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Vida Cristã
14/09/2021
Missões – 267
01/10/2021
Foto: Richard Ying / Wikimedia

Vencendo obstáculos

Número de evangélicos no México cresceu na última década, mesmo em meio a desafios

Por Evandro Teixeira

O México é considerado um país cristão: de seus 133 milhões de habitantes, 128 milhões se declaram adeptos de igrejas cristãs. Destes, 14 milhões são evangélicos. De acordo com o Censo de População e Habitação, realizado em 2020, o número de protestantes cresceu 3,7%, desde o último levantamento, apurado em 2010. Esses números foram divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estatística e Geografia (INEGI), que faz esse tipo de pesquisa uma vez a cada década.

Entretanto, apesar de viverem em um país cristão, muitos evangélicos mexicanos sofrem intensa perseguição. Em diversas regiões, especialmente no interior, milícias de narcotraficantes são responsáveis por violentos ataques contra os servos de Cristo. A disputa entre esses grupos por controle territorial cria um ambiente de hostilidade generalizado, e os líderes cristãos estão entre seus principais alvos. “Os pastores são vistos como uma ameaça às atividades desses grupos por se oporem à corrupção e ao uso de drogas. Além disso, rejeitam explicitamente quaisquer solicitações vindas deles”, relata Marco Cruz, secretário-geral da filial brasileira da Missão Portas Abertas (MPA), organização que atua, em todo o mundo, amparando os cristãos perseguidos.

Marco Cruz, secretário-geral da filial brasileira da Missão Portas Abertas (MPA): “Os pastores são vistos como uma ameaça às atividades desses grupos por se oporem à corrupção e ao uso de drogas” Foto: Divulgação / Missão Portas Abertas

Um dos parceiros da organização no México é o Pr. Rafael Jacinto Garcia [não identificado com foto nesta reportagem por questões de segurança], que começou a atuar como missionário em Oaxaca, no Sudoeste do país, nos anos de 1970. Temos de ser sábios para viver entre grupos rebeldes e ainda sobreviver, declarou, em entrevista à MPA. O ministério do Pr. Rafael Garcia tem sido marcado por acentuadas perseguições. Em uma ocasião, chegou a ser surrado e preso. Em outra, foi baleado. Mas tudo valeu a pena, pois muitas pessoas aceitaram Jesus, testemunhou.

O clima de medo permanece em Oaxaca, um dos 31 estados mexicanos. San Agustín Loxicha, um de seus municípios, é conhecido como “terra do sangue” devido às altas taxas de violência. A guerrilha tem um controle rígido e está monitorando nosso templo. Tem sido difícil avançar aqui, mas, quando Deus me chamou para esse ministério, Ele prometeu que estaria comigo, declarou a Portas Abertas o Pr. Elias Romero [não identificado com foto nesta reportagem por questões de segurança], líder de uma igreja da cidade.

Fachada de templo da Igreja Internacional da Graça de Deus no México: intrepidez para cumprir o Ide naquele país Foto: Divulgação / IIGD México

Estratégias diferenciadas – A intolerância aos evangélicos também é marcante nas comunidades indígenas do interior do México, país com grande população nativa, de 16 milhões de pessoas. Geralmente, nessas áreas, a religiosidade local prevalente é uma forma sincrética de catolicismo romano e crenças indígenas locais. De acordo com a Missão Portas Abertas, quem decide abandonar a prática desses rituais (fortemente arraigados na cultura das aldeias) enfrenta rejeição e punição na forma de multa, encarceramento ou deslocamento forçado.

A cirurgiã-dentista Adriana Castilleja Ibarra informa: “Algumas organizações indígenas defensoras dos direitos humanos têm ajudado na luta a favor da liberdade religiosa” Foto: Arquivo pessoal

Braulio e Regina [nomes fictícios usados por questão de segurança] são recém-convertidos e vivem em Huacaxtitla, um vilarejo com apenas 526 habitantes, no estado de Hidalgo, no Centro-Leste do país. Eles começaram a frequentar uma igreja evangélica em 2020 e, desde então, têm sido perseguidos pelas autoridades locais. Em novembro do ano passado, Braulio foi escolhido para ser um dos delegados da cidade. Porém, quando souberam de sua conversão, os líderes do vilarejo voltaram atrás na decisão. Além do mais, sua família perdeu o acesso a serviços públicos, como cuidados de saúde e educação para os filhos, e não tem mais permissão para enterrar parentes no cemitério local. Braulio e a esposa têm sido acompanhados por parceiros da Missão Portas Abertas, os quais lhes dão apoio espiritual, material e jurídico. Um advogado tentou acordo com a liderança da aldeia para restabelecer os direitos dos cristãos, no entanto, não houve avanço nas negociações.

O pastor norte-americano Clayton Coulter lembra que vários mexicanos têm buscado comunhão mais profunda e significativa com o Senhor Foto: Arquivo pessoal

O problema verificado em Huacaxtitla é comum em várias regiões remotas do México. “Algumas organizações indígenas defensoras dos direitos humanos têm ajudado na luta a favor da liberdade religiosa”, informa a cirurgiã-dentista Adriana Castilleja Ibarra, membro do Internacional Christian Center, em Heroica Matamoros, no estado de Tamaulipas, no Nordeste do país. Como profissional de Odontologia, ela desenvolve um trabalho social e evangelístico em sua cidade, uma área livre de perseguição.

