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Foto: Marek Piwnicki / Unsplash

Retorno à casa

Comunidades de fé precisam alcançar pessoas que se afastam do Evangelho, alertam pastores

Por Marcelo Santos

Jesus afirma que o caminho que conduz à salvação é estreito. Por outro lado, a porta de saída é bem larga (Mt 7.13). Por isso, o número de pessoas que se afasta do Evangelho depois de aceitar Cristo como Salvador é grande, segundo o Pr. Sinfrônio Jardim Neto, 63 anos, da Assembleia de Deus em Joinville (SC), coordenador nacional do ministério de reconciliação da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) e fundador do movimento Jesus não Desistiu de Você. Ambas são iniciativas que visam promover o retorno ao Evangelho daqueles que trilharam o caminho da fé, mas que, em algum momento, afastaram-se do Senhor. “No Brasil, temos de 30 a 40 milhões de pessoas que, algum dia, fizeram parte de uma igreja, desviaram-se e atualmente não pertencem a qualquer ministério”, calcula o pastor.

O número – registre-se – não é fruto de uma pesquisa formal, e sim de uma estimativa do ministro assembleiano, baseada em entrevistas feitas com centenas de pastores nas quase mil igrejas que visitou em três décadas de trabalho. “Milhões se convertem em nossas congregações, mas outros milhões, por algum motivo, desviam-se”, constata. Ele assinala que, com o passar do tempo, as comunidades cristãs chegam a ter duas vezes mais ovelhas perdidas do que em seu aprisco. “Uma igreja com 500 pessoas e uma década de existência já tem aproximadamente mil irmãos e irmãs que se afastaram.”

O Pr. Sinfrônio Jardim Neto constata: “Milhões se convertem em nossas congregações, mas outros milhões, por algum motivo, desviam-se” – Foto: Arquivo pessoal

Segundo Sinfrônio Neto, o Brasil teria um contingente muito maior de cristãos se não fossem os que diariamente se desviam. “Das pessoas que deixam as respectivas comunidades, 70% nunca foram procuradas. As outras, que receberam algum tipo de visita pastoral ou de outros membros, foram abordadas, muitas vezes, sem amor e sem sabedoria. A Bíblia nos ensina de forma diferente”, afirma o pastor, citando o texto de Tiago 5.19,20: Irmãos, se algum de entre vós se tem desviado da verdade, e alguém o converter, saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma alma e cobrirá uma multidão de pecados.

Com o objetivo de chamar a atenção para a perda de almas preciosas para o Reino, o pastor criou o seminário A reconquista, uma série de palestras que visa despertar comunidades de fé para a realidade dos afastados. “Fiquei espantado ao constatar que as igrejas trabalhavam com diversos tipos de situações, tais como casamento, vida financeira, libertação e outras, mas não tinham um projeto dirigido aos que se desviavam da fé.” Desde então, Neto escreveu livros, fez apostilas e realizou congressos sobre o tema por todo o país. “É como se o desviado fosse apenas um produto, um item descartável. Alguém que pode ser substituído por outros que chegarão ao seu lugar e ocuparão os espaços vazios deixados nas fileiras das nossas igrejas”, analisa, em tom de lamento.

Indagado sobre quais seriam os problemas que explicariam esse êxodo de membros das igrejas, Sinfrônio Neto apontou questões relacionadas à comunhão. “Alguns se desentendem entre si e, não havendo conserto, acabam deixando o templo”, observa. Ele destaca que, além desses, existem os que caem no pecado, não se arrependem e, por isso, afastam-se por decisão própria. Outros são excluídos da denominação por contrariarem os costumes vigentes. “Esses costumam ser os mais feridos e mantêm rancor da igreja antiga. Há ainda os que consideram que não é necessário frequentar uma igreja: uma ideia equivocada, pois a comunhão com Deus e os irmãos é importantíssima.”

O contador aposentado Nelson Carmassi reconhece: “A semente de Cristo não estava no meu coração. Eu era batizado, mas não seguia a lei de Deus” – Foto: Marcelo Santos

“Sem compromisso” – Foi um desentendimento que levou o contador aposentado Nelson Carmassi, 78 anos, a deixar sua primeira comunidade de fé, no início dos anos de 1970. “Eu era membro de uma igreja onde permaneci por quase 20 anos. Tocava acordeão e ajudava em outras áreas”, recorda-se Carmassi. Entretanto, apesar de toda aquela dedicação, o contador passou a ser vítima de boatos acusatórios. Alguns membros começaram a questionar sua idoneidade, e a situação o constrangeu de tal maneira que decidiu deixar a igreja. “A semente de Cristo não estava no meu coração. Eu era batizado, mas não seguia a lei de Deus. Olhava mais para os defeitos das pessoas do que para a Palavra”, reconhece.

Longe da comunhão com os outros irmãos, Nelson voltou para a vida que tinha antes. “Vivia no pecado, sem compromisso com as coisas do Senhor. Passei por tribulações e fiz escolhas que não deram certo”, relata. No entanto, alguns anos depois de ter deixado o convívio daquela igreja, ele conheceu Maria José Carmassi, hoje pastora e líder da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Itanhaém (SP). “Era o ano de 1990. Ela me convidou, e fomos para a Igreja da Graça na Praça da Sé, em São Paulo (SP). Nunca mais deixamos o caminho do Senhor. Hoje, vivemos no litoral paulista, servindo a Jesus”, conta Nelson, que segue feliz, congregando e apoiando a esposa no ministério.

