Entrevista | Revista Graça/Show da Fé
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Foto: Arquivo pessoal

Perseverança e fé

Missionária que teve o marido assassinado no Quênia continua no país anunciando o amor de Jesus

Por Patrícia Scott

Em junho de 2023, a Pra. Franciane de Oliveira Barbosa vivenciou uma tragédia: a morte do marido, o Pr. Francisco Barbosa, 40 anos, assassinado ao sair de casa quando se dirigia a um supermercado em Nairóbi, capital do Quênia, país do Leste da África de 57 milhões de habitantes. “Ele foi executado a tiros, dentro de seu carro, por dois homens que, em seguida, atearam fogo ao veículo. O corpo dele ficou carbonizado. Não houve pedido de resgate em nenhum momento”, relata Franciane. Quando o crime aconteceu, o casal vivia no país havia nove anos, e o pastor já tinha sido vítima de um sequestro. Quatro anos antes, ficou três horas em poder de bandidos que fizeram contato com a esposa dele exigindo uma quantia para libertá-lo. “Ele apanhou muito. Levaram seus pertences e fizeram um saque da sua conta. Só queriam dinheiro”, revela.

Mesmo com a perda dramática do marido, a missionária, ligada ao Ministério Vida Nova em Planaltina (DF) e à Missão Cristã Mundial (MCM), pretende seguir com a obra de Deus que tem alcançado meninas, viúvas e indivíduos da tribo Turkana, no Norte do país. “Proporcionamos ao povo a esperança em Cristo Jesus a partir dos ensinamentos bíblicos”, afirma Franciane, que, nesta entrevista exclusiva à Graça/Show da Fé, narra detalhes de sua trajetória em território queniano.

Como ocorreu seu chamado para trabalhar no Reino de Deus?

Em janeiro de 2012, fiz um curso oferecido pela Missão Cristã Mundial (MCM) em Trindade (GO). Foram 21 dias de aulas, com dez horas de ministração diariamente. Tive muito contato com obreiros de vários lugares. Por isso, ouvi bastante sobre missões. Nesse tempo, uma chama se acendeu em meu coração a respeito da obra missionária.

Qual tem sido sua atuação como missionária no Quênia?

A partir do nosso trabalho, mulheres, que antes não tinham motivos para sonhar, voltam a sorrir e olham para o futuro. Com a ajuda de nosso projeto Viúvas do Quênia, elas são discipuladas a partir da Palavra e participam da escola de corte e costura. Assim, elas e suas famílias podem ter um futuro melhor, sendo reinseridas de maneira ativa na sociedade. O curso dura de seis a oito meses, e, ao final, as alunas ganham uma máquina de costura para iniciar as suas produções e garantir a própria renda.

Também disponibilizamos um salão de beleza. Nele, recebemos mulheres e viúvas em situação de vulnerabilidade. Elas realizam cursos no local e, ao término, saem com o diploma e o entendimento do quanto são valiosas para o Senhor. Ofertamos o curso de cabeleireira para jovens que vivem em uma situação bem difícil economicamente. Então, damos a elas a oportunidade de terem uma condição de vida melhor e, assim, evitar o casamento precoce.

Além desses esforços, realizamos ações junto ao povo Turkana, no Norte do Quênia. Levamos para eles comida e água e mostramos o amor de Jesus. Lá, a terra é árida, e a pobreza, extrema. Faltam água, alimento, atendimento médico e educação. Os desafios são inúmeros, mas estamos ali como soldados, para que, por nosso intermédio, a Palavra seja conhecida por eles e o Reino do Senhor seja expandido no país. Realizaremos a obra até a volta do Rei dos reis.

Há treinamento para os obreiros locais?

Sim. Trabalhamos com discipulado e formação de obreiros em parceria com igrejas locais. Eles estudam o curso básico de Teologia para alcançarem aprofundamento bíblico. Acreditamos que Deus está levantando homens e mulheres para fazer do Quênia uma nação diferente, com pessoas comprometidas com as Sagradas Escrituras.

Existe perseguição religiosa no Quênia?

É um país pacífico, considerado cristão. Não há perseguição religiosa, mas conflitos tribais. Esporadicamente, ocorrem alguns ataques por causa de dinheiro, na maioria das vezes.

A motivação do assassinato de seu marido é conhecida?

Ele saiu de casa para ir ao mercado, e nunca mais voltou. A polícia local só se envolveu nas buscas 24 horas depois, alegando que antes não seria possível. No segundo dia do desaparecimento, foi encontrado o nosso veículo com o corpo do meu marido carbonizado. A Bíblia ficou intacta, mesmo com toda a destruição. No entanto, foi impossível reconhecê-lo: precisou de exame de DNA. Não sabemos o que houve. As investigações continuam, e as pistas apontam para um sequestro malsucedido, mas o caso não está concluído. E ninguém foi preso.

No dia do ocorrido, você se lembra do que conversaram antes de seu esposo sair de casa?

Naquele dia, meu marido havia tirado a tarde para organizar o escritório, porque estávamos prestes a viajar para a Alemanha, onde divulgaríamos o trabalho missionário. Francisco queria deixar tudo arrumado. Depois, decidiu ir ao mercado. Perguntou se eu desejava algo. Respondi que não, mas lhe disse que, se precisasse, mandaria mensagem. Ele saiu, e não retornou.

Como tem encontrado forças para prosseguir?

Diante daquela situação, orei para que fosse cumprida a vontade do Senhor, ainda que dolorosa. Liberei perdão aos homens que cometeram o crime. Peço a Deus que tenham uma experiência com Ele e aceitem o amor de Cristo. Isso não significa que não terão de responder criminalmente. Decidi adorar e exaltar o Altíssimo e não murmurar. No dia que tive certeza da morte do meu marido, estava acompanhada de alguns missionários. Pedi que pegassem o violão para adorarmos ao Pai. Então, decidi construir a minha história apesar da dor, sem retroceder, olhando para Jesus.

Que legado o missionário Francisco deixou?

Em João 12.24, lemos: Se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto. Acredito em uma colheita que está por vir. Não devemos desistir do chamado de Deus para nós mesmo em meio à dor. Francisco cumpriu sua missão com excelência, mas estamos aqui. Então, que possamos continuar a pregar o Evangelho aos povos não alcançados nos confins da Terra até que o Senhor venha.

Franciane de Oliveira Barbosa
Missionária

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