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Entrevista – 293
22/12/2023
Vida Cristã
30/01/2024
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Vida Cristã
30/01/2024
Foto: Pexels / lara Jameson

Cuidando da criação

Igrejas também se engajam na tarefa de conscientizar os cristãos sobre os problemas ambientais

Por Patrícia Scott*

A degradação ambiental do planeta tem atingido níveis alarmantes: queimadas nas florestas, desmatamento, emissão excessiva de gases poluentes, esgoto sem tratamento derramado nos rios e nas praias, lixo e resíduos químicos e sólidos descartados sem qualquer tipo de cuidado. Segundo o último relatório de Estatísticas Mundiais de Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado em maio, cerca de 99% da população mundial respira níveis insalubres de material particulado fino [ou MP2.5, presente em alguns aerossóis, de tamanho microscópico, que, quando liberado no ar, entra facilmente nas vias respiratórias, causando problemas como asma, pneumonia e câncer de pulmão] e dióxido de nitrogênio, um poluente produzido principalmente pela queima de combustíveis fósseis. De acordo com o documento da OMS, os habitantes de países de baixa e média renda são os mais expostos à destruição do meio ambiente.

O geógrafo Billyshelby Fequis, líder de um programa ambiental da Comunidade Batista Vida, em Rio Branco (AC), diz que é feito um planejamento semestral das ações a serem desenvolvidas para que todos possam participar
Foto: Arquivo pessoal

Outro estudo, realizado pela Associação Internacional de Resíduos Sólidos (ISWA, a sigla em inglês), organização sem fins lucrativos, prevê que a geração mundial de lixo pode chegar a 3,4 bilhões de toneladas por ano até 2050. Em 2016, foram 2 bilhões de toneladas. Diante de níveis tão apavorantes de degradação ambiental, especialistas afirmam que os governos precisam tomar medidas urgentes, e em larga escala, para minimizar os efeitos danosos da ação humana sobre o meio ambiente.

Entretanto, os estudiosos destacam que pequenas iniciativas do cidadão comum podem ter impactos significativos na qualidade de vida no planeta. Porém, argumentam eles, para que isso aconteça, é necessário um trabalho de conscientização – algo que muitas igrejas evangélicas têm realizado, como a Comunidade Batista Vida, no bairro Distrito Industrial, em Rio Branco (AC). Localizada no coração da Amazônia, essa comunidade cristã lançou, há mais de um ano, o programa Rede de Ações Ambientais. Desde então, não há mais copos descartáveis na congregação: cada membro leva seu copo, sua caneca ou sua garrafa de casa para beber água. “Fazemos também um planejamento semestral das ações que iremos desenvolver, de modo que todos possam participar”, informa o geógrafo Billyshelby Fequis, mestre em Geografia e líder do projeto.

O missionário Bruno Sales Landim, líder de uma igreja em Batayporã (MS), cujo templo foi construído com o aproveitamento de materiais naturais: estrutura feita de bambu, e geração de energia elétrica por meio de placas coletoras de radiação solar
Foto: Arquivo pessoal

Segundo ele, a igreja também organiza o Green Day, um culto com abordagem ambiental e fundamentado na Bíblia, e, nos encontros dos cristãos empreendedores, o tema sustentabilidade é sempre abordado. “Falamos como eles podem ajudar na preservação ambiental por meio de ações nos negócios que desenvolvem”, afirma o líder. Outra iniciativa da Comunidade Batista Vida é a entrega de uma muda de árvore para cada novo convertido, a fim de que ela seja plantada na cidade. “Já foram entregues 283 mudas até o momento. Nós os incentivamos não somente a plantar, mas também a cuidar e acompanhar o seu desenvolvimento.”

Além dessas ações, a congregação desenvolve, em um terreno próprio, um sistema agroflorestal que, futuramente, terá árvores frutíferas e florestais, horta e parquinho para as crianças. “Será um local de convivência para os membros e também para a população do entorno”, afirma o especialista, sinalizando que a igreja deseja construir um ecoponto para coletar lixo reciclável dos membros e da vizinhança.