A lojista Carolene de Holanda informa: “Deus foi me curando aos poucos. Foi um processo longo em que Ele me libertou do passado e das cicatrizes que carregava em meu coração. Mas aprendi que, quando a pessoa quer a salvação, precisa estar disposta a lutar por ela” – Foto: Arquivo pessoal

Paz do Espírito – Nelson Carmassi, obviamente, não era um “filho pródigo” único. Que o diga a lojista Carolene de Holanda, 29 anos, moradora de Maracanaú (CE). Ele se lembra bem da noite em que despertou inquieta, após um sonho perturbador. “Acordei angustiada. Ouvia uma voz me dizendo que nunca mais conseguiria ser uma mulher de Deus, dedicada à oração. Decidi tirar a minha vida. Tinha um estilete ao lado da cama, que usava para apontar os lápis e escrever. Eu o coloquei sobre o pulso e pensei em fazer o pior”, relata.

Era o início da década de 2010. A jovem estava sofrendo. Havia rompido um relacionamento amoroso e tinha deixado sua igreja. Sentia-se triste e sem motivação. Entretanto, depois de despertar daquele pesadelo, totalmente atribulada, ouviu outra voz tranquila que lhe dizia: Minha filha, volte e descanse. Vou cuidar de você. Carolene se lembra de que aquela noite foi decisiva para que se reconciliasse com Cristo e voltasse a congregar. “Deus foi me curando aos poucos. Foi um processo longo em que Ele me libertou do passado e das cicatrizes que carregava em meu coração. Mas aprendi que, quando a pessoa quer a salvação, precisa estar disposta a lutar por ela”, informa.

Hoje, a empresária vive uma vida transformada. “Eu me casei com um homem de Deus, e minha casa é um pedacinho do Céu. Abri uma empresa. Porém, acima de tudo, nada supera a paz que o Espírito Santo dá”, conta a jovem que, costuma escrever suas experiências no blog que criou na internet, o qual pode ser acessado pelo link www.umacearenseescreveu.wordpress.com.

A Pra. Maria Marta Ramos vê com tristeza o fato de muitas pessoas deixarem as respectivas igrejas, não atentando para o alerta da Bíblia Sagrada sobre a importância de congregar – Foto: Marcelo Santos

Importância de congregar – A Pra. Maria Marta Ramos, 57 anos, líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Francisco Morato (SP), vê com tristeza o fato de muitas pessoas deixarem as respectivas igrejas, não atentando para o alerta da Bíblia Sagrada sobre a importância de congregar. “O Espírito Santo orienta, em Hebreus 10.25: Não deixando a nossa congregação, como é costume de alguns; antes, admoestando-nos uns aos outros; e tanto mais quanto vedes que se vai aproximando aquele Dia.” A ministra assinala que não existe uma explicação sequer que justifique o abandono da fé. “Segundo o apóstolo Paulo, a nossa luta não é contra a carne ou o sangue [Ef 6.12]. Em 1 Timóteo 4.1, a Bíblia aponta que nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios. Quem observa bem as Escrituras não dá ouvidos a homens ou a espíritos enganadores”, salienta.

Foto: Sulthan Auliya / Unsplash

Ela lembra que a IIGD possui grupos preparados para frear esse êxodo das congregações, tais como o Mulheres Que Vencem (MQV), Homens Que Vencem (HQV) e Jovens Que Vencem (JQV). “Cada grupo é acionado, conforme a necessidade da congregação. Realizamos cultos nos lares, visitas periódicas, aconselhamentos e atendimento pastoral”, informa a líder, deixando claro que o objetivo de cada uma dessas ações é fazer cumprir as palavras de Jesus registradas em João 17.12: Tenho guardado aqueles que tu me deste, e nenhum deles se perdeu.

Amor do Pai

Foto: Arquivo Graça / Solmar Garcia

No capítulo 15 do evangelho de Lucas, estão registradas três parábolas de Jesus, as quais demonstram o amor de Deus e Seu zelo em resgatar aqueles que eram Seus e se perderam. A primeira trata da ovelha desgarrada, a segunda fala de uma moeda perdida, e a terceira conta a história do filho que abandona a casa paterna, o filho pródigo.

Essa última talvez seja a mais conhecida de todas as parábolas. Na narrativa, um jovem exige do pai que lhe entregue sua parte na herança e sai pelo mundo a desperdiçá-la. Um dia, os recursos se esgotam, e ele começa a passar maus bocados. Quando decide voltar para a casa do pai, este o recebe de braços abertos, perdoando o jovem inconsequente.

Em texto publicado na seção Carta Viva da edição 257 de Graça/Show da Fé, o Missionário R. R. Soares ensina a respeito dessa passagem: O pai não deveria tê-lo repreendido severamente, mostrando-lhe o quanto fora mau com os familiares e consigo mesmo? Saiba que esse pai simboliza o nosso Deus, que não liga para quanto você desperdiçou da riqueza dEle, e sim para o fato de você ser filho dEle. O Senhor deseja perdoar-lhe e reconduzi-lo ao seio familiar. Você é parte de Cristo, que saiu de casa para ser destruído pelo ser que é o próprio ódio. As Escrituras assim descrevem o maligno: O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir (Jo 10.10a).

(Fonte: Graça/Show da Fé)


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