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Notícias avassaladoras

Especialistas explicam por que o excesso de informações pode prejudicar a saúde física e mental

Por Ana Cleide Pacheco

As novas tecnologias tornaram o acesso à informação ainda mais veloz. As gerações passadas eram obrigadas a aguardar até o horário dos programas noticiosos da TV e do rádio, ou esperar pela publicação dos jornais impressos, a fim de obter as últimas notícias. Hoje, com a disseminação da internet, as novidades chegam ao público em tempo real. As notícias trafegam, com velocidade assustadora, por sites de informação e pelas redes sociais. Entretanto, o acesso rápido e fácil a um número tão grande de informações tem cobrado um preço alto da saúde física e mental do homem. Especialistas afirmam que a superexposição a notícias sobre violência, desastres e calamidades – como é o caso da pandemia da covid-19 – pode provocar ansiedade, estresse e outras doenças.

O doutor em Psicologia Steven Stone, que cunhou a expressão transtorno de estresse de headline (manchete, em inglês): ele garante que a condição é responsável por muitos casos de insônia, falta de energia, raiva e irritabilidade Foto: Reprodução

O doutor em Psicologia Steven Stone cunhou a expressão transtorno de estresse de headline (manchete). Embora ainda não seja oficialmente reconhecida como uma doença, ele garante que a condição é responsável por muitos casos de insônia, falta de energia, raiva e irritabilidade. Segundo ele, os que padecem desse mal também podem apresentar outros sintomas de estresse, como dores de estômago, bruxismo (ranger dos dentes), dores de cabeça e ataques de pânico, além de sentimentos de tristeza e depressão. É preciso perceber se seus pensamentos sobre as manchetes são intrusivos, ou seja, se você pensa sobre elas repetidamente ao longo do dia e, às vezes, tem problemas para dormir, alerta Stone, de acordo com artigo publicado no portal de notícias do jornal norte-americano The Washington Post. De acordo com esse mesmo texto, pesquisas apontam que notícias negativas são 60% mais acessadas pelo público do que aquelas de caráter positivo.

A psicóloga Roxane Cohen Silver, que, junto com sua colega Rebecca J. Thompson, é autora de uma pesquisa feita na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, sobre o uso de redes sociais e de smartphones e a obsessão por notícias trágicas Foto: Divulgação

Além disso, um estudo realizado pelas psicólogas Rebecca J. Thompson e Roxane Cohen Silver – pesquisadoras da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos – demonstrouque o uso de redes sociais e de smartphones contribui para que as pessoas acompanhem notícias trágicas de forma ainda mais obsessiva, principalmente por meio de vídeos e imagens que são retransmitidos à exaustão.

Contudo, se por um lado notícias que enfatizam aspectos ruins da existência humana geram ansiedade e estresse, por outro, aquelas de caráter positivo evocam sensações de bem-estar e ajudam a promover saúde mental e física. Histórias divertidas e edificantes tendem a impulsionar o humor para cima, informou a pesquisadora norte-americana Jodie Jackson em entrevista ao portal do diário The Washington Post. Autora do livro You are what you read (em tradução livre: Você é o que lê), Jackson criou o conceito do chamado jornalismo construtivo, defendendo a tese de que a ênfase da notícia não deveria estar no negativo, mas no desenvolvimento de soluções para os problemas apresentados. Isso nos faz sentir mais empoderados, pois nos dá três ingredientes psicológicos que são chave: otimismo, esperança e autorrepresentação.

A pesquisadora norte-americana Jodie Jackson e a capa de seu livro You are what you read (em tradução livre: Você é o que lê): para ela, a ênfase da notícia não deveria estar no negativo Foto: Divulgação

Mecanismos de enfrentamento” – Porém, enquanto o jornalismo construtivo não se torna prática comum na imprensa, é necessário saber como lidar com as notícias ruins. Para tanto, entender o que acontece quando alguém entra em contato com informações desagradáveis é fundamental. É o que explica o médico e professor universitário José Genilson Alves Ribeiro, o qual lembra que emoções e sentimentos têm influência direta sobre o corpo e a saúde física. “Quando consumimos notícias alarmistas, como crimes, tragédias e discussões políticas, liberamos cortisol, adrenalina e noradrenalina, hormônios que causam estresse. E, de um modo geral, as pessoas adoecem quando ficam muito estressadas”, explica Ribeiro, responsável pela implementação da disciplina Medicina e Espiritualidade, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ).

