Entrevista | Revista Graça/Show da Fé
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Foto: Arquivo pessoal

Necessidade intrínseca

Especialista explica o procedimento de fertilização in vitro e revela por que tantas pessoas optam por ela

Por Patrícia Scott

No primeiro capítulo de Gênesis, o Senhor abençoou os seres viventes, ordenando que se multiplicassem e enchessem a Terra. Segundo a Bíblia, a fecundidade é um sinal da bênção do Criador. Por isso, mulheres inférteis, como Ana, eram inferiorizadas, humilhadas e rejeitadas (1 Sm 1.6,7; 1 Sm 1.14-16). Ainda hoje, a dificuldade para engravidar é motivo de sofrimento a muitas delas. Entretanto, com o avanço da ciência, as técnicas de reprodução assistida trouxeram uma nova esperança para homens e mulheres considerados estéreis. Entre elas, a mais utilizada é a fertilização in vitro (FIV).

Para entender mais sobre o assunto, Graça/Show da Fé entrevistou o médico Raul Nakano, especialista em Reprodução Humana e fundador da Ferticlin – Clínica de Fertilidade, em São Paulo (SP). Nesta entrevista, ele detalha como é o tratamento e fala das chances de o procedimento ser bem-sucedido e dos principais motivos que levam as pessoas a procurar a reprodução assistida.

O que é fertilização in vitro (FIV)?

É um tratamento médico que exige a indicação de um especialista. Geralmente, é indicado em duas situações: quando há causa tubária, ou seja, trompas danificadas ou obstruídas, e quando o fator masculino está presente, isto é, se o sêmen do marido está com quantidade, qualidade ou motilidade alterada e não permite uma concepção natural. A FIV consiste em fazer o sêmen encontrar o óvulo colhido após uma estimulação ovariana. Em seguida, o resultado dessa união, que é o embrião, é colocado de volta no útero da mulher.

Toda mulher é apta a passar pela FIV?

Desde que haja indicação médica e tenha a capacidade de ovular e um útero, ela estará apta a ser submetida ao procedimento de fertilização in vitro. Esses são os requisitos básicos. É claro que existem exceções, quando alguma comorbidade [toda enfermidade, condição ou estado físico e mental que, em razão da gravidade, pode potencializar os riscos à saúde] ou doença grave pode contraindicar o procedimento.

Qual é o perfil dos casais que buscam a reprodução assistida?

A princípio, não existe um perfil. Qualquer casal pode optar pelo procedimento. Há casais com perfis socioeconômicos e profissionais diferentes. As idades variam também, inclusive as religiões.

A fertilização in vitro é aceita pelas igrejas?

A Igreja Católica Romana, por exemplo, não aceita a manipulação de embriões. No entanto, outras igrejas cristãs não têm tantas objeções.

Nos tempos bíblicos, pesava sobre as mulheres a cobrança para terem filhos. Em sua prática clínica, o senhor percebe que ainda há esse tipo de pressão familiar ou da sociedade?

As próprias pacientes se cobram. Mas é preciso entender que, antes da cobrança bíblica, existe a biológica. O ser vivo tem a necessidade de procriar. Todo ser – seja uma bactéria, um animal, uma planta ou um humano – possui duas funções biológicas: alimentar-se e procriar. Caso contrário, a espécie desaparecerá. Essa necessidade é intrínseca. Então, existe uma cobrança da própria paciente, ou seja, uma autocobrança. No entanto, as mulheres mais intelectualizadas não sofrem tanto com essa pressão.

Quais são as chances de a mulher engravidar no primeiro procedimento?

Depende da idade da paciente e da quantidade de óvulos que ela produz. Existem outros fatores que podem interferir, no entanto esses são os mais comuns. A chance de uma mulher com menos de 35 anos conseguir uma gravidez na primeira tentativa é próxima de 50% ou mais. A partir dos 36 anos, essa probabilidade cai gradativamente de 5% a 7% por ano, chegando a algo em torno de 25% aos 40 anos. A partir de 43 anos, a chance de a mulher engravidar tende a ser menor que 10%. Porém, se a mulher produz uma quantidade grande de óvulos na primeira tentativa, terá uma quantidade excedente dessas células. E, assim, poderá guardar uma parte deles e, no futuro, descongelá-los, a fim de que sejam fecundados e transferidos em uma segunda tentativa de fertilização in vitro, sem a necessidade de tomar medicações para produzir mais óvulos.

O custo do procedimento é elevado?

É bastante elevado. No entanto, se comparado com o custo do tratamento há 20 ou 30 anos, percebemos que o valor caiu pela metade. É dispendioso porque muitos materiais utilizados são caros. O procedimento é realizado com alto grau de controle biológico e técnico, e isso requer o trabalho de vários especialistas. Assim, a alta complexidade acaba elevando o valor do tratamento.

É possível fazer o procedimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS)?

Sim. Em cada estado, geralmente, há um serviço público de referência para tratamento de pessoas carentes. Na cidade de São Paulo, por exemplo, o Hospital Pérola Byington, a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Federal Paulista e a Santa Casa oferecem esse tipo de tratamento. E existem outras instituições que fazem o procedimento a custo mais baixo. Alguns estados têm instituições públicas que dão esse suporte, como Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

O número de mulheres que congelam os óvulos tem crescido. Por quê?

Tem crescido em ritmo acelerado. Atualmente, as pessoas têm mais informações sobre a possibilidade de congelar óvulos e preservar a fertilidade. E cada vez mais mulheres estão atrasando a maternidade, talvez por necessidade profissional, para investimento na carreira ou por falta de opção. As pessoas estão se casando mais tarde, o que faz muitas mulheres terem o interesse de congelar os óvulos antes dos 35 anos. Isso porque, como disse anteriormente, depois dessa idade, a taxa de gravidez cai abruptamente.

Raul Nakano
Especialista em Reprodução Humana

1 Comment

  1. Luciana Avelino de Souza disse:

    Obrigado Senhor por dar oportunidades para todas as pessoas e conhecimento

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