Entretanto, a especialista informa que estratégias desse tipo também têm sido usadas para levar a mensagem de Cristo a regiões onde o Evangelho não é bem-vindo, já que profissionais de saúde podem ter sua entrada facilitada nessas localidades. Contudo, a dentista ressalta que o número de conversões vem crescendo em território mexicano, principalmente por causa dos esforços de missionários que se arriscam entrando em regiões onde pregar as Boas-Novas é proibido.

A obreira Guadalupe Quelethzu Flores Lugo, da IIGD na Cidade do México (capital) avisa: “Ainda há bastante a ser feito em solo mexicano” Foto: Arquivo pessoal

Para o pastor norte-americano Clayton Coulter, o acréscimo no número de evangélicos no México, mesmo em um clima de medo e insegurança, indica que tem havido um mover de Deus por lá. Fundador e um dos diretores da organização missionária World Changing Missions, o pregador vive em Harlingen, cidade do Texas (EUA) vizinha à fronteira, e realiza ações missionárias em terras mexicanas. Segundo ele, vários mexicanos têm buscado comunhão mais profunda e significativa com o Senhor. “Muitos cristãos acreditam que um grande avivamento acontecerá lá em breve.”

“Boas estratégias” – A Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) está entre as comunidades cristãs que têm se levantado com intrepidez para cumprir o Ide no México. Afinal, o desafio de expandir a Palavra não se restringe às regiões mais remotas onde há perseguição. Nos grandes centros urbanos, onde existe maior tolerância e liberdade para a pregação, milhares seguem presos a tradições religiosas e carecem de libertação. “Ainda há bastante a ser feito em solo mexicano”, observa a obreira Guadalupe Quelethzu Flores Lugo, da IIGD na Cidade do México (capital), liderada pelo Rev. Enrique Monzón Nadal.

Rev. Enrique Monzón Nadal, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus no México: alcance do trabalho de evangelização percebido, em especial, pelo alcance de suas lives no YouTube Foto: Arquivo pessoal

Guadalupe Lugo salienta que, em comparação ao total da população, o número de evangélicos mexicanos ainda é pequeno. “Devemos continuar constantes na obra de evangelização da sociedade e nos adaptar a diferentes métodos, já que o mundo da tecnologia está crescendo”, pontua a obreira, que é estudante de Psicologia. Ela destaca que diferentes recursos, como as redes sociais, têm sido fortes aliados nas ações evangelísticas da Igreja da Graça no México. Por meio deles, a Palavra tem se espalhado por todo o território. O alcance desse trabalho pode ser percebido, em especial, pelo alcance das lives do reverendo Enrique Nadal no YouTube, atividades que se tornaram mais intensas em função da pandemia. A obreira ressalta que nada substitui as reuniões presenciais e exalta a importância dos cultos voltados às famílias. “Tem gerado impacto na vida das pessoas e levado salvação aos lares”, compartilha ela.

O missionário Alessandro Santos Maciel diz que um dos desafios à obra de evangelização no México é justamente o fato de a maior parte da população se identificar como cristã Foto: Arquivo pessoal

Para o missionário Alessandro Santos Maciel, formado em Missiologia e membro da Comunidade Apostólica da Vitória em Sulacap, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), um dos desafios à obra de evangelização é justamente o fato de a maior parte da população se identificar como cristã. Dessa forma, muitos não despertam para a necessidade de conhecer, de fato, o Evangelho. “[Quando o fazem], em geral, são levados à igreja em busca de renovação espiritual e compromisso com a fé bíblica”, observa.

A missionária e psicóloga Talita Souza da Silva Oliveira chama atenção para o aumento de pessoas que se declararam sem religião no Censo mexicano Foto: Arquivo pessoal

A missionária e psicóloga Talita Souza da Silva Oliveira, da Primeira Igreja Batista de São João de Meriti (RJ), chama atenção para o aumento de pessoas que se declararam sem religião no Censo mexicano. Em 2010, eram apenas 4,7%, e agora são 8,1% (ou seja, 10,7 milhões de habitantes). “O desempenho da Igreja em solo mexicano precisa melhorar, mesmo que as organizações missionárias estejam trabalhando a fim de contribuir para o avanço do Evangelho.”

O Pr. Osny César Costa analisa: “O poder do Senhor é expresso por meio de boas estratégias, oração e ação” Foto: Arquivo pessoal

O comprometimento com a Palavra é essencial para os envolvidos na obra do Senhor, reforça o Pr. Osny César Costa, da Assembleia de Deus em Petrópolis (RJ). Para ele, em se tratando de fazer missões em um país marcado pela perseguição, como é o caso do México, é fundamental ter um preparo específico. “O poder do Senhor é expresso por meio de boas estratégias, oração e ação”, analisa Costa.

Dessa forma, o desdobramento de 3,7% do número de evangélicos em solo mexicano no período 2010-2020 mostra o comprometimento da igreja local e dos missionários estrangeiros com a obra do Pai celeste e confirma o quanto Ele tem agido por intermédio de seus servos naquele país, independentemente das perseguições.


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