Missões/China-EUA | Revista Graça/Show da Fé
Jornal das Boas-Novas – 258
01/01/2021
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Missões/China-EUA

Foto: Chakrapong Worathat / 123RF

Lados opostos

Igreja cresce na China, sob perseguição; nos Estados Unidos, onde há liberdade, cada vez menos pessoas se identificam como cristãs

Por Evandro Teixeira

China e Estados Unidos (EUA) estão entre as principais potências do mundo e disputam proeminência no cenário mundial. Mas as semelhanças terminam aqui. Eles são díspares em diversos aspectos, e o fator religioso é um deles. A história norte-americana está diretamente ligada ao cristianismo: tal nação nasceu a partir de 13 colônias formadas por protestantes oriundos da Inglaterra. Paradoxalmente, com toda a liberdade religiosa existente, o país registrou uma queda de 12% no número de cidadãos que se identificavam como cristãos nos últimos anos. Em 2007, eram 75%, agora, 63%; entre os protestantes, a porcentagem caiu de 51% para 43%; entre os católicos, de 24% para 20%, de acordo com informações colhidas em 2018 e 2019 pelo Centro de Pesquisas Pew, que tem sede em Washington, capital.

Foto: Erika Giraud / Unsplash

Em território chinês, o cristianismo chegou por intermédio de missionários estrangeiros a partir de 1865. Com a instalação do socialismo, nos anos de 1960, a Igreja experimentou intensa perseguição. A intolerância do Partido Comunista Chinês (PCC) só enfraqueceu um pouco quando o país começou a se abrir para a economia de livre mercado a partir da segunda metade dos anos de 1990. Contudo, hoje, o atual secretário-geral do PCC e presidente chinês, Xi Jinping, tem se mostrado implacável contra diversos grupos religiosos, principalmente os cristãos. Não faltam denúncias de pastores e servos de Deus sendo presos e de igrejas fechadas pelo regime implementado por Jinping. 

O atual secretário-geral do PCC e presidente chinês, Xi Jinping, tem se mostrado implacável contra diversos grupos religiosos, principalmente os cristãos  Foto: Governo da China / Fotos Públicas

Mesmo diante de tantas barreiras, até mesmo os dados oficiais do governo de Pequim dão conta de que a fé cristã permanece firme por lá: cerca de 200 milhões dos 1,4 bilhão de habitantes são considerados religiosos, e, entre eles, o protestantismo é a fé que mais cresce, com, pelo menos, 38 milhões de adeptos (2,7% da população). Há algumas décadas, esse número não passava de 22 milhões de evangélicos. A China ocupa o 23º lugar na Lista Mundial de Perseguição 2020, ranking elaborado, anualmente, pela Missão Portas Abertas, no qual são classificados os 50 países onde os cristãos mais sofrem perseguição. De acordo com essa agência missionária, a Igreja na China tem realmente crescido – e até mais do que mostram as estatísticas oficiais. O número de crentes em Jesus seria de 92,7 milhões de pessoas.

Lares evangélicos – Na avaliação do secretário-geral da Missão Portas Abertas no Brasil, Marco Cruz, a intolerância religiosa faz o cristão se apegar mais às verdades da Palavra e viver o cristianismo de forma mais autêntica. É o que, segundo ele, vem acontecendo na China, onde as práticas do Evangelho são mantidas em muitas famílias e transmitidas para todos os membros. Tendo em vista a alta taxa de natalidade entre os chineses, compreende-se que o aumento do número de cristãos se deva, em parte, ao número de nascimentos em lares evangélicos. 

O secretário-geral da Missão Portas Abertas no Brasil, Marco Cruz, diz que alguns recursos tecnológicos têm sido usados na solidificação do Evangelho em solo chinês Foto: Divulgação / Missão Portas Abertas

No entanto, por haver uma limitação governamental a respeito da quantidade de filhos por família, Marco Cruz entende que o esforço missionário da Igreja chinesa colabora para esse crescimento também. Ele frisa que alguns recursos tecnológicos têm sido usados na solidificação da Palavra em solo chinês. “Cultos, treinamentos, aulas e discipulados são realizados via internet, além da distribuição de livros, Bíblias e material cristão por chips de celulares”, informa. 

