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Foto: Pexels / Nataliya Vaitkevich

Limites necessários

Síndrome de burnout é uma condição causada por excesso de estresse, que prejudica a saúde física e mental dos trabalhadores

Por Ana Cleide Pacheco

Otrabalho faz parte da vida dos seres humanos desde a criação: E tomou o SENHOR Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar (Gn 2.15). É o meio pelo qual as pessoas produzem desde os tempos mais remotos e são identificadas por sua atividade profissional. Abel foi pastor de ovelhas, e Caim foi lavrador da terra (Gn 4.2).

No passado, as atividades eram, basicamente, agrícolas e manufaturas. Quando veio a Revolução Industrial (1760-1840), nasceu um novo conceito de produtividade, o qual poderia ser resumido em uma frase atribuída ao político norte-americano Benjamin Franklin (1706-1790): Tempo é dinheiro. Assim, foram desenvolvidas tecnologias com o intuito de facilitar (e aumentar) a produção nas fábricas e, mais tarde, ampliar os negócios em diversas atividades esconômicas, desenvolvidas nos comércios, em escritórios e nas escolas – só para citarmos alguns exemplos.

Benjamin Franklin (1706-1790), a quem se atribui a frase Tempo é dinheiro” – Foto: Reprodução

Entretanto, com o progresso, os responsáveis por operar as ferramentas tecnológicas – os seres humanos, obviamente – veem-se cada vez mais sobrecarregados. Responder às exigências laborais hoje é uma tarefa que pode até levar homens e mulheres à exaustão. E aqueles que não sabem ou não podem respeitar seus limites acabam adoecendo. Por isso, a síndrome de burnout (termo em inglês que significa combustão completa), também conhecida como síndrome do esgotamento, tornou-se comum no mundo corporativo. Trata-se de uma doença mental e acomete o indivíduo que enfrenta situações de trabalho extenuantes que exigem responsabilidade ou competitividade em demasia.

A chamada Revolução Industrial (1760-1840) trouxe um novo conceito de produtividade e inaugurou um tempo de desenvolvimento de novas tecnologias para aumento da produção nas fábricas – Foto: Reprodução

Manter um bom nível de produtividade no trabalho é diferente de viver sobrecarregado. Contudo, muitas vezes, as pessoas só percebem a diferença quando já é tarde demais. Foi o caso da psicanalista Ana Lúcia Ramos da Silva Oliveira, 48 anos, que não respeitou seus limites e sofreu as consequências disso. Mesmo estando longe do consultório, ela não se desconectava do trabalho, acarretando inúmeros problemas emocionais que comprometeram a saúde física. “Quando tive burnout, ouvi de minha médica que eu deveria estabelecer uma fronteira, pois precisava entender que, fora do consultório, não era mais profissional, e sim alguém que tem vida e outros afazeres. Vivia em uma exaustão acima do normal, porque não me dava descanso”, constata a psicanalista, líder do grupo terapêutico Curada para Curar, da Igreja Oficina de Vidas em Santa Izabel, na cidade de São Gonçalo (RJ).

A psicanalista Ana Lúcia Ramos da Silva Oliveira testemunha: “Quando tive burnout, ouvi de minha médica que eu deveria estabelecer uma fronteira, pois precisava entender que, fora do consultório, não era mais profissional, e sim alguém que tem vida e outros afazeres” – Foto: Divulgação / Isabela Vieira Fotografia

A síndrome de burnout é um problema eminentemente ocupacional, reconhecido pela última edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças (CID-11). Profissionais de algumas carreiras específicas são mais suscetíveis a desenvolver o problema, tais como professores, policiais, jornalistas, médicos e enfermeiros, além daqueles que desempenham dupla ou tripla jornada. Geralmente, a disfunção é causada por excesso de pressão por parte dos superiores, falta de autonomia para tomar decisões e assédio moral ou psicológico.

