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Medicina e Saúde – 276
01/07/2022
Foto: Divulgação/ Missão Portas Abertas

Guerra nada santa

Nigéria vive escalada de violência contra cristãos

Por Patrícia Scott

O massacre ocorrido em uma igreja na cidade de Owo, no Sudoeste da Nigéria, chocou o mundo, em junho. Durante a celebração dominical, extremistas – do Estado Islâmico da Província da África Ocidental (ISWAP, a sigla em inglês) – efetuaram dezenas de disparos contra os fiéis, causando a morte de pelo menos 40 pessoas (inclusive algumas crianças) e deixando dezenas de feridos. Dias antes, o Bp. Samuel Kanu, presidente nacional das igrejas metodistas do país, havia sido sequestrado em uma estrada no estado de Abia, no Sul nigeriano. O líder foi solto mediante pagamento de um resgate de 240 mil dólares – o equivalente a 1,2 milhão de reais.

O Bp. Samuel Kanu, presidente nacional das igrejas metodistas do país, havia sido sequestrado em uma estrada no estado de Abia, no Sul nigeriano: foi solto mediante pagamento de um resgate de 240 mil dólares – o equivalente a 1,2 milhão de reais Foto: Reprodução / TV

Esses eventos chamaram a atenção da mídia internacional e tiveram ampla cobertura. Contudo, nos últimos anos, veículos de comunicação do mundo todo ignoraram centenas de casos de violência, cada vez mais comuns, contra os seguidores de Jesus naquela nação da África Ocidental de 216,8 milhões de habitantes. Os números de vítimas fatais são estarrecedores: somente nos três primeiros meses deste ano, 915 cristãos foram mortos.

De janeiro de 2021 a março de 2022, houve 6.006 assassinatos de crentes em Cristo na Nigéria, segundo informações da Sociedade Internacional para as Liberdades Civis e o Estado de Direito (InterSociety),
grupo nigeriano de defesa de direitos humanos. Esse alto índice de violência alçou o país à sétima posição na Lista Mundial da Perseguição (LMP) de 2022 – ranking elaborado pela Missão Portas Abertas o qual elenca as 50 nações onde é mais perigoso ser cristão. Nos últimos 13 anos, conforme informações da InterSociety, mais de 45 mil seguidores da fé cristã foram assassinados no país. [Leia, no final desta reportagem, o quadro Escalada de violência]

Por dentro da Nigéria

População: 216,8 (projeção de 2022)
Área: 923.766 km² (pouco maior que o estado do Mato Grosso)

Localização: África Ocidental (na fronteira com o Golfo da Guiné, entre Benin e Camarões)
Presidente: Muhammadu Buhari (desde 2015)

Grupos étnicos: hausa (30%), iorubá (15,5%), igbo ou ibo (15,2%), fulani (6%), tiv (2,4%), kanuri/beriberi (2,4%), obibio (1,8%), ijaw/izon (1,8%) e outros (24,9%) – estimativas de 2018.

Línguas: inglês (oficial), hausa, iorubá, igbo (ibo), fulani e mais de 500 dialetos tribais

Religião: muçulmanos (53,5%), católicos romanos (10,6%), outros cristãos (35,3%) e outros credos (0,6%) – estimativas de 2018.

(Fonte: CIA World Factbook)

Além dos milhares de assassinatos registrados desde 2009, a lista de atrocidades cometidas por radicais islamitas inclui mutilações, torturas, aleijamentos, espancamentos, sequestros, estupros (inclusive de crianças), casamentos arranjados (entre mulheres cristãs e homens muçulmanos) e conversões forçadas ao islamismo. Casos de depredação de patrimônio – casas, propriedades cristãs destruídas – também são contados aos milhares.

Corrupção e insegurança – Observadores internacionais apontam que os criminosos são muçulmanos ligados às diversas milícias terroristas que atuam no país em nome da chamada jihad (a guerra santa islâmica). O aumento da violência seria resultante da inação do governo de Abuja, controlado por islamitas desde 2015. Teoricamente, a Nigéria é um Estado laico, e sua Constituição permite que todo indivíduo pratique a religião que desejar. Hoje, o país está dividido basicamente entre muçulmanos (53,9%) e cristãos (45,9%).

O Bp. Nnamdi Anosike, pastor sênior da Royalties Chapel International, em Okota, denuncia: “O presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari, é muçulmano. Ele pouco ou nada faz para impedir a onda de violência contra a Igreja. O governo e algumas nações árabes estão apoiando e patrocinando o terrorismo com o intuito de destruir o cristianismo na Nigéria” Foto: Arquivo pessoal

Porém, politicamente, os muçulmanos das etnias hausa e fulani vem dominando as ações na Nigéria, o que explica, em parte, a falta de energia governamental na contenção da escalada dos ataques contra os cristãos. “O presidente da Nigéria, Muhammadu
Buhari, é muçulmano. Ele pouco ou nada faz para impedir a onda de violência contra a Igreja. O governo e algumas nações árabes estão apoiando e patrocinando o terrorismo com o intuito de destruir o cristianismo na Nigéria”, denuncia o Bp. Nnamdi Anosike, pastor sênior da Royalties Chapel International, em Okota, no estado de Lagos, no Sul do país. “A corrupção e a insegurança também atingiram alto nível no país. Ninguém se sente seguro, principalmente os cristãos. Viajar pelas estradas, de uma cidade para outra, tornou-se um pesadelo”, complementa Anosike.

