Heróis da Fé | John G. Paton | Revista Graça/Show da Fé
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01/06/2022
Medicina e Saúde – 277
01/08/2022
Foto: Reprodução

Enviado aos canibais

Missionário escocês enfrentou toda sorte de perigos para pregar o Evangelho nas distantes ilhas do Pacífico Sul

Por Élidi Miranda*

Em 1858, quando o escocês John G. Paton (1824–1907) chegou ao arquipélago das Novas Ilhas Hébridas (hoje Vanuatu), no Pacífico Sul, seguia os passos do britânico John Williams (1796-1839), pioneiro naquela região. Contudo, o destino desse desbravador não deveria inspirar qualquer estrangeiro, em sã consciência, a pisar naquelas terras novamente. Em 1839, Williams já havia estabelecido igrejas em várias ilhas do Pacífico. Mas, em seu primeiro contato com os moradores das Novas Ilhas Hébridas, o missionário foi atacado a golpes de porrete. Conforme o costume local, seu corpo foi cozido e repartido entre os nativos, que praticavam rituais de canibalismo. Contudo, para aqueles que, de fato, têm um chamado divino, o medo não é impedimento para fazer a obra do Senhor. O exemplo de Williams foi seguido por muitos missionários britânicos, entre os quais Paton, que chegou às Novas Hébridas, em 5 de novembro de 1858, acompanhado de sua jovem esposa, Mary Ann Robson, que estava grávida.

Superstições – O casal se instalou na ilha de Tanna, sonhando fazer muitos discípulos de Cristo ali – literalmente, nos confins da Terra. Contudo, Mary Ann morreu três meses depois, vítima de uma febre tropical, em 12 de fevereiro, poucos dias após dar à luz um menino. O bebê, que recebera o nome de Peter, viria a falecer 36 dias depois da mãe. Tamanha tristeza, no entanto, não foi capaz de desviar Paton de seu propósito de anunciar Cristo àquele povo.

Os nativos eram extremamente violentos e se vangloriavam por isso. Conflitos entre grupos rivais eram decididos em lutas sangrentas. Os inimigos mortos eram devorados pelos vencedores. Na aldeia derrotada, por sua vez, as esposas dos guerreiros falecidos eram mortas por estrangulamento a fim de servir aos maridos no pós-vida. Havia ainda a idolatria, a feitiçaria e toda a sorte de superstições que escravizavam os nativos. Paton conta que, quando um chefe tribal ficou doente, três mulheres foram sacrificadas em prol de sua cura.

Mesmo viúvo e aterrorizado com os horripilantes costumes locais, Paton continuou na ilha, aprendendo a língua e pregando de aldeia em aldeia. Contudo, era frequentemente ameaçado de morte pelos nativos descontentes com a nova religião que estava se estabelecendo. O missionário tinha a ajuda de obreiros nativos, principalmente da ilha Aneityum, no sul das Hébridas, onde, anos antes, muitos deles haviam crido em Cristo graças ao trabalho de outros missionários europeus. Certo dia, chegou-lhe a notícia de que ele e um de seus assistentes, natural de Aneityum, seriam servidos em um banquete. Eles estavam em casa quando ouviram o burburinho dos nativos cercando o lugar. Totalmente indefesos, do ponto de vista humano, a dupla começou a orar. Passaram horas em oração, até que eles se dispersaram sem motivo aparente.

John G. Paton e sua família – Foto: Reprodução

Em sua biografia, Paton conta que, uma vez, pregando em uma aldeia, três feiticeiros locais o desafiaram. Disseram que poderiam matá-lo apenas se conseguissem uma fruta ou algo que o missionário tivesse mordido. Gentilmente, Paton mordeu três ameixas e as entregou a cada um deles. Os homens fizeram uma série de rituais diante de toda a aldeia, mas nada sucedeu ao missionário. Invoquem seus deuses para que venham ajudá-los. Nada me aconteceu. Estou muito bem, provocou. Em outra ocasião, um grupo de feiticeiros anunciou a toda a ilha que estava trabalhando em uma magia poderosa que mataria Paton antes que ele pudesse realizar o próximo culto semanal. Entretanto, como de costume, ele apareceu no dia e local da reunião, com plena saúde.

John G. Paton e os nativos de Novas Hébridas, em desenho de Charles D. Michael (1912)) – Foto: Reprodução

Mesmos problemas – Sempre que um barco com missionários britânicos passava por Tanna, Paton era instado pelos colegas a deixar a ilha. Mas ele estava decidido a pregar àquele povo. Até que, em 1862, sua casa foi totalmente queimada, e todos os seus pertences, destruídos. Não havendo mais como continuar ali, Paton cruzou a floresta com seu cachorro até a base missionária mais próxima. Ali, encontrou seus colegas e descansou por algumas horas. Quando acordou, a propriedade estava cercada por indígenas munidos de tochas. Eles atearam fogo na igreja, que ficava perto da casa dos missionários, os quais fugiram do prédio. Enquanto a igreja ainda pegava fogo, formou-se uma tempestade atípica que veio na direção dela e apagou o fogo, antes que também fosse incendiada. Os nativos fugiram gritando frases de ordem como: O Deus deles está ajudando-os. No dia seguinte, porém, voltaram dispostos a terminar o que haviam começado. Contudo, um barco chegou ao cais, naquele momento, e os missionários fugiram da ilha na embarcação, sob o olhar atônito dos nativos.

Depois de deixar Tanna, Paton passou uma temporada na Austrália e outra na Europa, falando nas igrejas e angariando fundos para o trabalho nas Novas Hébridas. Ele retornaria ao Pacífico Sul em 1866, acompanhado de sua nova esposa, Margaret Whitecross. O casal se instalou em outra ilha, Aniwa, no Sul do arquipélago. Ali, o missionário viveu experiências muito parecidas com as que havia passado em Tanna. Encontrou as mesmas superstições, o canibalismo, a hostilidade e ameaças de todo tipo. Apesar disso, Margaret e ele perseveraram, e Paton iniciou um trabalho de tradução da Bíblia para a língua local. Ele permaneceria ali por mais de uma década, período em que todos os habitantes de Aniwa se converteram a Cristo. Ali nasceram os dez filhos do casal (quatro deles, entretanto, morreram ainda na infância).

O missionário conseguiu visitar Tanna outras vezes e reencontrar amigos que fizera ali. Mas, a partir da década de 1880, passaria mais tempo fora das ilhas, promovendo a obra missionária na Austrália, Europa, Estados Unidos e Canadá. Ele também trabalhou arduamente pela tradução do Novo Testamento na língua de Aniwa. No início dos anos de 1900, Paton havia fixado residência na Austrália para dar continuidade ao trabalho de tradução e publicação da Bíblia aniwa.

John G. Paton esteve envolvido com a obra missionária até o fim de seus dias. O homem que tantas vezes os canibais tentaram matar partiu para a Morada eterna somente em 1907, aos 83 anos, de causas naturais. (*Com informações de Wholesome Words)


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