Em alguns casos, o indivíduo pode não estar apto para a função que ocupa ou já estar desempenhando outras atividades, o que acaba dificultando o atendimento de novas demandas. Todo esse panorama faz a pessoa se sentir sobrecarregada. Normalmente, apresenta cansaço físico e mental, dores pelo corpo, insônia, alteração de apetite e dificuldade de foco. Esses sintomas podem evoluir para depressão e ansiedade. Cabe ressaltar que é comum confundirem a síndrome de burnout com o estresse, mas são condições distintas. [Leia, no final desta reportagem, o quadro Diferenças fundamentais]

A assistente social Cristiane Fonseca conta: “Acabei desenvolvendo o burnout. Levei a situação por quase um ano. Passei mal muitas vezes, tive crises de enxaqueca e lutei contra algumas infecções” – Foto: Arquivo pessoal

Decisão acertada – A assistente social Cristiane Fonseca, 41 anos, conhece bem os sintomas da doença. Ela relata que o problema teve início quando assumiu uma nova função a qual agregava mais responsabilidades. A partir de então, sua vida privada era constantemente invadida pela área profissional. Mesmo nos finais de semana, em dias de folga e, até mesmo, durante a madrugada, seu celular não dava trégua. “Com o passar do tempo, comecei a perceber certos abusos, pedidos inusitados nos meus dias de folga e, como não sabia dizer não, fui absorvendo”, revela.

Com uma filha adolescente que precisava de mais atenção, Cristiane tentou impor alguns limites, porém não foi bem compreendida pelos colegas. “Assim, acabei desenvolvendo o burnout. Levei a situação por quase um ano. Passei mal muitas vezes, tive crises de enxaqueca e lutei contra algumas infecções”, recorda-se. Até que, após uma crise em que ficou dias chorando à toa, Cristiane decidiu fazer algo por sua saúde física e mental: pediu demissão. “Foi a decisão mais acertada da minha vida, pois dinheiro, cargo ou qualquer coisa que nos tire do eixo não valem a pena”, afirma ela, membro da Comunidade da Aliança, em São Gonçalo (RJ).

A consultora em gestão de pessoas Taísa Alves Pacheco, que experimentou a síndrome de burnout ao ser promovida a um cargo de liderança regional: “Acumulei funções e cheguei a trabalhar com covid-19 para dar conta das demandas, que não paravam de surgir” – Foto: Arquivo pessoal

A consultora em gestão de pessoas Taísa Alves Pacheco, 32 anos, experimentou a síndrome de burnout ao ser promovida a um cargo de liderança regional. “Vislumbrei como um desafio interessante”, conta a especialista. Em pouco tempo, ela descobriu que a missão era maior e mais difícil de ser operacionalizada do que imaginava. “Em suma, acumulei funções e cheguei a trabalhar com covid-19 para dar conta das demandas, que não paravam de surgir.”

Após o diagnóstico de burnout, Taísa reavaliou sua relação com o trabalho. “Uma das ações que me impus foi: o que não fosse concluído ficava para o outro dia. Não deixava aquilo acumular em minha mente. Se percebia que era improvável fazer algo, negociava o prazo. Foi difícil lidar com meu líder imediato. Quando percebi que ele não iria mudar, tratei de buscar um novo emprego”, informa. Taísa destaca que, para não se repetirem aqueles eventos desagradáveis, tomou providências a fim de ocupar melhor suas horas livres. “Com o apoio de familiares e amigos, além desse olhar de cuidado comigo mesma, consegui vencer esse tempo desafiador, mas muito promissor, pois me fez crescer como profissional e, principalmente, como pessoa.”

A psicóloga Suellen Guilhen afirma ser necessário impor limites para que qualquer trabalhador possa se manter saudável – Foto: Arquivo pessoal

Prevenir é melhor – A psicóloga Suellen Guilhen, 34 anos, lembra que, no mundo globalizado e competitivo, as pessoas acabam “aprendendo” que se doar ao trabalho, de forma até sacrificial, é uma atitude louvável por demonstrar dedicação e eficiência aos superiores. Ademais, aprendem a amar a ocupação que abraçaram, fazendo dela sua principal fonte de relacionamentos.

