Falando de História | Revista Graça/Show da Fé
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Foto: Reprodução
Abraão de Almeida

A reação de Lutero e o apelo ao papa

Um dos princípios norteadores da Reforma, que salientou o valor incomparável da Palavra de Deus, resplandeceu bem cedo no coração do jovem monge alemão Martinho Lutero (1483-1546). Esse princípio apareceu de forma nítida em um discurso redigido por Lutero possivelmente para ser lido diante do concílio de Latrão, em Roma, em 1516. Nele, afirma o reformador: A maior e primeira de todas as preocupações — ah, se eu pudesse inscrever com letra de fogo em vossos corações! — é que os ministros, antes de tudo, preguem ricamente a palavra da verdade. O globo terrestre está repleto, sim, repleto até em profusão com toda imundícia possível de doutrina. O povo é submetido a tantas leis, a tantas opiniões de homens, sim, até mesmo a matérias supersticiosas; é inundado por elas. […] Costumamos ficar admirados que no povo de Cristo imperem tantas discórdias, disputas, invejas, orgu­lho, desobediência, excessos, farras esbanjadoras, bem como que o amor esfriou totalmente, a fé se extinguiu, a esperança se esvaziou. […] Isso é nossa culpa, culpa dos prelados e dos ministros. […] Hoje, todos os ministros admitem ser pecado maior uma infração carnal ou a oração deficiente ou ainda o engano no cânon da missa, mas não pensam o mesmo da retenção da palavra da verdade ou de sua explanação incorreta! […] Quando subtrai e falsifica a palavra, peca contra seu ofício como ministro; isso é muito mais terrível do que pecar como homem. Quanta dor se origina aí! Duros e insensíveis são hoje os sacerdotes em sua segurança, não somente por se calarem, mas também por tudo aquilo que sopram de suas bochechas sobre o povo. Isso chamam de prédica e doutrina, não verificando nem sendo movidos pelo temor de saber se trata-se também da palavra da verdade. […] E tão-somente por essa causa são o que são: sacerdotes e ministros. Pois, para tudo o mais, não se necessita de ministros. Por mais casto que alguém seja, por mais humano, por mais douto, por mais que possa ter êxito em atrair gente de volta à igreja, por mais que possa construir casas, expandir seu poder, e até mesmo fazer milagres, ou ressuscitar mortos, e expelir demônios: somente é sacerdote e pastor aquele que é um mensageiro do Senhor dos Exércitos, isto é, um mensageiro de Deus, que, com a Palavra de Deus, vai à frente do povo, e contribui para o novo nascimento de muitos. Por isso, se vós determinais muitas coisas nesse reverendíssimo sínodo, se regulamentardes, tudo bem, mas não colocardes a mão neste ponto, que aos ministros como professores do povo seja dada a incumbência de abandonar as fabulações sem incumbência, ocupando-se com o puro evangelho e com os santos expositores dos Evangelhos, sobre eles refletindo, e pregando ao povo com temor e tremor a palavra da verdade, deixando finalmente de lado as opiniões humanas ou, pelo menos, introduzindo-as em parcimoniosa seleção, tornando-se assim fiéis colaboradores de Deus na obra do nascimento divino — se vós, digo eu, não vos ocupardes com maior empenho nessa questão, orando por ela com seriedade constante, então posso dizer livremente de antemão que tudo o mais nada é, que em vão nos reunimos, que não avançamos um só passo. Pois, nesse ponto, tudo está em jogo, aí se decide sobre a autêntica reforma da igreja, aí se encontra o fundamento de toda vida piedosa. Portanto, permaneça firme esta tese: a igreja não nasce nem pode persistir segundo sua essência, a não ser que seja por meio da Palavra de Deus, pois assim está escrito: Ele nos gerou pela Palavra da Verdade (Tiago 1.18). [Em A reforma religiosa do século XVI, de Tércio Moraes Pereira (Divulgadora Cultural Brasileira, 1977)]

Martinho Lutero (1483-1546) – Foto: Reprodução

Angustioso apelo ao papa Pelo nefando comércio das indulgências, a igreja romana desprestigiava-se a olhos vistos, a ponto de revoltar seus líderes honestos e esclarecidos. Como se não bastassem as somas vultosas de muitas maneiras canalizadas para o Vaticano, aquele vergonhoso tráfico tornava as populações da Europa muito pobres, tanto financeira como moral e espiritualmente. O povo e os príncipes estavam já cansados da tirania papal e de suas incríveis extorsões, abusos e exigências. Até mesmo para as consciências irreverentes — mas iluminadas pela renovação da cultura e abertura ao saber que caracterizaram a Renascença — a remissão dos pecados a troco de compras feitas à igreja era algo demasiadamente herético para ser tolerado, muito menos por um doutor da Bíblia da têmpera de Lutero, sobejamente conhecido pelo zelo e pela seriedade com que encarava os assuntos ligados à fé cristã. São dessa época as eloquentes palavras que ele dirigiu em uma carta ao papa Leão X (1475-1521): Para ti, também não é segredo o que de muitos anos a esta parte está saindo de Roma e inundando e destruindo tudo: corrupção do corpo e da alma, e dos bens materiais e espirituais; exemplos perniciosos de todo o gênero. São coisas que estão à vista e não há quem as ignore: que da igreja romana, em outros tempos a igreja santíssima, fizeram um covil de ladrões, a pior casa de rufiões, o cérebro, o reino de todo o pecado, da morte e da condenação; nem mesmo se o Anticristo viesse, seria possível que a maldade se acrescentasse mais ainda. [Em Pelo Evangelho de Cristo, de Martinho Lutero]

Papa Leão X (1475-1521) – Foto: Google Art Project

Eis aí, leitores, a dura arremetida de Lutero. Se bem que expressasse o pensamento e os sentimentos de sua época, estava ela longe de ser uma afronta ao sumo pontífice. Era um veemente e angustioso apelo ao papa no sentido de se efetuar com urgência uma profunda reforma na igreja. Era o zelo ardente de um religioso irrepreensível e sincero, suplicando ao seu superior as necessárias providências a fim de restituir à igreja de Roma aquela pureza e santidade dos dias apostólicos. Todavia, debalde foram todas as justas advertências, o romanismo continuou de mal a pior, a ponto de o grande erudito holandês Erasmo de Roterdã (1466-1536) escrever ao seu amigo João Colé: A corte de Roma perdeu todo o sentimento de vergonha.

Erasmo de Roterdã (1466-1536) – Foto: Reprodução / National Gallery

Abraão de Almeida
Pastor da Igreja Evangélica Brasileira em Coconut Creek, Flórida, EUA, e autor de mais de 30 livros em português e espanhol. E-mail: abraaodealmeida7@gmail.com

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