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01/06/2022
Medicina e Saúde – 277
01/08/2022
Foto: Pexels / Cottonbro

Distúrbio grave

O que fazer para vencer a insônia, condição que afeta profundamente a saúde

Por Ana Cleide Pacheco

Dormir de sete a oito horas ininterruptas: essa é a recomendação de muitos pesquisadores médicos para garantir a manutenção da saúde e ter qualidade de vida. Porém, passar tanto tempo dormindo se transformou em uma espécie de artigo de luxo. Dados da Associação Brasileira do Sono (ABS) apontam que 73 milhões de brasileiros (34% da população nacional, de 214,6 milhões) sofrem de insônia. O problema se manifesta pela dificuldade em iniciar o processo de supressão do estado de vigília, não se manter dormindo ou não conseguir ter um sono reparador.

A falta de sono aumenta o risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes tipo 2 e obesidade. Além disso, rebaixa a imunidade, fazendo a pessoa ficar doente com mais frequência, e ainda provoca acidentes de trabalho, domésticos e automobilísticos. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (ABRAMET) mostrou que 42% dos acidentes de trânsito no país estão relacionados ao sono. Isso porque dormir pouco ou mal desencadeia fadiga excessiva, falta de atenção e queda de desempenho nas atividades do dia a dia. “São inúmeros problemas que o não dormir pode nos causar”, resume a pneumologista Luciane Impelliziere Luna de Mello, especialista em Medicina do Sono.

A pneumologista Luciane Impelliziere Luna de Mello, especialista em Medicina do Sono: “Um quadro de insônia real é definido quando o indivíduo tem a dificuldade de iniciar ou manter o sono três vezes na semana por mais de três meses” – Foto: Divulgação / CES / Diego Andrade

Porém, de acordo com Luciane de Mello, o atual surto de insônia não é algo novo, já que questões relacionadas à má qualidade do sono fazem parte do cotidiano de quem vive nas cidades grandes há tempos. Por outro lado, ela lembra que, apesar de ser uma condição comum e recorrente, não deve ser minimizada, pois requer atenção e deve ser tratada por um especialista. “Um quadro de insônia real é definido quando o indivíduo tem a dificuldade de iniciar ou manter o sono três vezes na semana por mais de três meses”, explica, sublinhando que, por se tratar de uma disfunção que pode ter múltiplas causas, a solução não é simplória. “Em lugar de prescrever de imediato um medicamento para dormir, o profissional deve investigar o que está levando a esse quadro. Por isso, é importante que a avaliação seja feita por um especialista, para saber a real necessidade e o momento certo de entrar com uma medicação.”

O neurologista Marcelo Cedrinho Ciciarelli alerta para o consumo de medicamentos para dormir: “Seu uso deve ser feito somente se for realmente indispensável. Isso porque são drogas que podem causar intolerâncias, e, em alguns casos, dependência, fazendo a pessoa necessitar de doses cada vez maiores” – Foto: Arquivo pessoal

O neurologista Marcelo Cedrinho Ciciarelli concorda com a Dra. Luciane. Ele destaca que, em vários casos, a forma leve da insônia pode ser tratada apenas com mudanças no estilo de vida, alterações na alimentação e práticas esportivas. Porém, explica que, quando a doença é mais duradoura, pode ser preciso o consumo de medicamentos para dormir. “Seu uso deve ser feito somente se for realmente indispensável. Isso porque são drogas que podem causar intolerâncias e, em alguns casos, dependência, fazendo a pessoa necessitar de doses cada vez maiores”, alerta. Ciciarelli indica que esses remédios alteram a “arquitetura” do sono porque suprimem algumas fases naturais do dormir, o que pode redundar em alteração de memória e aumentar o risco de quedas, no caso de idosos. “O ideal é que seja feita uma higiene do sono, que é o primeiro passo quando vamos tratar o paciente com insônia.”