Porém, Guilhen afirma ser necessário impor limites nessa situação para que qualquer trabalhador possa se manter saudável e dá alguns conselhos: respeitar o horário de almoço, definir uma hora de saída do trabalho, praticar exercícios físicos, controlar a alimentação, fazer pequenas pausas no dia para relaxamento, ouvir música relaxante enquanto trabalha e conversar com a liderança sobre o que está acontecendo. Quando possível, não levar trabalho para casa e valorizar a hora do lazer. “É bom lembrar que é uma doença que pode ser tratada, mas a prevenção é sempre o melhor caminho”, aconselha. A psicóloga explica que a síndrome de burnout tem cura por meio da psicoterapia e, em alguns casos, de medicação. “Após diagnosticado com a síndrome por um profissional da área da Saúde, em especial psiquiatra ou psicólogo, o paciente deve iniciar imediatamente o tratamento.”

A psiquiatra Patrícia Costa de Amorim aconselha: “definir prioridades pode ajudar bastante no processo de cura, dividir tarefas em etapas, concluir o que começou a ser realizado, fazer uma coisa de cada vez, otimizar o tempo e evitar interferências desnecessárias” – Foto: Arquivo pessoal

A psiquiatra Patrícia Costa de Amorim, 57 anos, acrescenta outros itens à lista de conselhos propostas pela psicóloga Suellen Guilhen. “Além de todo o tratamento recomendado, definir prioridades pode ajudar bastante no processo de cura, dividir tarefas em etapas, concluir o que começou a ser realizado, fazer uma coisa de cada vez, otimizar o tempo e evitar interferências desnecessárias”, enumera Amorim, indicando a relevância de incluir também o próprio bem-estar e considerar os próprios limites.

Segundo a médica, quem desenvolve a síndrome de burnout se deixa abusar pelo trabalho e passa do ponto, gastando mais energia do que deveria para exercer suas atividades. “Por isso, perdem-se na exaustão emocional”, explica. Patrícia de Amorim sublinha que, em qualquer momento da vida, quando algo começa a exigir da pessoa mais do que ela consegue dar, é preciso ter cuidado. “Afinal, manter-se em equilíbrio é tarefa pessoal e intransferível”, conclui.

Diferenças fundamentais

Não apenas o mundo do trabalho, mas também a própria existência humana são marcados pela presença do estresse – uma reação biológica do organismo manifestada em meio a situações reais ou imaginárias de perigo e ameaça. Durante esses episódios, o corpo é colocado em estado de alerta. Hormônios que determinam alterações físicas são liberados para o indivíduo proteger sua integridade e lutar por sua sobrevivência. A frequência cardíaca e a pressão arterial aumentam, músculos se contraem, e a respiração acelera. O corpo todo se prepara para combater a ameaça ou fugir da situação de risco.

Foto: Arquivo pessoal

A síndrome de burnout é um processo construído a partir da exposição crônica e repetida a condições estressantes. Fisiologicamente, o estresse é um alarme que dispara diante do perigo e é desarmado tão logo cessa a ameaça. No burnout, entretanto, o alarme nunca desarma, pois a ameaça não se extingue. Dessa forma, ensinam os especialistas, nem todo estresse é patológico, ao contrário do burnout. “É extremamente importante diferenciar e tratar para que não evolua”, orienta o psiquiatra Ismael Sobrinho (foto), 41 anos, membro da Igreja Batista Central de Belo Horizonte (MG). “Nosso corpo foi feito por Deus, para experimentar doses corretas de estresse, que nos fazem ser produtivos, tomar decisões e nos mover em direção a um objetivo. Sendo assim, essas doses pequenas, ao longo da semana, não são prejudiciais, nem patológicas.”

Já o estresse patológico, de acordo com o médico, é crônico, persistente, duradouro e intenso, prolongando-se por semanas ou meses. “Quando isso se mantém por muito tempo, uma série de substâncias químicas é liberada, de maneira exagerada, como o cortisol e a adrenalina, que promovem um efeito tóxico no organismo”, explica o profissional, ressaltando que esse estresse libera também substâncias inflamatórias no corpo, tais como as citocinas e as interleucinas. “Essas são bombas químicas de inflamação que podem ocasionar o surgimento de inúmeras doenças, como depressão e transtornos de ansiedade.” (Ana Cleide Pacheco)


2 Comments

  1. Robson Silva disse:

    Boa tarde, muito bem explicado vários brasileiros tem experimentado essa condição, isso é horrível para saúde física mental..

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