitória ressalta que se reunir com outros estudantes que compartilham a mesma fé é mais do que um encontro, é um respiro em meio à correria acadêmica. “Todo universitário enfrenta períodos complicados. A rotina é exaustiva, mas ter um tempo para adorar a Deus traz paz de espírito. Mesmo diante das lutas, Ele é nosso socorro e alívio. Só encontramos a verdadeira paz na presença de Deus”, frisa.
A veterana e líder voluntária da Cru Campus Brasil, Evelyn Frade, 30 anos, também encontrou na fé o alicerce para sua jornada acadêmica e missionária. “Quando entrei na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e conheci a Cru, minha vida espiritual mudou. Foi um divisor de águas. Hoje, missões são parte essencial da minha caminhada com o Pai celestial”, conta Evelyn, a qual tem testemunhado o poder transformador da fé no ambiente universitário. “O que mais me marca são as histórias de crescimento espiritual e intimidade com Deus. Vejo jovens compreendendo quem Ele é, vivendo com mais propósito e amor pelas pessoas. Muitos pensam que a fé se enfraquece na universidade, mas o que vejo é exatamente o contrário”, afirma ela, reconhecendo, que o caminho não é fácil em razão da rotina intensa. “Nosso papel é ser presença. Estar nesses espaços com respeito, firmeza e amor. A universidade é o nosso campo missionário, e, às vezes, basta uma atitude para ser luz onde ninguém mais quer brilhar”, resume. [Do editor: O Campus Crusade For Christ (hoje chamado apenas como Cru) é um movimento cristão interdenominacional fundado em 1951 pelo evangelista norte-americano Bill Bright e presente em diversas universidades nos EUA e em várias partes do mundo com foco na evangelização]

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Aos 20 anos, Hemilly Lauren vive o desafio de unir fé e formação acadêmica. Estudante de Direito na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e membro da IIGD em Passos (MG), ela declara que já presenciou debates em que a visão cristã foi tratada como ultrapassada. “É preciso estar sensível ao Espírito Santo para não se deixar influenciar por ideologias que se opõem à Palavra. Mesmo com as pressões do ambiente universitário, priorizo minha comunhão com Deus por meio do jejum, da oração e da leitura da Bíblia.” Segundo Hemilly, a resistência à proclamação da fé cristã nas universidades tem assumido formas cada vez mais sutis. “Nunca fui hostilizada por ser cristã, mas já vi princípios bíblicos sendo descredibilizados ou ridicularizados por colegas e professores. Isso influencia o modo como muitos passam a enxergar a Verdade”. Ela esclarece que esse tipo de situação não a desanima. “Eu me lembro do chamado de Jesus em Marcos 16.15 (E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura). Se o Senhor me colocou na faculdade para alcançar uma única alma, esses cinco anos já terão valido a pena”, afirma ela, referindo-se ao tempo de curso de Bacharelado em Direito.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
O estudante Pedro Acácio, 21 anos, que cursa Licenciatura Escolar Musical na UEMG, relata como faz para conciliar a rotina acadêmica com a fé em Jesus. Membro da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no bairro Nacional, em Contagem (MG), ele acredita que diálogo e equilíbrio emocional são armas essenciais para enfrentar questionamentos sobre a fé. “Já precisei defender meus princípios e até abrir mão de oportunidades de trabalho que não combinavam com meus valores cristãos. Vejo esses momentos como testes de amadurecimento e oportunidades de testemunhar minha fé”, conta o jovem, deixando claro que os cristãos têm o dever de falar a verdade com coragem e sabedoria. “A mensagem do apóstolo Pedro, registrada em 1 Pedro 4.8,9 (Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo), lembra-me de que não estou sozinho nas lutas. Saber que outros irmãos enfrentam desafios semelhantes cria uma sensação de comunhão que nada neste mundo consegue oferecer, algo que nenhuma satisfação passageira ou vício seria capaz de dar”, conclui Pedro, que, a exemplo da nova geração de jovens cristãos, enfrenta (enormes) desafios no ambiente universitário, reafirmando a sua fé em Cristo, ao mesmo tempo que vai adquirindo conhecimentos dentro do espaço acadêmico.


