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01/05/2020
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Falando de História

Abraão de Almeida

O liberalismo teológico: os principais pensadores


Nesta edição, vamos começar a falar do liberalismo teológico e seus principais pensadores, responsáveis pelos novos rumos tomados pelo protestantismo:

– Friedrich Schleiermacher (1768-1834), teólogo e filósofo alemão, embora fosse antirracionalista, dizia que não há religiões falsas e verdadeiras. Todas elas, com maior ou menor grau de eficiência, têm por objetivo ligar o homem finito ao Deus infinito, sendo o cristianismo a melhor delas. Ao harmonizar as concepções protestantes com as convicções da burguesia culta e liberal, Schleiermacher foi considerado radical pelos ortodoxos e visionário pelos racionalistas. Na verdade, o seu pensamento filósofo-teológico, embora considerado liberal, está mais perto do transcendentalismo de Karl Barth (1886-1968). 

– Johann David Michaelis (1717-1791), teólogo protestante alemão, foi o primeiro a abandonar o conceito da inspiração literal das Escrituras Sagradas.

– Adolf Von Harnack (1851-1930), teólogo protestante alemão, defende em sua obra principal, História do dogma, a evolução dos dogmas do cristianismo pela helenização progressiva da fé cristã primitiva. Para ele, o cristão tem todo o direito de criticar livremente os dogmas, que são a tradução intelectual do Evangelho. Em outra obra, A essência do cristianismo, reduziu a religião cristã a uma espécie de confiança em Deus, sem dogma algum e sem cristologia. 

– Albrecht Ritschl (1822-1889), teólogo alemão, ensinou que a Teologia não pode seguir o filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), tributário da filosofia grega, do racionalismo cartesiano e do idealismo alemão. Ritschl ressaltou o conteúdo ético da teologia cristã e afirmou que essa deve basear-se principalmente na apreciação da vida interior de Cristo.

– David Friedrich Strauss (1808-1874), teólogo alemão que maior influência exerceu no século 19 sobre os não eclesiásticos, tornou-se professor da Universidade de Tubingen com apenas 24 anos. Em 1836, quatro anos mais tarde, foi afastado do cargo em virtude de sua obra Vida de Jesus, criticamente estudada. Em 1841, lançou, em dois volumes, Fé cristã – Seu desenvolvimento histórico e seu conflito com a ciência moderna, negando completamente a Bíblia, a igreja e a dogmática. 

Em 1864, publicou um segundo volume de Vida de Jesus, quando procurou então distinguir o Jesus histórico do Cristo ideal segundo a maneira típica dos liberais do século 19. Em seu livro A antiga e a nova fé, lançado em 1872, Strauss tentou mostrar a impossibilidade do cristianismo no mundo moderno, propondo então a sua substituição por um materialismo de cunho evolucionista. Suas obras exerceram grande influência sobre os intelectuais da época. Para Strauss, Jesus é mero homem e insiste que é preciso escolher entre uma observação imparcial e o Cristo da fé. Ensinou que o certo é julgar o que os Evangelhos dizem de Jesus pela lei lógica, histórica e filosófica, que governa todos os eventos em todos os tempos. Nas obras de Strauss, não há lugar para o sobrenatural: os milagres são mitos, contados para confirmar o papel necessário de Jesus, daí as referências ao Antigo Testamento. 

A respeito da obra de Strauss, o teólogo suíço Philip Schaff (1819-1893) comentou que Strauss admitia a verdade abstrata da cristologia ortodoxaa união do divino e humano, mas perverte-a, emprestando-lhe um sentido puramente intelectual, ou panteísta – e substitui, partindo de preconceitos panteístas, uma viva realidade por uma abstração metafísica; um fato histórico por uma mera noção; a vitória moral sobre o pecado e a morte por um mero passo na Filosofia e em artes mecânicas; o culto do único vivo e verdadeiro Deus por um culto panteísta de heróis, ou própria adoração de uma raça decaída; o pão nutriente por uma pedra; o Evangelho de esperança e vida eterna por um evangelho de desespero e de final aniquilamento.

– Soren Kierkegaard (1813-1855), teólogo e filósofo dinamarquês, era filho de um homem rico torturado por dúvidas religiosas e sentimentos de culpa. Kierkegaard adquiriu complexos de natureza psicopatológica e possíveis deficiências somáticas. Ele estudou Teologia na Universidade de Copenhague, licenciando-se em 1841. Atacou a filosofia de Friedrich Hegel e afastou-se da Igreja Luterana por julgá-la muito pouco cristã. Para Kierkegaard, só o cristianismo é capaz de vencer heroicamente o mundo, sendo o panteísmo cultural de Hegel impotente contra a consciência do pecado e contra o medo. Ele criticou o hegelianismo em sua acomodação ao mundo profano, por não ser capaz de eliminar a angústia e admitir a existência de contradições irresolúveis entre o cristianismo e o mundo, cabendo ao homem escolher existencialmente entre ser ou não cristão.

Kierkegaard foi redescoberto na Alemanha por volta de 1910, e é considerado o precursor da teologia transcendental, de que Karl Barth, no século 20, seria o principal representante. 

Abraão de Almeida
Pastor da Igreja Evangélica Brasileira em Coconut Creek, Flórida, EUA, e autor de mais de 30 livros em português e espanhol. E-mail: abraaodealmeida7@gmail.com


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