Missionário Phelipe Marques Reis, membro do coletivo cristão Movimento Renovar Nosso Mundo, que busca engajar as igrejas do Amazonas no combate à degradação do meio ambiente
Foto: Arquivo pessoal

Algumas comunidades eclesiásticas são tão engajadas na causa ambiental que até mesmo a construção do templo se deu com o aproveitamento de materiais naturais. É o caso da Igreja da Ilha, em Batayporã (MS), cuja estrutura é feita de bambu, e a geração de energia elétrica se dá por meio de placas coletoras de radiação solar. Além disso, todos os rejeitos produzidos pela congregação são separados corretamente para o devido descarte. “Fazemos um trabalho de conscientização ambiental sempre alinhado com a Palavra de Deus”, afirma o missionário Bruno Sales Landim, líder da igreja. Ele revela que pretende iniciar um treinamento, com foco no meio ambiente, para obreiros que queiram atuar na cidade, pregando o Evangelho e falando da necessidade de preservar o ecossistema da região, conhecida como Vale das Águas. “Falaremos, por exemplo, do uso de materiais alternativos, de tecnologia social e de ecoteologia.” [Leia, no final desta reportagem, o quadro O clamor do planeta]

Dálethe Melissa Bezerra Florêncio, do movimento Nós na Criação, em Parintins (AM), enfatiza: “As questões ambientais precisam ser tratadas com o mesmo protagonismo das outras causas defendidas pelas comunidades
de fé”

Foto: Arquivo pessoal

Preservação necessária – No Amazonas, a Primeira Igreja Batista de Parintins realiza, com frequência, uma série de atividades para mobilizar e conscientizar os membros quanto à responsabilidade ambiental. A limpeza da orla da cidade – situada no extremo leste do estado, às margens do rio Amazonas, distante 372km da capital, Manaus – foi uma dessas ações. “Todos colaboraram”, afirma o missionário Phelipe Marques Reis, membro do Movimento Renovar Nosso Mundo, um coletivo global de cristãos que busca engajar as igrejas locais no combate à degradação do meio ambiente.

Sob a mesma perspectiva de conscientização, as crianças são ensinadas, nas aulas da escola bíblica, sobre a importância de amar a Deus e cuidar da Sua criação. “É importante que os pequenos tenham esse aprendizado. Então, procuramos realizar iniciativas voltadas para eles”, informa Reis, recordando que a igreja já promoveu também a Primeira Jornada Mordomia da Criação. Com foco na juventude, a ação orientou rapazes e moças quanto às práticas de preservação ambiental e os ensinamentos da Palavra de Deus a respeito do assunto.

O Pr. Ednilson Lima alerta: “Se o planeta pertence ao homem, logo o ser humano precisa zelar por ele, gerando benefícios coletivos. Deus ordenou que houvesse o cuidado com o planeta”
Foto: Arquivo Graça / Rodrigo Di Castro

Segundo o missionário, a comunidade cristã está desenvolvendo o espaço Bom Samaritano, voltado para o plantio de mudas de espécies nativas da região.
A fim de levantar recursos para o projeto, uma horta foi criada. “O objetivo é reinvestir nesse trabalho”, explica ele, esclarecendo que a liderança da igreja vem pedindo aos membros da congregação sugestões para a ampliação das iniciativas de preservação ambiental.

A preocupação da igreja de Parintins é compartilhada pelo movimento Nós na Criação, o qual busca ensinar, apoiar e impulsionar igrejas evangélicas brasileiras acerca da necessidade de se fazer algo pelo meio ambiente. “As questões ambientais precisam ser tratadas com o mesmo protagonismo das outras causas defendidas pelas comunidades de fé”, enfatiza Dálethe Melissa Bezerra Florêncio, secretária-executiva da organização. De acordo com ela, é importante fundar um ministério voltado para a questão ambiental em cada igreja, da mesma maneira que essas congregações criam departamentos de louvor, ensino, evangelismo, ação social e missões.

Ela lembra que o homem é parte da criação e precisa cuidar do planeta em que vive. “Deus criou primeiro todos os outros seres para depois formar o ser humano. Ele vivia em harmonia com a natureza”, recorda-se a secretária, assinalando que existe uma interdependência entre o ser humano e o meio ambiente. “É uma troca. Enquanto o homem cuida, a natureza oferece os recursos naturais”, explica Dálethe, destacando que não podemos pensar somente nos recursos naturais que nos interessam e descartar o restante. “Tudo o que foi criado por Deus tem um propósito que precisa ser seguido”, adverte.

O Pr. Denilson Silva lembra que as Sagradas Escrituras são o manual de fé do cristão: “O Corpo de Cristo deve seguir todos os mandamentos bíblicos, inclusive cuidar do meio ambiente”
Foto: Arquivo pessoal

Ordenança do Senhor – O Pr. Ednilson Lima, líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), salienta que, de acordo com a Palavra, é pecado negligenciar a criação. “O significado do termo pecado é errar o alvo. O Senhor determinou que o homem cuidasse da Terra [Gn 2.15] e, portanto, se ele não o faz, está em desobediência”, esclarece Lima, acrescentando que a responsabilidade ambiental é de todos, mas é ainda maior para o cristão por se tratar de uma ordenança do Altíssimo.

