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01/03/2020
Telescópio – 248
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Comportamento

Em meio à dor

Oferecer apoio emocional e espiritual a quem sofre é uma das mais importantes tarefas da Igreja

Por Evandro Teixeira

Certamente, as grandes tragédias abalam as pessoas. Em decorrência de eventos assim, elas precisarão de amparo social, psicológico e espiritual. Durante esses episódios tristes, algumas comunidades evangélicas servem de apoio material e espiritual. Nessas horas, grupos de oração intercedem pelas vítimas e por seus parentes, e diversos cristãos, com formação acadêmica, se oferecem para prestar solidariedade e dar aconselhamento.

No Brasil, citando um exemplo que repercutiu internacionalmente, esse tipo de trabalho da Igreja houve em janeiro de 2019, devido ao rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte (MG). Solidária à dor das vítimas, além de ajudar com donativos, gente de diferentes regiões enviavam mensagens de esperança e faziam orações.

O psicoterapeuta Ageu Heringer Lisboa, fundador do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), esteve presente na região daquela cidade mineira, acompanhou o resgate de sobreviventes e ajudou a capacitar voluntários dispostos a amparar emocionalmente os afetados. Segundo ele, a reação de quem recebe auxílio em uma situação dessa é sempre positiva. “Uma oração e um ato de afeto quebram barreiras e espantam o medo, abrindo espaço para falas e alívio de sintomas”, comenta.

O psicoterapeuta Ageu Heringer Lisboa comenta: “Uma oração e um ato de afeto quebram barreiras e espantam o medo, abrindo espaço para falas e alívio de sintomas” Foto: Reprodução

Porém, mesmo havendo boa intenção em oferecer assistência, observa Heringer, é preciso cuidar de determinadas questões antes de prestar atendimento aos sobreviventes de tragédias. Para ele, por estarem traumatizados – física e emocionalmente –, as vítimas terão dificuldade de assimilar o que lhes aconteceu, por isso necessitam ao seu lado de pessoas éticas, boas ouvintes e não muito falantes. Isso sucede porque, lembra ele, cada evento traumático coletivo envolve danos comuns, como mudança, ruína econômica e quebra de rotina, entre outros. “Esse cenário exige um enfrentamento especializado porque indivíduos, famílias e comunidade carecerão de cuidados emocionais imediatos”, observa o psicoterapeuta, destacando ser fundamental as igrejas também buscarem a capacitação de voluntários para cooperarem nessa obra.

Escutar e acolher – A psicóloga Sara Cianelli dos Anjos Bittencourt, mestre em Psicologia Clínica, a qual já fez atendimentos em emergências e desastres, fala a respeito do transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Ela explica que o TEPT é caracterizado por um conjunto de sinais e sintomas físicos, psíquicos e emocionais. “As lembranças do acontecimento se misturam com alucinações, como se a pessoa estivesse vivenciando tudo de novo”, explica ela, assinalando que, quando há apoio emocional e suporte social nos momentos trágicos, a chance de haver o desenvolvimento de uma patologia posteriormente é menor.

No entanto, ela ressalta que, antes de oferecer qualquer ajuda, deve-se observar como a vítima se encontra. Além de reforçar a importância de escutar e acolher, é essencial respeitar a crença do outro. “Se houver um pedido de ajuda espiritual, devemos nos concentrar no suporte sem fazer muitos questionamentos.”

A relevância desse socorro também é enfatizada pelo Pr. Fábio Fonseca do Nascimento, da Igreja Metodista em Santa Cruz, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ). “Quando alguém se aproxima com uma palavra amiga ou se apresenta disposta a ouvir, por si só já está agindo como curadora”, entende Nascimento, mestrando em Ciências da Religião. O pastor frisa que o espiritual e o emocional caminham juntos, sendo fundamentais para proporcionar conforto a todo ser humano.

Na opinião de Fábio Nascimento, a ação da Igreja deve envolver o cuidado com o outro não apenas depois de grandes tragédias, mas também no dia a dia. Ele acredita que as comunidades cristãs têm o amor de Deus em seu DNA e precisam expressá-lo tanto entre os membros da própria comunidade quanto às pessoas à sua volta. Nascimento destaca que tal responsabilidade se materializa na tarefa de acompanhar indivíduos em sofrimento, visando renovar neles a esperança. “A partir da dimensão do cuidado, que envolve o bem-estar físico, mental, social e espiritual, a atuação da Igreja é vital”, comenta, citando as palavras do apóstolo Paulo registradas em sua carta aos gálatas: Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo (Gl 6.2).

Tapando a brecha” – A oração, por sua vez, é um elemento essencial das ações cristãs, pontua o Pr. Narciso Vaneli, líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Governador Valadares (MG). Ele defende que orar deve ser uma prática constante e lembra, citando a carta de Tiago, que, sobretudo quando realizada de forma intercessória, a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos (Tg 5.16b). “Individual ou coletivamente, o Senhor procura intercessores que estejam tapando a brecha”, acrescenta, referindo-se ao fato de que os cristãos precisam estar na presença de Deus, buscando intimidade com Ele.

Além disso, no entendimento do líder, a Igreja deve investir na preparação de pessoas que possam oferecer esse aconselhamento, prática fundamental para a recuperação daqueles que sofrem. Vaneli pensa ser interessante que os envolvidos nesses eventos se consagrem, ouvindo a direção de Deus para saberem até onde devem agir. “Caso percebam que o problema está além da capacidade deles, a liderança tem de ser chamada a fim de que seja oferecido o acompanhamento necessário para cada caso”, orienta o pastor, sublinhando que, acima de tudo, o amor deve ser a principal motivação.

Que o diga o Pr. Welfany Nolasco Rodrigues, da Igreja Metodista em Cataguases (MG), o qual foi despertado para a dor alheia por meio de algo que lhe sucedeu. Ele relata que esteve internado no hospital sete vezes até conseguir operar a vesícula. “Deus usou várias pessoas para me trazer apoio emocional e espiritual.” Aquela experiência o estimulou a desenvolver o trabalho que executa hoje de visitação hospitalar, em que, segundo ele, a receptividade em relação ao amor do Altíssimo é sempre boa. “Já presenciei curas milagrosas e também tive de consolar os que choravam a morte de um ente querido.”

O pastor reforça a ideia de que a Igreja deve estar preparada para acolher quem sofre. “Ao receber uma palavra amiga, um abraço e, principalmente, uma oração, a pessoa que estava desnorteada se sente fortalecida.” Rodrigues acrescenta que, em um momento de dor, é difícil pensar e até mesmo orar. E, por isso, a intercessão se torna indispensável. “Quando oramos pelo próximo, somos impulsionados a falar-lhe a respeito do Senhor”, destaca o pregador, certo de que o Todo-Poderoso conhece todos os necessitados e capacita Seus servos a fim de ajudá-los.


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