Entrevista | Revista Graça/Show da Fé
Medicina e Saúde – 268
01/11/2021
Foto: Arquivo pessoal

Palavra da verdade

Pastor destaca a importância do conhecimento bíblico para a construção de uma Igreja resistente aos desafios da modernidade

Por Patrícia Scott

A cultura ocidental moderna está quase irremediavelmente pautada pelo relativismo e por vãs filosofias. Em meio a esse contexto, em que para muitos nada é absoluto ou eterno, a Igreja segue sendo desafiada a viver com base no único alicerce sólido, as Escrituras. Por isso, o Pr. Carlos Augusto Vailatti, 48 anos, defende que pastores e líderes não podem se furtar ao estudo constante e profundo da Bíblia. Afinal, o conselho de Paulo a Timóteo não deixa dúvidas quanto a isto: Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade (2 Tm 2.15).

Além de saber muitíssimo bem sobre o Texto Sagrado, um dos grandes desafios dos atuais líderes, em especial no Brasil, é conduzir as ovelhas por esse mesmo caminho. “Somos um povo que lê muito pouco. Isso se reflete, infelizmente, no contexto cristão”, avalia o pastor, citando uma pesquisa segundo a qual apenas 38% dos brasileiros compram livros uma vez por ano. “O incentivo deve começar com os pais estimulando os filhos à leitura de bons livros. Tal expediente deve ser reforçado nas igrejas”, ensina.

Mestre em Novo Testamento e doutor em Antigo Testamento pela Universidade de São Paulo (USP), o pastor é profundo conhecedor das Escrituras Sagradas e de suas línguas originais – o grego e o hebraico. Líder da Igreja Evangélica Jaboque, em Jardim Independência, na zona leste de São Paulo (SP), Vailatti defende que somente cristãos e igrejas centrados na Palavra são capazes de defenderem-se dos ataques à fé impostos pela modernidade.

Qual é o maior desafio enfrentado pelos líderes cristãos hoje?

Creio que seja o de se manter fiel aos princípios absolutos das Escrituras, diante do relativismo ético tão apregoado em nossos dias. Os valores do pós-modernismo, o individualismo, o hedonismo [dedicação ao prazer], o imediatismo e o pluralismo religioso e filosófico, por exemplo, infelizmente, têm sido aderidos por muitos, incluindo “cristãos”. Isso tem desafiado a liderança de várias igrejas a empregar estratégias bíblicas e teológicas no combate a tais valores.

Como o pastor pode incentivar os cristãos ao estudo da Palavra?

De várias formas, tais como implementar junto à igreja local um plano de leitura anual da Bíblia; gravar as pregações e disponibilizá-las para os irmãos; indicar a leitura de bons livros sobre Bíblia e Teologia; manter uma livraria no espaço físico da igreja local. Também pode mostrar às pessoas que Jesus dava grande importância ao estudo da Palavra de Deus e que Cristo começou e concluiu o Seu ministério público citando a Palavra, conforme Mateus 4.4-7,10; 27.46.

O que a Igreja deve fazer para tornar a Palavra compreensível a todos?

Podemos adotar, nos cultos, traduções bíblicas que tragam uma linguagem mais coloquial, como a Nova Versão Internacional (NVI) e a Nova Versão Transformadora (NVT), bem como empregar uma linguagem mais acessível por parte dos pregadores, professores e líderes do ministério de louvor.

Alguns cristãos têm resistência à leitura do Antigo Testamento. Como o pastor deve lidar com essa questão?

Infelizmente, isso é verdade. A resistência deve ser confrontada com o fato de que mais de 10% do Novo Testamento é composto de citações ou alusões diretas ao Antigo Testamento. Aliás, as palavras registradas de Jesus revelam uma porcentagem semelhante. Certos livros, como Apocalipse, Hebreus e Romanos, estão quase que saturados com a linguagem e alusões e citações do Antigo Testamento – a Bíblia de Jesus e dos apóstolos. É importante que o pastor conscientize a congregação local quanto à relevância da pregação e do ensino dos dois testamentos para a saúde espiritual da igreja.

Em que medida o conhecimento teológico influencia o ministério pastoral?

Um pastor que possui conhecimento teológico mais robusto e ortodoxo buscará instruir a comunidade local de forma mais adequada quanto aos ensinamentos bíblicos a respeito de diversas questões. Além disso, as crenças da igreja local são moldadas e construídas a partir daquilo que se ouve periodicamente no púlpito. Portanto, uma comunidade eclesiástica que possui um ensino teológico sólido é uma igreja cujos membros dificilmente serão levados em roda por todo vento de doutrina [Ef 4.14].

Como o pastor pode revitalizar uma congregação com base no Livro Santo?

Ele pode pregar sermões bíblicos, implementando cultos cujos elementos constitutivos sejam igualmente bíblicos (por exemplo, o louvor, a adoração, a oração e a comunhão) e orientando os irmãos a adotar um estilo de vida condizente com as Escrituras. Se a nossa vida for pautada por uma cosmovisão bíblica e cristã, contribuiremos para o avanço do Reino de Deus no casamento, na família, no trabalho, nos estudos e no relacionamento junto à sociedade como um todo.

É possível haver diálogo entre a teologia bíblica ortodoxa e o pensamento relativista moderno?

Depende. Se, por um lado, não é recomendável que os cristãos vivam alienados da realidade que os cerca, por outro deve-se tomar cuidado redobrado quanto à adesão a determinadas pautas ideológicas e filosóficas presentes em nossa época. Há pensamentos, como a ideologia de gênero e a legalização do aborto e das drogas, que são absolutamente nocivos e contrários a uma cosmovisão cristã. O cristianismo pode e deve dialogar de forma erudita e crítica com os proponentes de tais ideias sem jamais relativizar ou sacrificar os valores do Evangelho.

Carlos Augusto Vailatti
Pastor e Mestre em Novo Testamento e doutor em Antigo Testamento pela Universidade de São Paulo (USP)

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