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01/05/2020
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Entrevista

Pela “minoria das minorias”

Pastora e líder do MEGB fala sobre sua luta em defesa dos que desejam deixar a homossexualidade

Por Marcelo Santos

“Nos anos de 1980, vivenciei um estilo de vida gay intenso nos guetos paulistanos”, informa a Pra. Miriam Fróes, 56 anos. Ela começou a trilhar esse caminho após sofrer abusos sexuais na infância e na adolescência, história contada em um livro a ser publicado em breve. Foram 20 anos na homossexualidade, dos 13 aos 33 anos. Transformada pelo Evangelho e, hoje, pastora na Igreja Manancial Ministério Palavra Viva, na cidade de Lins (SP), no interior do estado, Miriam batalha pelo direito daqueles que, assim como aconteceu com ela, desejam deixar a homossexualidade.


Fundadora do Movimento de Ex-Gays do Brasil (MEGB), a líder ficou conhecida nacionalmente depois de ter sido recebida pela ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, no segundo semestre do ano passado. Graduada em Gestão de Logística pela Universidade Metodista de São Paulo e em Teologia pelo Instituto Teológico Quadrangular, a pastora também tem especialização em Terapia de Família na Visão Sistêmica. Como ativista, pretende dar visibilidade ao que chama de “minoria das minorias”. “É importante dizer que nós, ex-gays, existimos”, evidencia Fróes nesta entrevista à Graça/Show da Fé.

O que levou à criação do MEGB?

Inconformada com os avanços do movimento LGBTQ+ durante os últimos 20 anos, observei que, de 1999 até 2019, a nossa voz ficou sem expressão no Brasil. Por um pensamento maciço, a sociedade foi convencida da impossibilidade de renunciar à homossexualidade, por considerá-la inata. Era preciso fazer algo para garantir nossa liberdade religiosa. Defendemos que essa saída sucede pela via espiritual, quando uma pessoa se converte a Cristo. Logo, ela não sente desejo de continuar na mesma condição de antes.

A criminalização da homotransfobia foi imposta à sociedade brasileira pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em junho do ano passado, à revelia do Poder Legislativo. De que forma isso interferiu no seu trabalho e ministério?

Até agora em nada, mas não significa que estamos em uma zona de conforto. Há trechos na lei que dizem sobre a liberdade de expressão religiosa nos templos. Porém, se alguém se sentir ofendido me ouvindo, poderá me acusar de homofobia. Isso torna vulnerável nossa defesa da possibilidade de pessoas deixarem a homossexualidade ou de a considerarem um pecado.

Qual é a importância de o MEGB ter sido recebido e reconhecido pela ministra Damares Alves, no encontro ocorrido em 5 de agosto do ano passado?

Tivemos a oportunidade de nos expressar, reivindicando nossa condição de deixar a homossexualidade. Esse fato fez a sociedade voltar a olhar nossa luta e a nos respeitar mais.

Quais movimentos, no Brasil e fora do país, inspiraram a criação do MEGB?

É uma tendência atual. No passado, a saída da homossexualidade se dava mais pelos ministérios de ajuda. Esses ainda existem e são muito bons no que fazem. Com os avanços da militância LGBTQ+ no mundo, os movimentos de ex-gays também estão se espalhando. Nos Estados Unidos, temos o Freedom March e o Changed. Na Itália, o Pure Amore. No Peru, os ex-gays vão às ruas com cartazes, anunciando publicamente sua saída da homossexualidade. Acredito que, aqui no Brasil, o MEGB quer ser essa voz de quem deseja ser reconhecido por essa condição.

O MEGB é uma iniciativa recente. No entanto, seu trabalho com os que desejam deixar a homossexualidade teve início há 20 anos. Como isso começou?

Sou um dos membros fundadores do Exodus Brasil [organização cristã não denominacional voltada à promoção de valores bíblicos] e fiz parte da primeira junta diretiva, permanecendo nela de 2000 a 2008. Atualmente, continuo filiada a eles com parcerias na mesma visão de ajuda às pessoas. Em 1998, conheci a organização não governamental Movimento pela Sexualidade Sadia (Moses), e a luta dessa ONG é uma inspiração para o MEGB hoje.

Como a Resolução 01/1990 do Conselho Federal de Psicologia, que impede os psicólogos de oferecer auxílio aos interessados em deixar a homossexualidade, impactou os ministérios que trabalham nessa área?

Afetou-nos muito, porque a sociedade não sabe fazer a diferença entre a luta dos profissionais da Psicologia e a liberdade de expressão religiosa. Colocam todos no mesmo caldeirão. Isso ficou nítido quando fomos ao Ministério dos Direitos Humanos. A imprensa noticiou que nossa ida ali estava relacionada à causa dos psicólogos. Porém, a luta deles é totalmente antagônica à nossa. Eles querem ajudar pessoas egodistônicas, problema mencionado na Classificação Internacional de Doenças (CID-10). A causa da Psicologia não é religiosa, e nada endossa no campo da espiritualidade. Sendo assim, nossa luta vai na contramão: queremos ter o direito de deixar a homossexualidade, reconhecendo isso como algo possível no processo de transformação espiritual. O ponto em comum é que todos, tanto os psicólogos conservadores ou cristãos quanto nós, defendem a possibilidade de saída da homossexualidade. Eles alegam que, pelas ferramentas da Psicologia, podem tornar essa escolha possível. Nós dizemos que abandonar tal prática se dá pela fé e entrega a um novo estilo de vida em Cristo.

Miriam Fróes
Ex-gay, pastora, teóloga e especialista em Terapia de Família na Visão Sistêmica

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