Ao ser indagado sobre a situação do Evangelho nos Estados Unidos, Marco Cruz observa que, por pertencerem a um país livre de perseguição, os cristãos norte-americanos estão se voltando para o secularismo e renunciando à fé. Em sua opinião, a facilidade de encontrar templos abertos e a farta literatura bíblica disponível gera um comodismo que os leva a um entendimento equivocado da vida cristã, segundo o qual qualquer pessoa pode se afastar de Deus e voltar quando quiser. Porém, lembra ele,  a perseguição aos cristãos está prevista na Bíblia e vem crescendo no globo todo, inclusive nos países onde o direito à crença é garantido. “Da noite para o dia, podemos ver qualquer nação afundada na intolerância religiosa”, alerta, citando como exemplo a Eritreia, país do Norte da África. Até 1993, a nação tinha plena liberdade de crença. No entanto, após aquele ano, as mudanças no cenário político fizeram milhares de cristãos serem perseguidos, presos (sem direito a julgamento) e mortos. Agora, o país ocupa o 6º lugar na Lista Mundial da Perseguição de Portas Abertas.

Cenário hostil – No mesmo ranking, a China saiu da 27ª posição, em 2019, para a 23ª, em 2020, devido ao recrudescimento de ações governamentais que visam limitar ainda mais as ações dos cristãos. Segundo a Lista Mundial da Perseguição 2020, o governo chinês tem se esforçado para encaixar toda e qualquer ideologia religiosa em seu modelo de país e em sua interpretação do socialismo. […] a liderança da China luta para manter tudo sob controle. Seu objetivo de manter o poder inclui a necessidade de controlar todas as religiões, especialmente a minoria cristã, que cresce bastante, declara o documento.

Por causa do nítido avanço do cristianismo naquela nação asiática, os crentes são vistos como uma ameaça pelo Partido Comunista Chinês, e, para barrar esse crescimento, Xi Jinping quer criar um senso de nacionalismo entre os chineses, indicando que todos precisam se submeter, sem questionamentos, aos pensamentos do partido. O que o governo está procurando fazer é: se você é chinês, vai concordar com o governo comunista e sua ideologia. A Igreja e o cristianismo são frequentemente vistos como ocidentais e como opostos à cultura chinesa, explicou Greg Musselman, representante da organização missionária A Voz dos Mártires, no Canadá, em entrevista ao site de notícias norte-americano Mission Network News (MNN). Apesar do cenário hostil, Musselman acredita que está em curso um grande avivamento na terra chinesa. Projeções apontam que a China poderá atingir a marca de 224 milhões de cristãos até 2030, tornando-se o país com maior número de seguidores de Cristo do planeta. 

Greg Musselman, representante da organização missionária A Voz dos Mártires, no Canadá: A Igreja e o cristianismo são frequentemente vistos como ocidentais e como opostos à cultura chinesa Foto: Reprodução

OPr. Silas Marchiori Tostes, presidente da Missão Antioquia, lembra que, a exemplo do que acontecia com Israel, nos tempos bíblicos, quando a nação se voltava para Deus em tempos difíceis, os cristãos de hoje tendem a agir da mesma maneira. No caso dos chineses, as restrições impostas pelo regime de Pequim os fazem se aproximar mais do Senhor. “Um ambiente limitador ajuda a buscar a proteção e o livramento divinos”, comenta Tostes, exaltando os esforços missionários dos cristãos chineses, comprometidos com a tarefa de levar seus pares ao conhecimento do Salvador.  

O Pr. Silas Marchiori Tostes, presidente da Missão Antioquia, exalta os esforços missionários dos cristãos chineses, comprometidos com a tarefa de levar seus pares ao conhecimento do Salvador   Foto: Arquivo pessoal

Abertura econômica – A missionária e psicóloga Talita Souza da Silva de Oliveira, membro da Primeira Igreja Batista de São João de Meriti (RJ), salienta ainda que dar a vida pelo Evangelho sempre fez parte da vida cristã, desde a morte e ressurreição do Messias. Por isso, diversos cristãos entraram para a História como mártires. “Assim como aconteceu no passado, sucede hoje: quanto mais perseguida, mais a Igreja cresce”, afirma a missionária. Ela entende que as barreiras impostas podem ser derrubadas pelo mover do Espírito Santo e, assim, mudar os rumos daquela nação. “Acredito que isso possa ocorrer na China”, pontua.

