Entrevista | Revista Graça/Show da Fé
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Foto: Arquivo pessoal

Terceira cultura

Pastor ressalta a necessidade de seguir os passos de Cristo para vencer espiritualmente

Por Patrícia Scott

Atuar em um campo missionário transcultural requer renúncias. Existe a necessidade de aprender um novo idioma, além de se adaptar à cultura e aos hábitos locais. O desafio é enorme, e, se o obreiro tiver filhos, eles também terão de passar por esse processo. Por isso, a missionária Alicia Bausch Macedo, coordenadora do Ministério Philhos, ligado ao Departamento de Cuidado Integral do Missionário (CIM) da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), tem se dedicado, nos últimos anos, ao cuidado dos filhos dos missionários. Segundo ela, cuidar desses pequenos não é só uma estratégia para otimizar o trabalho de seus pais no campo.

Casada com José Rosifran Macedo, mãe de três filhos, avó de cinco netos e autora dos livros Estamos de mudança e Criando filhos entre culturas (ambos publicados pela Editora Ultimato), Alicia acredita que preparar os filhos dos missionários antes do envio ao campo transcultural é imprescindível. Ela afirma que essas crianças são conhecidas como Filhos de Terceira Cultura (FTC), pois passam grande parte da infância longe das origens dos pais e crescem absorvendo elementos de várias culturas sobrepostas e, às vezes, conflitantes com sua identidade.

Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, Alicia frisa que eles passam por várias transições. “Muitas vezes, até os 18 anos, já se mudaram mais do que uma pessoa monocultural na vida inteira”, informa a missionária, asseverando que tais deslocamentos acarretam perdas que precisam ser tratadas. “Para serem bem processadas, é necessário passar pelo luto, sentindo e expressando a dor.”

Qual é o papel do Ministério Philhos?

Promover o bem-estar do filho de missionário brasileiro transcultural e de sua família. Os voluntários, capacitados em diversas áreas de atuação, ressaltam a beleza de ser criado entre culturas e, ao mesmo tempo, equipa-os, assim como suas famílias, para lidarem com os desafios inerentes ao estilo de vida missionária transcultural. Desejamos que floresçam em sua unicidade e se conectem com Jesus, experimentando Sua bondade e compaixão e sendo transformados por elas.

Quais são os desafios enfrentados pelos filhos de missionários transculturais?

Falta de raízes, sentimento de não pertencer a lugar nenhum. Para eles, o senso de pertencimento está na comunhão. Sentem-se solitários devido às mudanças constantes da própria família ou das outras famílias de missionários. Desconhecem a própria cultura, história e seus valores. Vivendo distantes de seus parentes, não cultivam laços profundos. Eles têm medo de perder conexões, sonhos e projetos. Apresentam uma identidade cultural confusa. Em alguns casos, até a adolescência, não têm muitos questionamentos quanto à identidade. Mas, quando chegam à maioridade, principalmente na reentrada ao país de origem, questionamentos como “quem sou eu?” ficam mais fortes. Também têm dificuldade de manter a língua materna e enfrentam obstáculos acadêmicos.

Como as crianças veem a vida no campo missionário transcultural?

Os pequenos sentem, mas não sabem identificar ou expressar os sentimentos com palavras. Por isso, tendem a reagir com mudanças comportamentais: “grudam” nos pais, regridem em algumas atitudes, ficam agressivos ou chorosos. É importante que a família tenha paciência e demonstre afeto, criando um espaço onde as crianças se sintam seguras no meio da turbulência emocional. Em geral, o mundo delas gira em torno dos pais. Dessa forma, tendem a absorver os sentimentos do pai e da mãe. Se estes estão se adaptando bem, os filhos se adaptam da mesma maneira e, relativamente, em pouco tempo.

É comum os filhos de missionários estarem insatisfeitos no campo?

É normal estarem tanto satisfeitos quanto insatisfeitos. Há o lado bom e ruim. Um não anula o outro. Lidam com emoções paradoxais nas transições e no dia a dia. Por exemplo, ir para um novo país pode ser animador e, ao mesmo tempo, assustador. Eles podem se sentir felizes em um novo lugar e, ao mesmo tempo, tristes por precisarem deixar pessoas amadas para trás. Talvez gostem demais de estar em uma escola em regime de internato com outros adolescentes e também sintam intensamente a falta dos pais.

Uma coisa é não estar satisfeito com a situação no campo; outra é não estar bem. É nosso desejo que estejam bem. Isso requer, acima de tudo, que os pais estejam satisfeitos – não muito estressados – no relacionamento conjugal e sejam presentes. Para o filho de missionário adolescente estar bem no campo, ele precisa ter amigos, em especial filhos de outros missionários, para que sejam entendidos e tenham em quem se espelhar.

É normal os filhos de missionários se sentirem cobrados a seguir o exemplo dos pais?

Sim. Sentem-se cobrados pelos pais, pela comunidade missionária e pela igreja. Podem entender que só conseguirão agradar aos pais e a Deus sendo missionários. Por essa razão, não olham para o que o Senhor poderia oferecer-lhes. Em alguns círculos missionários, existe a ideia de que a universidade (a educação secular) não faz bem, e o filho pode ser desencorajado a se desenvolver em outras áreas, onde estão precisando de cristãos e que poderiam abençoar a obra de Deus. Por outro lado, há uma falta de entendimento sobre o chamado divino para cada indivíduo e sobre o Corpo de Cristo, composto por muitos membros. Cada um ocupa o seu devido lugar, como o apóstolo Paulo afirma em 1 Coríntios 12.

Quais problemas afetam mais a família missionária?

A família missionária é exposta a situações complexas. Muitas vezes, contam com recursos limitados. A própria mobilidade da família compõe um desafio tremendo para a estabilidade emocional dos membros. O vai e vem constante, os deslocamentos, as adaptações às novas situações, as pressões do lugar desconhecido, a distância dos familiares, a quebra das rotinas, as demandas do ministério, a falta de recursos e outros fatores contribuem para desestabilizar a família. Então, é importante que tomemos passos conscientes para equipar e fortalecer a família missionária, ajudando-a a ser mais resiliente.

Como tornar resilientes os filhos de missionários?

Além de cultivar sua fé, por meio da oração individual e conjunta, é preciso cuidar para que os clamores não sejam apenas petições por ajuda, mas também de louvores e gratidão. Gosto da definição que explica a oração como a “prática da presença de Deus”. É necessário compartilhar em família as orações respondidas no ministério e se alegrar juntos. A leitura bíblica, o estudo devocional em família e as conversas espontâneas são oportunidades para aumentar a fé dos pequenos. Biografias missionárias despertam a imaginação e o altruísmo, mostrando a resiliência e o sacrifício próprio em meio às tribulações.

Alicia Bausch Macedo
Missionária e coordenadora do Ministério Philhos

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