De acordo com o médico, os remédios só devem ser utilizados na hora em que as estratégias relacionadas à higiene do sono não forem suficientes. O neurologista lembra ainda de algo fundamental nesses casos: “É aconselhável indicar esse tipo de medicação a pacientes que possam ser acompanhados de perto, com um plano de tratamento e reavaliações regulares”. [Leia, no final desta reportagem, o quadro Para dormir bem]

O dentista Rafael de Andrade Balsalobre informa que há vários fatores que podem prejudicar a qualidade do sono: “O problema ocorre pela alteração anatômica, da parte de tecido mole da via aérea, ou da parte óssea” – Foto: Arquivo pessoal

Relação entre doenças – A diversidade de fatores que podem prejudicar a qualidade do sono é extensa. Para o dentista Rafael de Andrade Balsalobre, especialista em Odontologia do Sono, crianças que respiram pela boca, por exemplo, podem se tornar adultos com apneia – uma das principais causas de insônia. “O problema ocorre pela alteração anatômica, da parte de tecido mole da via aérea, ou da parte óssea”, informa.

Segundo ele, a apneia ocorre principalmente quando a pessoa está no estágio mais profundo do sono, conhecido como REM, em que ocontece um relaxamento muscular generalizado. Balsalobre ressalta que, nessa fase, é natural que a pessoa abra a boca, fazendo o queixo ir para trás. “Se ela apresenta alterações nos tecidos moles ou ósseos das vias áreas, a base da língua tocará o fundo da garganta, gerando uma obstrução. Como a faringe está fechada, impedindo a passagem de ar, o sistema nervoso central gera uma pequena descarga de adrenalina suficiente para tirar a pessoa da pausa respiratória”, explica. O dentista assinala que esse comando do cérebro faz a pessoa sair do estado de dormir profundo. “O sono fica fragmentado, e, dessa forma, ela acorda cansada e com a sensação de que não dormiu. Isso eleva as chances de apresentar déficit cognitivo, problemas de memória e irritabilidade, além de elevar as chances de sofrer distúrbios cardiovasculares, como arritmia e hipertensão, e de ter um acidente vascular cerebral (AVC) ou uma parada cardíaca.”

A otoneurologista Paula Santos Silva Fonseca explica: “A apneia do sono impacta na qualidade de vida como um todo. Ela pode vir associada ou agravar doenças, como pressão alta, diabetes e colesterol alto. E essas são fatores de risco para problemas auditivos” – Foto: Arquivo pessoal

A longo prazo, a falta de sono vai minando a saúde da pessoa, de acordo com a otoneurologista Paula Santos Silva Fonseca, profissional especializada em avaliar, diagnosticar e tratar patologias que acometem o ouvido interno e prejudicam a audição e o equilíbrio das pessoas. Segundo ela, pesquisas recentes (ainda inconclusivas) sugerem que indivíduos com apneia do sono também apresentam maior risco de ter queixas auditivas. “Sabemos que o ouvido interno – composto pela cóclea, responsável pela audição, e pelo labirinto, que responde pelo equilíbrio – é bastante sensível a alterações sistêmicas causadas pela apneia do sono, como o aumento da pressão arterial, a diminuição dos níveis de oxigênio no sangue e alterações do açúcar sanguíneo e da microcirculação.”

Ela assinala que, em sua prática clínica, há uma prevalência elevada de pacientes com apneia do sono e queixas auditivas, demonstrando uma provável relação entre as doenças. “A apneia do sono impacta na qualidade de vida como um todo. Ela pode vir associada ou agravar doenças, como pressão alta, diabetes e colesterol alto. E essas são fatores de risco para problemas auditivos.”

Foto: Pexels / Ketut Subiyanto

Sem remédios – Fatores ambientais também podem atrapalhar o sono. O estresse provocado pelo excesso de atividades ou mesmo por situações desgastantes está entre os distúrbios mais comuns. Que o diga a auxiliar de creche N., 42 anos. Ela começou a sentir dificuldade de dormir logo que perdeu a mãe, há alguns anos. “Foi um dos momentos mais desafiadores da minha vida. Não conseguia me conformar”, revela a auxiliar de creche, que chegou a ficar dias sem dormir.