A missionária e psicóloga Talita Souza da Silva de Oliveira: “Assim como aconteceu no passado, sucede hoje: quanto mais perseguida, mais a Igreja cresce” Foto: Arquivo pessoal

O professor de Geografia Leonardo Ferreira de Oliveira destaca que a abertura econômica chinesa e o processo de globalização facilitaram o acesso dos chineses ao Evangelho. Anteriormente, a maioria deles trabalhava na agricultura e só tinha acesso às informações permitidas pelo governo de Pequim. Com o atual modelo de sociedade, tornou-se possível obter novos conhecimentos, inclusive sobre a fé cristã, em especial nas grandes cidades, que recebem pessoas de todos os lugares do mundo. “Uma vez que se conhece o Evangelho, é natural falar dEle para as outras pessoas. Assim, a Palavra tende a se espalhar por todo o país.”

O professor de Geografia Leonardo Ferreira de Oliveira: “As pesquisas realizadas futuramente vão mostrar o quanto as pessoas se voltaram para a fé” Foto: Arquivo pessoal

Por outro lado, os Estados Unidos, com crescimento econômico bastante regular nos últimos 50 anos, acabaram se afastando um pouco da fé cristã. Apesar desse quadro atual, Leonardo de Oliveira acredita que a comunidade cristã estadunidense despertará e voltará a crescer espiritualmente. Para ele, a pandemia trouxe um vento de tristeza e medo para aqueles que não criam em um Deus soberano e protetor. Na opinião do docente, esse momento crítico, marcado por milhares de mortes causadas pela covid-19 nos EUA, está redundando em um despertamento espiritual de vários cristãos. “As pesquisas realizadas futuramente vão mostrar o quanto as pessoas se voltaram para a fé.”

Foto: Sam Balye / Unsplash

“Poder libertador” – OPr. Hilton dos Santos Sousa Júnior, auxiliar na sede estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em São Paulo (SP), concorda com o Prof. Leonardo. Ele entende que, se por um lado as Boas-Novas pregadas sob perseguição têm libertado milhões de chineses da opressão maligna, por outro o materialismo tem seduzido a nação norte-americana, mesmo com a liberdade religiosa da qual desfruta. O pregador compara os cristãos chineses à mulher samaritana, que se encontrou com Jesus no poço de Jacó. Finda a conversa, e ela não se conteve e disse a toda a cidade a experiência de ter visto o Messias (Jo 4.1-30). “É natural que alguém, ao conhecer o poder libertador do Evangelho, queira compartilhar com outras pessoas. Os chineses têm vivenciado essa experiência.”

O Pr. Hilton dos Santos Sousa Júnior: “É natural que alguém, ao conhecer o poder libertador do Evangelho, queira compartilhar com outras pessoas. Os chineses têm vivenciado essa experiência” Foto: Arquivo pessoal

Com relação aos cristãos norte-americanos, o pastor cita o texto de Marcos 4.19 (Mas os cuidados deste mundo, e os enganos das riquezas, e as ambições de outras coisas, entrando, sufocam a palavra, e fica infrutífera) para ilustrar a situação espiritual do país mais rico do planeta. “Distraídos, alguns cristãos estão se deixando levar, permitindo que a Palavra seja sufocada no coração”, comenta o pregador, que já teve experiências missionárias em países, como Argentina, África do Sul e Egito, e está se preparando para servir na obra de Deus na Romênia.

O Pr. Luiz Renato Maia, presidente da Missão em Apoio à Igreja Sofredora (MAIS), afirma que, em outras nações nas quais se registra intensa perseguição aos seguidores de Cristo, o Evangelho igualmente tem crescido. Nesse contexto de perseguição, defende ele, os crentes tendem a abraçar a fé com mais afinco e verdade. “Em certos lugares, como Índia e Arábia Saudita, não há como ser um cristão meramente nominal. As pessoas são comprometidas com o Pai celeste e não abrem mão disso por nada.” 

O Pr. Luiz Renato Maia, presidente da Missão em Apoio à Igreja Sofredora (MAIS), defende que, nesse contexto de perseguição, os crentes tendem a abraçar a fé com mais afinco e verdade  Foto: Arquivo pessoal

Porém, conforme o pastor evidencia, isso não se verifica em lugares nos quais inexiste o risco de perder a vida por amor a Jesus. “A liberdade dá margem para não nos preocuparmos com a profundidade da vida espiritual.” Mesmo assim, ele pontua que muitos servos do Senhor – inclusive brasileiros – estão empenhados na pregação da Palavra e se dedicam para cumprir o Ide (Mc 16.15). Afinal, independentemente do país ou do nível de perseguição, viver por Cristo é uma questão de obediência ao chamado do Altíssimo. 


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