O médico e professor universitário José Genilson Alves Ribeiro lembra: “Quando consumimos notícias alarmistas, como crimes, tragédias e discussões políticas, liberamos cortisol, adrenalina e noradrenalina, hormônios que causam estresse” Foto: Arquivo pessoal

Por outro lado, segundo o professor, aquelas pessoas que se alimentam de boas notícias, clinicamente falando, são mais otimistas, resilientes e sadias mental e fisicamente. “Elas não estão fora da realidade, mas conseguem lidar melhor com notícias ruins. Tudo porque têm mecanismos de enfrentamento intrínsecos, que as ajudam a suportar as dificuldades. De fato, notícias boas diminuem o estresse, aumentam a imunidade e geram bons pensamentos”, explica o médico, o qual ressalta a importância do crer. “Aqueles que não professam a fé, não oram, não buscam o Criador, são estressados e muito propensos a desenvolver algum tipo de enfermidade, como diabetes, sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) ou infarto, entre outras doenças.” Para Ribeiro, indivíduos que só consomem conteúdos negativos certamente adoecerão. “É importante entender que a base de tudo está no estresse e que notícias ruins levam ao adoecimento. Por isso, o ideal é praticar a fé e se esquivar dessas coisas que fazem mal.”

A anestesiologista e acupunturista Leila Maria Chaves Ribeiro: “É necessário se preservar, proteger nossa mente, buscar tranquilidade e selecionar as notícias que nos chegam por meio da mídia convencional ou das redes sociais” Foto: Arquivo Graça / Solmar Garcia

Além das doenças citadas, a tensão provocada pelo contato permanente com notícias sobre crimes, desastres, pestilência e mortes podem ser responsáveis pelo desenvolvimento de problemas gastrointestinais, dermatológicos e respiratórios. “Há uma corrente médica que relaciona a redução da imunidade com o estresse, o aumento de doenças infecciosas e o câncer. Vivemos em uma sociedade bombardeada pela mídia, com notícias, na maioria das vezes, sensacionalistas”, analisa a anestesiologista e acupunturista Leila Maria Chaves Ribeiro. “É necessário se preservar, proteger nossa mente, buscar tranquilidade e selecionar as notícias que nos chegam por meio da mídia convencional ou das redes sociais.”

A psicanalista e pastora Isnar Cristina e Silva Borges ressalta a importância de buscar informações que geram alegria, esperança e motivação Foto: Arquivo pessoal

Hábitos saudáveis – A psicanalista e pastora Isnar Cristina e Silva Borges, 55 anos, concorda com a anestesiologista. “Todos gostam de receber e de dar boas notícias, pois nos sentimos bem e nosso corpo reage a isso, liberando serotonina, dopamina, endorfina, ocitocina, hormônios essenciais para o bem-estar”, destaca Borges, a qual ressalta a importância de buscar informações que geram alegria, esperança e motivação. “Tudo isso, com certeza, evita ou alivia dores físicas e psíquicas e nos ajuda a seguir sem ansiedade, o que é muito bom”, atesta.

O pastor e psicólogo clínico Marcos Vinicius Freire de Lima diz que a massificação de notícias ruins e sensacionalistas colabora com o surgimento de casos de transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade generalizada, pânico e outros problemas Foto: Arquivo pessoal

De acordo com o pastor e psicólogo clínico Marcos Vinicius Freire de Lima, 56 anos, a massificação de notícias ruins e sensacionalistas colabora com o surgimento de casos de transtorno de estresse pós-traumático, ansiedade generalizada, pânico e outros problemas. Por outro lado, ele enfatiza que a manutenção de hábitos saudáveis contribui muito na escalada do otimismo. “Ao praticar exercícios físicos regulares, o corpo libera algumas substâncias químicas que trazem sensação de bem-estar, melhorando o humor e diminuindo a ansiedade”, destaca Lima, acrescentando que ter boas noites de sono e manter uma alimentação equilibrada também pode tornar a pessoa mais otimista. “Com o consumo de notícias não é diferente. Precisamos selecionar bem o que daremos ao nosso cérebro como alimento”, compara.