Pr. Oluwaseun Adeloye, ministro auxiliar da Igreja Apostólica de Cristo em Ilesa, fez um apelo: “A Igreja brasileira pode ajudar, investindo na Nigéria e enviando missionários para auxiliar as congregações nigerianas na obra de evangelização” Foto: Arquivo pessoal

Embora a agressividade dos muçulmanos em relação aos cristãos tenha também motivações políticas e econômicas, o fator religioso é preponderante. De acordo com o bispo Anosike, nos últimos anos, o convívio entre adeptos das duas religiões tem feito muitos muçulmanos abandonarem a fé islâmica para se entregarem a Cristo. Ele afirma que a influência dos cristãos entre seus compatriotas e as grandes cruzadas evangelísticas realizadas por pregadores estrangeiros foram responsáveis por levar inúmeros islamitas a Cristo. “Isso motivou a perseguição aos cristãos e à Igreja. Os líderes muçulmanos decidiram tomar medidas drásticas para frear essa tendência”, informa Anosike, o qual lembra que, não por acaso, as cruzadas ao ar livre estão proibidas no Norte do país, onde os muçulmanos são maioria. Além disso, alguns estados do Norte da Nigéria incorporaram a sharia (sistema jurídico do Islã) às suas leis locais.

O presidente da Nigéria, Muhammadu Buhari: muçulmano, ele está no poder desde 2015 Foto: Wikimedia/Bayo Omoboriowo

Anosike destaca que a principal milícia muçulmana em atuação hoje na Nigéria, o Boko Haram, possui conexão com as principais organizações terroristas do mundo. “Eles foram responsáveis pelas grandes operações de sequestro ocorridas no país, incluindo as mais de 250 adolescentes de uma escola secundária do estado de Borno [no Nordeste] sequestradas em 2013.” Ainda de acordo com o líder, em 2019 esses mesmos homens sequestraram mais de 350 alunos de outra escola secundária. O bispo assinala que, nos últimos anos, surgiram vários grupos terroristas em território nigeriano os quais atuam mediante a conivência e o patrocínio do governo.

Ajuda necessária – Por causa da violência, poucos cristãos ainda se arriscam a pregar ou viver hoje em algumas regiões do Norte do país. Mas, por outro lado, a Igreja vem crescendo exponencialmente no Sul, onde a atuação dos terroristas é menos frequente e há muitas  conversões de islamitas a Jesus. É o que relata o Pr. Oluwaseun Adeloye, ministro auxiliar da Igreja Apostólica de Cristo em Ilesa, no estado de Osun, no Sudoeste nigeriano. “Cristãos e muçulmanos vivem pacificamente nos estados do Sul”, garante.

Porém, Adeloye reconhece que há muito a ser feito para que o Evangelho transforme a Nigéria. Ele lamenta que organizações internacionais e igrejas do exterior estejam fazendo pouco ou nada para ajudar as congregações locais no trabalho de evangelização. Para piorar, segundo o pregador, existe uma crise humanitária em curso: muitos foram obrigados a deixar casas e propriedades, com medo da violência, e agora vivem em campos de refugiados. “Todos os dias, várias pessoas, em especial as crianças, estão morrendo de fome. A Nigéria tem algumas igrejas grandes, mas elas não conseguem, sozinhas, atender às necessidades daqueles que foram afetados pelos ataques terroristas e pela péssima situação econômica do país”, explica. O ministro aproveitou a oportunidade para fazer um apelo: “A Igreja brasileira pode ajudar, investindo na Nigéria e enviando missionários para auxiliar as congregações nigerianas na obra de evangelização. Pode também enviar materiais cristãos, além de capacitar os líderes nigerianos para desenvolver a obra missionária e evangelística.”

Escalada de violência

O violento ataque que matou 40 indivíduos na igreja em Owo, e o sequestro do bispo metodista Samuel Kanu, em junho, são apenas a ponta do iceberg da escalada de violência contra os cristãos na Nigéria. Em maio, ao todo 20 cristãos foram executados a sangue frio por integrantes do ISWAP. A ação foi filmada, e o vídeo teve ampla divulgação nas redes sociais. No mesmo mês, o Rev. Matthew Moses, líder de uma igreja evangélica na cidade-estado de Katsina, no Norte do país, foi sequestrado. Uma fonte local declarou ao portal Morning Star News que o sequestro de líderes cristãos se tornou um crime comum em alguns estados nortistas.

Entretanto, um dos casos mais impactantes de violência ocorridos em maio de 2022 foi o assassinato da estudante Deborah Samuel Yakubu, 25 anos. Aluna da Universidade Shehu Shagari, em Sokoto, no Norte, ela foi retirada à força de seu alojamento, espancada e apedrejada até a morte por colegas muçulmanos. Não satisfeitos com o homicídio, os autores do crime ainda atearam fogo ao corpo da jovem, que liderava a fraternidade cristã da instituição. Tamanha brutalidade teria sido motivada por algumas publicações de cunho religioso feitas por ela em um grupo de WhatsApp. Até o fechamento desta edição, as autoridades haviam detido apenas dois suspeitos de envolvimento no delito.

(Fontes: Missão Portas Abertas, The Guardian, Christian Today e Morning Star News)


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