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Carta do Pastor à ovelha – 258
01/01/2021
Capa | Escrituras
01/01/2021
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Foto: Mario Gogh / Unsplash

Nem frio nem quente

Por que a Palavra de Deus condena a mornidão espiritual

Por Patrícia Scott

A palavra morno aparece nas Escrituras apenas uma vez – em Apocalipse 3.14-16, na carta de João à Igreja de Laodiceia: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus. Eu sei as tuas obras, que nem és frio nem quente. Tomara que foras frio ou quente! Assim, porque és morno e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Segundo os historiadores, apesar de a cidade de Laodiceia ser grande e opulenta, ela sofria de escassez de recursos hídricos. Isso a fazia ser bem diferente de cidades que possuíam correntes de água fria, como Colossos, ou que tinham fontes termais, como Hierápolis. De acordo com informações históricas, a água desses locais abastecia, por meio de aquedutos, Laodiceia. Além de chegar morna aos reservatórios, era suja, cheia de sedimentos devido à canalização rudimentar. Dizia-se que, ao ingeri-la, os moradores sentiam náuseas e vomitavam.

Fundada em 250 a.C. por Antíoco da Síria (215-162 a.C.), Laodiceia era importante por sua localização, pois ficava no meio das grandes rotas comerciais. “Era opulenta, e sua igreja também”, frisa o Pr. Adilson Passos dos Santos, assinalando que a cidade era a mais abastada das sete citadas no livro de Apocalipse: conhecida por possuir um bom sistema econômico, manufatura de lã e uma escola de Medicina. “Laodiceia era um local transigente, e a Igreja se tornou da mesma forma. Aquele povo havia perdido o amor por Deus”, diz Santos, pastor da Igreja Batista Nova Filadélfia, em Rocha Miranda, bairro da zona norte do Rio de Janeiro (RJ).

Pr. Adilson Passos dos Santos: “Laodiceia era um local transigente, e a Igreja se tornou da mesma forma. Aquele povo havia perdido o amor por Deus” Foto: Arquivo pessoal

Para ele, ao se dirigir àquela comunidade, o Senhor enxergou mornidão, pois as pessoas não desejavam mudança de vida. “Elas acreditavam não precisar de nada, justamente por causa da riqueza. Alguém frio pode se tornar quente ao dar lugar ao Espírito Santo, mas o morno já perdeu a sensibilidade espiritual”, avalia o pregador, o qual ensina que a oração é fundamental a fim de a chama da fé permanecer acesa, aquecendo o coração do cristão. “Ela derruba muralhas, fortalezas, e mantém o crente em contato com Deus.”

Já o Pr. Julio Cesar de Souza, da Assembleia de Deus na Lapa, zona oeste de São Paulo (SP), afirma que a passagem de Apocalipse 3.14-22, a qual se refere a essa Igreja, revela três características do cristão morno: apatia, perda de discernimento espiritual e apostasia. “Aquela gente não se posicionava como defensora da fé cristã. O modo de vida era tendencioso ao comportamento mundano, o que a conduzia à indiferença.”

Pr. Julio Cesar de Souza: “Aquela gente não se posicionava como defensora da fé cristã. O modo de vida era tendencioso ao comportamento mundano, o que a conduzia à indiferença” Foto: Arquivo pessoal

“Vida espiritual” – O problema da Igreja de Laodiceia não era teológico ou moral. “Não havia falsos mestres ou heresias”, pondera o Rev. Hernandes Dias Lopes, da Primeira Igreja Presbiteriana em Vitória (ES), destacando que nem sequer havia pecado de imoralidade ou engano, uma vez que, na carta, não há menção de hereges, malfeitores ou perseguidores. “O que faltava àquela Igreja era fervor espiritual.” Na opinião de Lopes, é mais honroso ser um ateu declarado que um membro incrédulo de uma igreja evangélica. “Quem nunca fez profissão de fé e tem a consciência de sua completa falta de vida moral é muito mais fácil de ser ajudado do que outro o qual se julga cristão, mas não tem verdadeira vida espiritual.”

Rev. Hernandes Dias Lopes: “Ser morno é ser cego à sua verdadeira condição. Cristo repudiará totalmente aqueles cuja ligação com Ele é puramente nominal e superficial” Foto: Reprodução

O morno, pensa ele, apresenta um contraste entre o que diz e pensa ser e o que realmente é. “Ser morno é ser cego à sua verdadeira condição. Cristo repudiará totalmente aqueles cuja ligação com Ele é puramente nominal e superficial. Laodiceia desapareceu. Da cidade só restam ruínas. A Igreja perdeu o tempo da sua oportunidade”, acrescenta o líder presbiteriano.

Ruínas da cidade de Laodiceia, a qual era abastecida, por meio de aquedutos, da água vinda de cidades, como Colossos e Hierópolis: fundada em 250 a.C. por Antíoco da Síria (215-162 a.C.), destacava-se por sua localização, pois ficava no meio das grandes rotas comerciais Foto: A. Savin / Wikimedia

A operadora de telemarketing Isabela Martins, 22 anos, já passou por um período de mornidão espiritual causado por situações que geraram tristeza em seu interior. Ela ressalta que continuava frequentando os cultos, mas sem qualquer desejo de envolvimento ministerial. “Na época, enfrentei tentações que, para mim, tinham ficado para trás. Satanás sabe quais são os nossos pontos fracos”, testemunha a jovem, que congrega na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) na Taquara, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ). Ela revela que a oração foi essencial para sair daquele quadro. “Era transparente com Deus. Falava tudo o que estava acontecendo, pedindo que gerasse transformação em meu espírito e em minha mente.” Aos poucos, segundo Isabela, a chama da fé foi reacendida. “Saí daquele cenário de apatia, e a minha visão foi transformada para a glória de Jesus.”