O psicanalista Cleubecyr Oliveira Barbosa lembra que os seres humanos são corpo, alma e espírito e essencialmente relacionais: “Se construímos laços com o que é positivo, todo o nosso sistema responde como consequência” Foto: Arquivo pessoal

O psicanalista Cleubecyr Oliveira Barbosa, 33 anos, lembra que os seres humanos são corpo, alma e espírito e essencialmente relacionais. Por isso, explica ele, têm a capacidade de se conectarem a tudo com o que têm contato. “Mesmo quando não percebemos essa relação, somos diretamente impactados por seus efeitos. Então, se construímos laços com o que é positivo, todo o nosso sistema responde como consequência.” Para Barbosa, a chave para se livrar do poder avassalador das más notícias está na orientação dada pelo apóstolo Paulo aos filipenses: Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai (Fp 4.8). “É a partir dessa orientação que devemos escolher o que consumir enquanto informação e conteúdo.”

O Pr. Rodrigo Carolino lembra que o remédio contra a influência deletéria das notícias ruins é a Palavra de Deus: “Existe um remédio muito eficaz para combater essa problemática. Pena que muitos não o usam. Trata-se da prática de um devocional diário, com leitura bíblica Foto: Arquivo pessoal

Melancólicos e tristes” – O Pr. Rodrigo Carolino ressalta que tudo em excesso pode trazer algum dano e afirma que, por essa razão, ter equilíbrio é fundamental. Para ele, o remédio contra a influência deletéria das notícias ruins é a Palavra de Deus, as Boas-Novas do Evangelho de Cristo. “Existe um remédio muito eficaz para combater essa problemática. Pena que muitos não o usam. Trata-se da prática de um devocional diário, com leitura bíblica e oração. Quando investimos mais tempo com o Senhor, temos equilíbrio para resolver qualquer problema”, informa Carolino, pastor auxiliar na Igreja Batista Nova Sião, no Cachambi, zona norte do Rio de Janeiro (RJ). [Leia, no final desta reportagem, o quadro Nada a temer]

O Pr. Alexandre Flores Coutinho ressalta a importância do estudo das Escrituras Sagradas como forma de proteger a saúde mental contra as informações que não fazem bem Foto: Arquivo pessoal

O Pr. Alexandre Flores Coutinho, 46 anos, que lidera a Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Vila São Luiz, em Duque de Caxias (RJ), também ressalta a importância do estudo das Escrituras Sagradas como forma de proteger a saúde mental contra as informações que não fazem bem. “Todos estamos expostos a notícias ruins, mas alguns são muito abertos e até receptivos a elas. Os que se cercam de matérias trágicas, sensacionalistas e negativas tendem a ser mais pessimistas, derrotistas, melancólicos e tristes”, informa o pregador, assinalando que, não raramente, sua Igreja recebe pessoas que se sentem sobrecarregadas por tantas notícias ruins do dia a dia. “No entanto, a vida delas é transformada por meio da leitura e meditação da Bíblia e das palavras de vida que recebem. Porque, em Jesus, nós encontramos vida e paz. Afinal, Ele é a nossa Boa Notícia.”

Nada a temer

Foto: Paul Garaizar / Unsplash

A Bíblia apresenta diversas passagens que apontam para a preocupação do Senhor com a saúde emocional de Seus filhos, mesmo quando eles enfrentam as maiores adversidades. A chave para enfrentar as más notícias está em uma fé pura e genuína, depositada exclusivamente no Senhor e em Sua Palavra. Por isso, o autor do Salmo 112 declara: Bem-aventurado o homem que teme ao SENHOR e se compraz nos seus mandamentos. Não se atemoriza de más notícias; o seu coração é firme, confiante no SENHOR (v. 1 e 7 – ARA). Da mesma forma, o profeta Habacuque afirma: Porquanto, ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas da malhada sejam arrebatadas, e nos currais não haja vacas, todavia, eu me alegrarei no SENHOR, exultarei no Deus da minha salvação (Hc 3.17,18).

Em seu ministério terreno, Jesus também Se encarregou de assegurar a Seus discípulos que não deveriam temer diante das tribulações que, porventura, viessem a enfrentar. Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo (Jo 16.33). Em Mateus, no capítulo 6, Ele declara: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal (v. 34).

As dificuldades e as más notícias também podem ser excelentes oportunidades para fortalecer a fé dos discípulos de Jesus: Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes (Tg 1.2-4 – ARA). Afinal, nada foge ao controle do Senhor, como o apóstolo Paulo deixa claro em Romanos 8.28 (ARA): Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. Portanto, o cristão precisa se fortalecer no Senhor para enfrentar todas as más notícias e, assim, poder falar como Paulo: Não digo isto como por necessidade, porque já aprendi a contentar-me com o que tenho. Sei estar abatido e sei também ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade. Posso todas as coisas naquele que me fortalece (Fp 4.11-13).


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