Entrevista | Revista Graça/Show da Fé
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Foto: Arquivo pessoal

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Presidente da ANED destaca que o homeschooling não depende da condição financeira ou acadêmica dos responsáveis

Por Patrícia Scott

O homeschooling – ou, em bom português, educação domiciliar – é uma modalidade de ensino que ainda não está regulamentada no Brasil. Por isso, as famílias que optam por ela correm risco permanente de sofrer ações judiciais. Atualmente, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 2.401/2019, que pretende corrigir esse empasse, conferindo autonomia às famílias que optarem por esse modelo educacional, amplamente utilizado em mais de 60 países, entre eles, África do Sul, Austrália, Bélgica, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Finlândia, França, Inglaterra, Itália, Japão, Nova Zelândia e Paraguai.

Apesar de ainda não contar com o devido amparo legal, esse tipo de ensino vem sendo adotado por milhares de famílias no país, segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED). “Dados de 2019 apontam que há 11 mil famílias na modalidade homeschooling no Brasil. São, ao todo, 22 mil estudantes com idades de 4 a 17 anos”, afirma o consultor comercial Rick Dias, 51 anos, presidente da ANED. Ele acredita até que esses números estão desatualizados, e estima que, hoje, são cerca de 17 mil famílias. Dados da organização também demonstram que o desempenho dos alunos educados em casa nos exames nacionais do Ensino Fundamental e Médio é excelente.

Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, Dias esclarece o que é esse modelo de ensino e os motivos de seu sucesso.

Por que ensinar crianças e adolescentes em casa, e não na escola?

Na educação domiciliar, os pais têm o controle do processo global de formação dos filhos. A escola, como conhecemos, é uma invenção moderna: não tem mais que 200 anos. Até dois séculos atrás, a humanidade se desenvolvia a partir da educação familiar. As crianças eram educadas pelos pais ou tutores. No entanto, desde que a educação escolar se tornou obrigatória, a sociedade fez uma espécie de divisão de papéis: as famílias ensinam somente valores, costumes, hábitos, regras morais e crenças; as escolas, por sua vez, dão a educação acadêmica. No homeschooling, os pais assumem essa parte também.

O que dificulta a regulamentação do homeschooling no Brasil?

A presunção de má-fé sobre as famílias educadoras, que estão sempre sob suspeita, sendo constantemente acusadas de crimes contra crianças e adolescentes. E há vários mitos. Um deles é que o homeschooling afeta a socialização das crianças; outro é que os pais não teriam condições acadêmicas de ensinar os filhos. Há ainda o paradigma escolar (lugar de criança é na escola), além de ações de sindicatos de professores e organizações ligadas à educação, os quais acusam as famílias educadoras de serem racistas, fascistas, elitistas, modistas e pedófilas. Essas instituições jogam a comunidade acadêmica contra os pais ao afirmar que a educação domiciliar fecha escolas e desvaloriza o professor.

Todas as famílias estão aptas a educar os filhos em casa?

O homeschooling é para todos, mas não é para todo mundo. As famílias que desejam optar pela modalidade pesquisam, procuram conhecer, avaliam todos os ônus e bônus e, então, tomam a decisão. Não tem a ver necessariamente com a condição financeira ou acadêmica dos pais, e sim com o quanto eles estão dispostos a mudar até mesmo o estilo de vida.

O homeschooling substitui a escola?

Assim como a educação escolar e o ensino à distância (EAD), o homeschooling é mais uma modalidade educacional. Um não substitui o outro e não são concorrentes. A educação domiciliar é uma alternativa perfeitamente viável, aprovada em mais de 60 países. Cabe a cada família escolher a modalidade que atenda melhor às suas necessidades.

Quais são as principais características do ensino domiciliar?

A educação integral, que acontece em todo o tempo, e o treino para o aprendizado. Os pais se responsabilizam por todos os aspectos da educação dos filhos: valores, condutas, caráter, questões afetivas e a instrução acadêmica. Qualquer situação pode ser oportunidade para aprender. Os pais não são professores, e sim mediadores, sendo assim, atuam como intermediários entre os filhos e o conhecimento. Não é preciso saber tudo, mas incentivar a criança a pesquisar e buscar o conhecimento. Ensinar o filho a pensar de forma lógica, levá-lo ao autodidatismo, à autonomia. Por outro lado, o modelo escolar é fast food: tudo já está definido no cardápio, em combos. Esse modelo produz passividade.

Há um plano pedagógico para o homeschooling?

Normalmente, os pais educadores prezam por um ensino personalizado, buscando desenvolver o potencial, os dons e talentos de cada criança ou adolescente. O programa pedagógico é definido por eles, os quais geralmente pesquisam até encontrar uma proposta que seja mais adequada ao aprendizado dos filhos. Algumas famílias preferem o modelo tradicional, outras, a educação clássica, e há, ainda, aquelas que optam pelos estudos por temas.

Quais materiais são utilizados?

O material didático está diretamente ligado ao modelo pedagógico adotado por cada família. Muitos pais adaptam o material das escolas, outros traduzem materiais de outros países. E há aqueles que vão construindo o próprio material.

Como deve ser a rotina da família?

Fica a cargo de cada uma, com suas experiências e peculiaridades. Existem famílias com rotinas muito bem organizadas, enquanto outras, não. Educar fora da escola exige certa dose de disciplina, mas cada uma acaba encontrando a rotina ideal para si mesma.

Quais são os benefícios da educação domiciliar?

Formação personalizada e flexível que atende às necessidades específicas ou transitórias de cada criança e adolescente; ambiente seguro e liberdade para acertar e errar; formação de adultos com autoestima sólida; maior envolvimento acadêmico e menor distração; disciplina de estudo e gosto pelo aprendizado; estímulo ao empreendedorismo e ao profissionalismo e maior convivência familiar e comunitária.

Rick Dias
Presidente da Associação Nacional de Educação Domiciliar (ANED)

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