A operadora de telemarketing Isabela Martins, que teve a chama da fé reacendida: “Saí daquele cenário de apatia, e a minha visão foi transformada para a glória de Jesus” Foto: Arquivo pessoal

A supervisora de negócios Glória Orcino Moreira, 48 anos, conta que houve um momento em sua vida no qual achava que estava bem espiritualmente. Frequentava os cultos e era dizimista e ofertante fiel. Não falhava com esses compromissos. No entanto, ela relatou que estava bastante distante da presença de Deus, e a voz do Espírito Santo lhe parecia inaudível. “Acreditava que podia fazer tudo, pois tinha o ‘meu evangelho’, e cumpria literalmente com a minha religiosidade”, descreve Glória, que congrega no Ministério Chama do Avivamento, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste carioca.

Glória Orcino Moreira: “Decido, todos os dias, não entrar no engano da mornidão, trazendo à minha mente que Ele não nos abandona, confessando e me arrependendo dos meus pecados” Foto:  Arquivo Graça / Solmar Garcia

Moreira relata que, em determinado momento, chegou ao fundo do poço no esfriamento espiritual. “Totalmente sozinha, comecei a sentir muita dor e saudade do tempo que, verdadeiramente, servia a Cristo e desfrutava do Seu amor.” Foi por meio da oração que ela conseguiu retornar para o aconchego do Pai. “Decido todos os dias não entrar no engano da mornidão, trazendo à minha mente que Ele não nos abandona, confessando e me arrependendo dos meus pecados.”

“Encontro real” – No entendimento do Pr. Gilson de Oliveira Júnior, do Movimento Convergência, no centro de Monte Mor (SP), na região metropolitana de Campinas (SP), a visão do cristão morno sobre si mesmo é desconexa da realidade, sendo ele incapaz de fazer uma avaliação verdadeira de sua vida. “Ele se acha autossuficiente. Assim, acredita que pode caminhar sozinho.”

O Pr. Gilson de Oliveira Júnior lembra que a liderança pode contribuir para que o rebanho se mantenha sempre quente espiritualmente Foto: Arquivo pessoal

Por outro lado, lembra o pastor, Deus enxerga o morno como um infeliz, miserável, pobre, cego e nu (Ap 3.17 – ARA). “Jesus revela a solução para a mornidão convocando o povo ao arrependimento e ao zelo pelos ensinamentos cristãos”, pontua ele, asseverando que, de maneira simples, a liderança pode contribuir para que o rebanho se mantenha sempre quente do ponto de vista espiritual. “Basta pregar o verdadeiro Evangelho, exortando e edificando a partir do estímulo à leitura bíblica, à oração e ao jejum”, aconselha Oliveira, deixando claro que, somente na presença do Altíssimo, como participante do Corpo de Cristo, as escamas dos olhos caem. “Então, há libertação, santificação e felicidade.”

Ele afirma que o envolvimento com a obra do Senhor não evita a mornidão espiritual. “A Igreja de Laodiceia tinha obras e, mesmo assim, era morna”, destaca ele, sublinhando que o primeiro (fundamental) comprometimento do cristão é com o Criador. “Todos na Bíblia que fizeram a obra de Deus, como Noé, Abraão e Paulo, experimentaram antes um encontro real e pessoal com o Todo-Poderoso.”

O Pr. Weder da Silva Monteiro lembra: “O Senhor jamais rejeita um coração quebrantado, desejoso de resgatar o primeiro amor” Foto: Arquivo pessoal

Seguindo a mesma linha de pensamento, o Pr. Weder da Silva Monteiro, líder regional da Igreja da Graça em Itabira (MG), enfatiza o comodismo como a característica crucial do cristão morno. “Aos poucos, considera normal não congregar, não orar com frequência nem ler a Palavra. Muito menos atenta à necessidade de fugir da aparência do mal.” O pastor destaca que, dessa maneira, afastada do Onipotente, a pessoa vive “na carne”, deixando para trás a santidade pertinente a uma vida cristã genuína. “Não separa o vil do precioso, e o temor acaba.”

Contudo, Weder Monteiro aponta que a mornidão espiritual não é um caminho sem volta. Ele aconselha que, para sair desse estado, é preciso, em primeiro lugar, reconhecer a mornidão, confessar os pecados e se arrepender. “O Senhor jamais rejeita um coração quebrantado, desejoso de resgatar o primeiro amor”, assegura o líder, citando as últimas palavras de Jesus à Igreja de Laodiceia: Sê, pois, zeloso e arrepende-te Sê, pois, zeloso e arrepende-te. Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e com ele cearei, e ele, comigo. […] Quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz às igrejas (Ap 3.19b-22). 


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