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Falando de História – 255

Abraão de Almeida

NOVAS CORRENTES TEOLÓGICAS (PARTE 2): A TEOLOGIA DA ESPERANÇA

Na edição anterior, dissertamos sobre a teologia do mito. Neste número, falaremos da teologia da esperança, uma utópica corrente teológica – promovida principalmente pelo polonês Wolfhart Pannenberg (1928-2014) e o alemão Jürgen Moltmann, hoje com 94 anos – que deriva da dialética hegeliana de um conceito otimista do homem.

Essa teologia  constitui uma reação ao barthianismo antiescatológico, pois leva a sério a história e o futuro, considerando este dependente daquela, reagindo, assim, ao existencialismo de Karl Barth (1886-1968) e Rudolf Karl Bultmann (1884-1976), que enfatiza o aqui e o agora.

Foto: Grant Ritchie / Unsplash

Pannenberg e Moltmann situam o problema do mistério de Deus em termos de futuro escatológico, em uma tentativa de evitar o que consideram falácia do ontologismo divino [sistema filosófico mais associado ao filósofo francês Nicolas Malebranche (1638-1715), o qual sustenta que Deus e as ideias divinas são o primeiro objeto de nossa inteligência e a intuição do Altíssimo, o primeiro ato de nosso conhecimento intelectual]. Para eles, o caráter misterioso do Criador estaria no fato de que, ao longo da História, o homem recebeu apenas as promessas de salvação futura. Desse modo, Deus não estaria no passado, nem em algum espaço, pois Ele seria o poder do futuro, chamando tanto o homem como a História para a sua complementação. Nessa direção, interpretam-se as categorias tradicionais da teologia cristã.

Nesta escola, Jesus significaria o penhor da realização futura, aquele que leva o cristão para o reino celeste que ainda não veio; é dito que, na ressurreição de Cristo, o futuro foi revelado prematuramente, e o Onisciente, por meio dela, reclama as reivindicações de Jesus antes de Sua morte. Defende a ideia de que, até o final da História, apenas podemos falar da ressurreição do Messias em termos metafísicos; o homem tem possibilidade de apressar a vinda do futuro; o poder da promessa divina não está na fidelidade do Eterno, e sim na obediência do homem.

Como uma reação ao desespero existencialista, a teologia da esperança é caracterizada pela fé no futuro e pelo otimismo, pois a esperança se baseia na promessa divina, e o cristão suporta as contradições do presente porque vive na expectativa do futuro. Cabe ao ser humano viver ativamente nesse interregno entre a promessa e seu cumprimento, contribuindo mesmo para trazer o cumprimento.

Na teologia da esperança, o tempo que aponta para o futuro é a substância da realidade. De acordo com Pannenberg, não se pode basear a fé no Redentor sobre a reivindicação feita por Ele antes da ressurreição. A importância desta é demonstrada pelos fatos seguintes: assinala o início do fim do mundo; Deus confirmou a autoridade reivindicada por Cristo; a ressurreição permitiu aos discípulos do Mestre identificá-lo como o Filho do Homem; foi uma motivação para que o Evangelho fosse levado aos gentios; o significado da ressurreição é o próprio Jesus ressurreto.

Segundo Jürgen Moltmann, a ressurreição de Cristo, efetuada pelo Deus de Abraão, mostra que esse Deus é o mesmo do êxodo, da promessa e do futuro. Para Moltmann, a vida humana precisa arriscar-se para ser ganha. Mas, para arriscar-se, precisa de um horizonte de expectação, que é o reino celestial prometido e futuro, o qual consertará o mundo. Somente, então, a justiça do Alto terá pleno cumprimento em todas as coisas.

Exame crítico – As principais observações críticas à teologia da esperança se referem ao fato de que:

• Rejeita as profecias como sendo história prescrita, embora enfatize o aspecto escatológico da revelação divina.

• Mesmo as promessas já cumpridas na história de Israel estão sujeitas a novas interpretações e novos cumprimentos.

• Absurdamente, para esses teóricos, o futuro trará algo totalmente novo, mesmo para Deus.

• Embora fale da ressurreição como promessa do futuro, nada fala da cruz como pagamento do pecado.

• Ignora-se o efeito do pecado: o homem é apresentado livre e capaz para o futuro, e não prisioneiro do mal.

• Os defensores dessa teologia acreditam que, se o homem pode apressar o futuro por participar ativamente na sociedade, a sua obediência trará o futuro e não Deus. Tentam reduzir o papel de Deus a mero espectador.

• Longe de parecer uma renovação da escatologia bíblica, a teologia da esperança apresenta um plano de redenção universalista baseado no próprio esforço humano.

• Dizem também que Deus não parece ser totalmente Deus, uma vez que Ele também tem um futuro cheio de possibilidades. Ao contrário do que diz a Bíblia, afirmam erroneamente que o Senhor não é o que diz ser.

• Em virtude da ênfase na escatologia, os atos históricos e definitivos de Deus são esquecidos. Mas o Altíssimo não está apenas no futuro, mas também no passado.

Moltmann igualmente defendia o ecumenismo e a implantação de um governo mundial. Em discurso proferido em Utrecht (Holanda), em agosto de 1972, perante o comitê central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), disse: Outras épocas experimentaram, sem dúvida, conflitos de vida e morte. Hoje, porém, a verdade é que, divididos, estamos condenados; unidos, sobreviveremos. A alternativa é simples: um mundo, ou nenhum. […] Há a necessidade de órgãos internacionais e supranacionais que tomem as decisões e exerçam responsavelmente o poder em favor da paz universal, pois nada menos que um governo universal será capaz de controlar responsavelmente o poderio militar e econômico global.

Se a paz universal é imprescindível à sobrevivência da humanidade, um governo universal também o é. Todavia, como não existe tal governo, urge iniciarmos a busca de caminhos que conduzam até lá e começarmos a andar por eles.

Se a única possibilidade de um organismo responsável pela paz universal é a associação da raça humana em alguma forma de governo de âmbito mundial, consequentemente órgãos distintos, de responsabilidades limitadas – instituições políticas, econômicas e religiosas – continuarão a existir e encontrarão justificativa para a sua existência somente à medida que tiverem em vista a paz universal vindoura e o futuro governo global. 

Abraão de Almeida
Pastor da Igreja Evangélica Brasileira em Coconut Creek, Flórida, EUA, e autor de mais de 30 livros em português e espanhol. E-mail: abraaodealmeida7@gmail.com

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