N., que só aceitou falar à nossa reportagem sob a condição do anonimato, relata que, no auge do desespero, foi convidada por uma cunhada a participar de um culto. “Depois que o pastor fez uma oração por mim, fui para casa e consegui ter uma noite de sono reparadora. Isso depois de 12 dias sem ‘pregar os olhos’. A partir dali, busquei ao Senhor. Nunca precisei usar remédios. Meu medicamento é a Palavra de Deus.”. Hoje, frequenta a Igreja Batista do Calvário, no bairro Fonseca, em Niterói (RJ).

A assistente de loja Rejane Santos testemunha: “Comecei a participar dos cultos e a me envolver com a Palavra. Exercia minha fé e sempre acreditei que o Senhor iria me curar. Para a honra e glória dEle, não tenho mais qualquer sintoma de depressão ou de insônia” – Foto: Arquivo pessoal

A assistente de loja Rejane Santos, 46 anos, igualmente desenvolveu um quadro de insônia no passado. A morte precoce da irmã, causada por um câncer de mama, foi um dos motivos para que entrasse em depressão e tivesse dificuldades para dormir. Mas ela pontua que, graças à ajuda da família, da igreja e, principalmente, de Deus, encontrou a cura. “Comecei a participar dos cultos e a me envolver com a Palavra. Exercia minha fé e sempre acreditei que o Senhor iria me curar. Para a honra e glória dEle, não tenho mais qualquer sintoma de depressão ou de insônia”, celebra Rejane, membro da Igreja Evangélica Manassés de Jardim da Prata, em Magé (RJ).

A psicóloga Marcely Quirino Souza alerta: “Vivemos em um mundo conectado, em que o acesso contínuo a computadores, televisores e smartphones faz os indivíduos não conseguirem ‘desacelerar’. Com isso, o cérebro não descansa” – Foto: Arquivo pessoal

A psicóloga Marcely Quirino Souza afirma que a insônia – mal que acomete muitas pessoas, de forma avassaladora, na atualidade – se deve, por exemplo, ao uso desenfreado das novas tecnologias. “Vivemos em um mundo conectado, em que o acesso contínuo a computadores, televisores e smartphones faz os indivíduos não conseguirem ‘desacelerar’. Com isso, o cérebro não descansa”, alerta a psicóloga, que é diaconisa da Igreja Renascer em Cristo em Niterói (RJ). De acordo com ela, a própria luz emitida por esses aparelhos prejudica a produção de melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal e responsável pelo sono. “É preciso buscar um equilíbrio, tratando com seriedade as questões relacionadas ao uso de telas e à rotina, para ter uma vida mais saudável”, conclui.

Para dormir bem

A higiene do sono pode ser importante aliada para quem precisa vencer a insônia. Eis algumas dicas para criar uma noite de descanso saudável e reparadora:

:: Procure deitar-se e levantar-se sempre no mesmo horário, todos os dias. Isso permite que o organismo crie um relógio interno, ajudando-o a conciliar o sono e despertar no momento certo.

:: Reduza o consumo de alimentos pesados à noite: a dificuldade de digestão pode desencadear insônia. Por outro lado, saiba que ir para a cama com o estômago vazio também pode prejudicar o sono.

:: Evite praticar atividades físicas intensas à noite, pois elas podem atrapalhar o processo de adormecimento. Os exercícios físicos, geralmente, melhoram a qualidade do sono, mas devem ser feitos, pelo menos, três horas antes de ir para a cama.

:: Crie em seu quarto um ambiente que induza ao sono, que seja relaxante e, preferencialmente, escuro e silencioso. A temperatura deve ser agradável, e as roupas de cama, confortáveis. TV, computador e objetos relacionados ao trabalho não devem estar presentes no dormitório.

:: Desenvolva uma rotina antes de dormir, lançando mão de atividades relaxantes, como tomar um banho e ler um livro. Assistir a uma série na TV pode ajudar, mas é importante permanecer pelo menos 30 minutos longe de aparelhos eletrônicos antes de se deitar.

(Fonte: Genom)


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