O ministro cita o texto do Salmo 115.16 (Os céus são os céus do SENHOR; mas a terra, deu-a ele aos filhos dos homens) para embasar seu ponto de vista. “Se o planeta pertence ao homem, logo o ser humano precisa zelar por ele, gerando benefícios coletivos. Deus ordenou que houvesse o cuidado com o planeta exatamente para assegurar que nós utilizássemos os recursos naturais de modo a garantir a nossa própria sobrevivência, de maneira saudável.”

Por sua vez, o Pr. Denilson Silva, líder estadual da IIGD no Acre, lembra que as Sagradas Escrituras são o manual de fé do cristão. “O Corpo de Cristo deve seguir todos os mandamentos bíblicos, inclusive cuidar do meio ambiente”, assinala o pregador, ressaltando que cabe à Igreja seguir essa determinação do Senhor, a qual proporciona muitos benefícios individuais e coletivos. “Para que o homem tenha realmente uma vida de qualidade, é necessário que a natureza esteja em equilíbrio.”

O engenheiro florestal Carlos Vicente afirma que o engajamento das comunidades de fé é imprescindível na luta pela preservação do meio ambiente
Foto: Arquivo pessoal

Na opinião do engenheiro florestal Carlos Vicente, esse engajamento das comunidades de fé é imprescindível na luta pela preservação do meio ambiente. Isso porque, segundo ele, as igrejas são multiplicadoras de informações e, por terem acesso aos mais variados públicos e estarem presentes em diferentes localidades, elas atingem as diversas camadas sociais e faixas etárias.

Entretanto, de acordo com Vicente, para serem efetivas nesse trabalho “educativo”, as lideranças evangélicas precisam estar capacitadas. “Devem buscar conhecimento com especialistas para que as informações reunidas sejam confiáveis. Depois, precisam compartilhá-las na igreja local”, recomenda o engenheiro e coordenador nacional da Iniciativa Inter-Religiosa Pelas Florestas Tropicais (IRI), um coletivo criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2018.

A IRI – a qual integra vários grupos religiosos que defendem a preservação do equilíbrio climático, a conservação das matas, o uso sustentável das florestas e a proteção dos povos indígenas e das comunidades locais – faz a conexão entre líderes religiosos e estudiosos do assunto que atuam em universidades conceituadas. “É imprescindível compreender também que, do ponto de vista da ciência, o nível de degradação da Terra está muito elevado”, destaca Vicente, esclarecendo que a destruição ambiental gera consequências nefastas principalmente para a população mais pobre. “Consumo de água contaminada, doenças, improdutividade agrícola para subsistência e atividade pesqueira comprometida”, enumera, chamando a atenção para o fato de que “a mobilização efetiva pela causa do meio ambiente é urgente” e conclamando os cristãos para cumprir a ordenança do Senhor de cuidar de Sua criação. “Não existe vida plena, mencionada na Bíblia, sem que a natureza seja preservada”, conclui o engenheiro.

O clamor do planeta

Apesar de não existir uma definição clara da ecoteologia, estudiosos do tema dizem se tratar de uma corrente teológica que denuncia o consumismo desenfreado como uma ameaça ao futuro da humanidade e do planeta, resgata elementos fundamentais da doutrina cristã e lembra que o ser humano, constituído do barro da terra e do sopro criador de Deus (Gn 2.7), é chamado a cuidar do jardim da criação (Gn 2.15) e a administrar os bens da Terra (Gn 1.26-29).

Veja alguns pressupostos básicos da ecoteologia:

– O princípio do valor intrínseco do universo, da Terra e de todos os seus componentes.

– O princípio da interconexão, já que a Terra é uma comunidade de seres vivos mutuamente dependentes entre si para a vida e a sobrevivência.

– O princípio da capacidade terrena de “levantar a voz” na celebração e contra a injustiça a ela cometida.

– O princípio do propósito, em que todos os componentes da criação têm um objetivo no design do universo.

– O princípio da custódia mútua, em que o guardião da criação, o homem, deve atuar como parceiro da natureza.

(*Colaboraram Cleber Nadalutti e Élidi Miranda, com informações de The Gospel Coalition e do blog Ecologia e Fé)


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