FIRME NO CAMINHO
23/01/2026
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Projeto de publicitário incentiva o acolhimento e o cuidado aos órfãos

Foto: Marcelo Santos

Por Marcelo Santos

A paternidade sempre fez parte dos sonhos do publicitário Daniel de Tomazo, 47 anos. Ao se casar com a administradora Carla de Tomazo, 49, ele imaginava que a chegada dos filhos aconteceria de maneira natural. Entretanto, após enfrentar o quarto aborto espontâneo, o casal mergulhou em um período de intensa dor e reflexão. Foi nesse momento complexo que eles compreenderam que seriam pais por outro caminho: a adoção. Assim, em 2014, tornaram-se pais das gêmeas Paola e Pietra – atualmente com 12 anos. As filhas inspiraram a criação do projeto Cultura da Adoção em 2018, uma iniciativa que promove a prática de acolhimento dentro das comunidades cristãs como expressão prática da fé. “É uma causa central para o cristianismo, mas, muitas vezes, não recebe a atenção que merece”, sublinha Daniel, acrescentando que a iniciativa mobiliza famílias a receber crianças que aguardam por um lar, além de oferecer apoio e recursos aos adotantes.

Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), não faltam pretendentes habilitados à adoção – são mais de 35 mil –, e cerca de cinco mil órfãos. O desafio reside no fato de as pessoas preferirem adotar crianças com idades de zero a quatro anos, e a maioria está acima dessa faixa etária. Diante desse cenário, Daniel considera que a igreja pode exercer um papel decisivo para mudar essa realidade. “Somos filhos de Deus e podemos chamá-Lo de Pai porque fomos adotados por Ele. Ter isso em mente é fundamental para compreendermos a adoção”, prega o publicitário, que congrega com a família na Zion Church no Morumbi, em São Paulo (SP). Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, Daniel Tomazo destaca os desafios do projeto e fala da importância de adotar como ato de amor cristão.

Como surgiu a ideia do Cultura da Adoção?

A partir da nossa própria história. Eu e a Carla sempre desejamos ter filhos, e a adoção foi uma opção, principalmente pela experiência da minha mãe, que foi adotada, e o trabalho que a minha esposa desenvolveu com crianças na igreja. Passamos por dificuldades para ter filhos biológicos e, após várias gestações interrompidas, concentramos nossos esforços na adoção. Deus nos surpreendeu com a chegada das gêmeas, que são um presente divino. Foi nesse momento que nasceu em nosso coração o desejo de levar adiante essa causa. E, há sete anos, o Senhor nos direcionou a transformar essa experiência pessoal em um movimento de adoção focado na Igreja Evangélica.

De que maneira o Cultura da Adoção está organizado para orientar famílias e igrejas?

A ideia é inserir a causa do órfão dentro da Igreja Evangélica brasileira. O projeto está dividido em quatro frentes principais: capacitação de famílias, acolhimento familiar, apadrinhamento afetivo e voluntariado. A partir de cursos, reuniões e acompanhamento, orientamos e apoiamos as famílias durante todo o processo de adoção e incentivamos a acolhida de crianças que ainda não foram adotadas, mas que necessitam de um lar temporário. Além disso, promovemos um programa de voluntariado voltado para as instituições que apoiam o projeto. Nosso objetivo é tornar a adoção uma parte primordial da cultura e da missão da igreja.

Como as famílias que chegam ao projeto são preparadas para o processo de adoção?

Elas frequentam um curso de oito semanas de duração. Nele, a adoção é abordada sob as diferentes perspectivas: emocional, jurídica e espiritual, sempre com uma visão cristã. Assim, acompanhamos as famílias de perto, ajudando na preparação e fornecendo o suporte necessário para que elas se sintam preparadas e confiantes. Acreditamos que, com a orientação adequada, podem ficar mais seguras durante esse processo tão desafiador.

Ainda há preconceitos ou equívocos comuns dentro das igrejas quando o assunto é adoção?

Sim. Muitos se perguntam se um filho adotivo é ‘realmente filho’, e há medos relacionados à questão legal, como a possibilidade de a família biológica reverter a adoção. Outro temor é de que a criança, ao ficar mais velha, revolte-se ou tenha comportamentos negativos. Na igreja, também existe a preocupação sobre heranças espirituais que a criança ou o adolescente possa carregar. No entanto, cremos firmemente que o poder do sangue de Jesus é maior do que qualquer influência desse tipo. Como pais adotivos, temos a responsabilidade de estabelecer uma nova história de amor e acolhimento. Desse modo, a adoção precisa ser entendida como uma forma de restauração e redenção, refletindo a adoção espiritual que, como cristãos, recebemos por intermédio de Cristo (Gl 4.4,5).

Quais passagens ou ensinamentos bíblicos norteiam o Cultura da Adoção?

Uma das passagens é Romanos 8.15: Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. Esse versículo é muito poderoso, porque nos lembra de que somos filhos de Deus e podemos chamá-Lo de Pai, já que fomos adotados por Ele. Quando adotamos uma criança, estamos refletindo e testemunhando o ato de adoção divina, vivendo o amor e a graça que recebemos. A Bíblia também revela, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, a responsabilidade de cuidar dos órfãos, suprindo as suas necessidades. A verdadeira religião, segundo Tiago 1.27, é visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações. Ademais, as Sagradas Escrituras citam exemplos relevantes: Moisés foi adotado pela filha do Faraó; Ester, por Mardoqueu, e, o mais significativo de todos: Jesus foi adotado por José. Mesmo sendo o Filho de Deus, ao ser acolhido, Ele entrou para a genealogia do pai adotivo. Portanto, a adoção não é apenas um tema bíblico, mas também um princípio cristão.

O que os crentes em Jesus e a Igreja devem fazer em prol dessa causa?

Como um dos fundamentos mais essenciais do Evangelho, a Igreja precisa proporcionar visibilidade à adoção. Muitas vezes, adotar é uma ação idealizada de maneira romântica, quando, na verdade, trata-se de um chamado transformador e de grande responsabilidade. Não é um caminho para todos, mas acredito que muitos deveriam orar e perguntar a Deus se Ele os convoca para essa missão. Adotar é um ato de fé e um reflexo do coração do Senhor. Por isso, precisamos refletir – individual e coletivamente – sobre como incorporar essa causa em nossa vida e nas igrejas, tornando-a parte indispensável da jornada cristã.

Daniel de Tomazo
Publicitário e fundador do projeto Cultura da Adoção

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