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Pastor fala do projeto Paz para o Acre, que busca reabilitar criminosos por meio da fé em Jesus

Foto: Arquivo pessoal

Por Marcelo Santos

Enquanto percorre o amplo espaço da Igreja Geração Eleita, em Rio Branco (AC), o Pr. José Arnaldo da Silva Barros, 54 anos, concede esta entrevista à Graça/Show da Fé por videoconferência. Durante a chamada, ele faz um tour virtual, mostrando o local. Em seguida, aponta a câmera para um galpão simples, coberto e sem paredes, cercado por uma densa mata. O líder religioso então apresenta alguns homens — uns empenhados em tarefas; outros, em repouso. “Todos eles foram libertos. Eram homicidas, bandidos ligados ao crime organizado. Hoje, servem a Jesus”, revela, ressaltando o trabalho de resgate e recuperação desenvolvido pela denominação por meio do ministério Paz para o Acre.

Viúvo do primeiro casamento e casado com Lúcia, 55, José Arnaldo é pai de quatro filhos. Nascido na capital acreana, ele fundou a Geração Eleita há 14 anos e, desde 2017, coordena o Paz para o Acre, criado para evangelizar a população carcerária e pessoas que tenham histórico de envolvimento com facções criminosas. “O propósito é oferecer reabilitação espiritual e moral para quem busca uma nova vida”, enfatiza o pregador, acrescentando que a iniciativa vem dando frutos. Segundo Barros, já são milhares de “desligamentos” – termo que utiliza para se referir à conclusão do processo de conversão do criminoso, do rompimento com o mundo da criminalidade.

O ministro lembra que o projeto começou dentro do Complexo Penitenciário Francisco de Oliveira Conde há oito anos. Foi lá que, em 2013, surgiu o Bonde dos Treze (B13) – grupo de 13 criminosos conhecidos pela violência extrema e por crimes, como sequestros, homicídios, tráfico de drogas, roubos e extorsões. “Nosso objetivo é resgatar essas pessoas e reintegrá-las à sociedade de maneira digna e produtiva”, explica José Arnaldo, assinalando que o Paz para o Acre oferece apoio espiritual, orientação bíblica e palestras educativas. Neste bate-papo, ele fala dos desafios do ministério e da realidade carcerária no estado.  

Quando o senhor entrou pela primeira vez em um presídio?

Isso aconteceu há mais ou menos 15 anos e foi impactante. A sensação era de insegurança, e o ambiente, pesado. Fazia muito calor, e os presos, muitos deles homicidas, estavam sem camisa, cheios de tatuagens. Vi de perto a superlotação: celas que deveriam abrigar quatro pessoas tinham uma dúzia. O sistema prisional do Acre não tem estrutura para ressocializar ninguém, serve apenas para punir com sentenças altíssimas. Quem é preso por facção já entra condenado a três, quatro ou até oito anos, sem qualquer programa de reintegração.

De que maneira surgiu o Paz para o Acre?

Eu já fazia visitas religiosas aos presídios, mas, ao ver de perto a situação no Pavilhão J, do Complexo Penitenciário Francisco de Oliveira Conde, percebi que era necessária uma ação mais estruturada. Os líderes do Bonde dos Treze (B13) haviam criado um estatuto, determinando que a única saída para deixar o crime seria pela Igreja. Então, mesmo sem formação teológica, criei o ministério Paz para o Acre, e a minha preparação, de fato, aconteceu na prática diária, na vivência e no compromisso com a mudança de vida.

Como funciona o processo de “desligamento” das facções?

Os presos que desejam deixar o mundo do crime gravam um vídeo, declarando o nome da facção, o “vulgo” (nome de guerra) e a senha usada dentro da organização criminosa. Depois, eles são encaminhados para a igreja, acolhidos pelo projeto e se comprometem a abandonar a criminalidade e seguir a fé em Jesus. É um gesto simbólico, mas prático, pois marca um novo começo.

De que maneira é garantida a segurança desses indivíduos?

O estatuto do projeto determina que, após gravar o vídeo e converter-se, a pessoa passa a ser protegida pela comunidade cristã. As facções respeitam esse processo: ninguém pode tocar nessas pessoas. O desafio é grande, mas muitas vidas já foram transformadas e, hoje, estão reintegradas à sociedade.

Quantas pessoas já passaram pelo ministério?

Mais de cinco mil já foram ajudadas a sair do crime e reconstruir a vida. Atualmente, temos uma ampla rede de apoio – formada por escolas e igrejas – que trabalha em conjunto para reduzir a criminalidade no Acre, oferecendo oportunidades de restauração com base no ensino da Palavra de Deus.

Quais são as frentes de atuação do Paz para o Acre e seus principais desafios?

O projeto trabalha em duas frentes. Nos presídios, oferece apoio espiritual, orientação bíblica e mostra que existe um caminho melhor para reintegrar essas vidas de modo digno, com oportunidades concretas de transformação. Com foco na prevenção, também estamos presentes em escolas e nos bairros, onde contamos com o suporte das igrejas, realizando palestras educativas de conscientização para evitar que os jovens sejam cooptados pelo crime. O maior desafio é garantir a segurança de todos e manter a estrutura funcionando. O sistema prisional está sobrecarregado, faltam políticas públicas para ressocialização e as ameaças das facções continuam sendo um risco constante. Além disso, o projeto depende da ajuda de voluntários e parceiros para alcançar mais pessoas.

Já passou por momentos de risco?

Sim. Em uma dessas situações, confundiram meu carro com o de um criminoso e atiraram contra mim. Mas Deus me livrou e tem me protegido. Sempre oriento os membros da igreja a agirem com sabedoria, respeitando a lei e buscando segurança em todas as ações.

O senhor já precisou intervir em “tribunais do crime”?

Sim. Uma vez, um pai me procurou desesperado, porque o filho seria julgado pelo “tribunal do crime” – algo que acontece na “parte alta” da área dominada pela facção. Consegui autorização para entrar, e, ao chegar lá, havia sete homens armados e dois jovens sendo julgados. Se fossem considerados culpados, seriam executados. O “julgamento” começou às 21h e terminou às 2h30. Pedi a palavra, lembrando que, desde o início, os rapazes diziam ser inocentes. Disse aos criminosos que me responsabilizaria por eles e os levaria para o centro de recuperação até que tudo fosse esclarecido. A proposta foi aceita, e uma semana depois ficou provado que os jovens eram inocentes.

José Arnaldo da Silva Barros
Pastor

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